Tia Critídia Lucila gosta de contar histórias de suas viagens.
Enquanto me serve o chá, numa caneca de porcelana Royal Worcester, comemorativa do 40º aniversário de coroação da Rainha Elizabeth II e comprada num antiquário do Brique, pergunta se já fui ao sul da Itália.
Não chego a responder e ela já aciona o apito e coloca o trem da conversa a funcionar.
O trajeto da ferrovia Circumvesuviana – sim, o nome não poderia ser mais apropriado – destaca ela – liga as localidades em torno do Vesúvio. Exibe quantidade absurda de lixo ao longo dos trilhos. Displicência que, de certa maneira, remete ao Brasil. Lá, no entanto, atribuem, para além da pobreza, a uma atitude desesperançada. Estão sempre à espera de uma nova erupção vulcânica.
Compensaria recolher garrafas plásticas, papéis usados, latas de refrigerante? Não poderiam ser soterrados novamente amanhã?
Algumas horas antes, na plataforma da estação ferroviária Pompei Scavi – Villa dei Misteri, misturando idiomas, um funcionário público aconselhava o grupo de turistas: – Cuidado com os napolitanos. Não são confiáveis!
Dentro do vagão, um homem ostenta, no lado esquerdo do rosto, uma lesão cicatricial típica de queimadura. Parece extremamente interessado em bolsas e mochilas, atiradas num dos muitos bancos vazios, após um dia de visita do grupo às ruínas de Pompéia.
Sentada logo atrás, a senhora, cabelos mechados de azul, notando a apreensão dos turistas, apressa-se em esclarecer: – Un povero ubriaco. Bugiardo. Propio come Pinocchio… – Ela gesticula, como se estivesse esticando o nariz, inferindo que não nos seria estranha a figura clássica das histórias infantis – É apenas um bêbado miserável, mentiroso.
Como se necessitasse completar o perfil do personagem, conta, em inglês macarrônico, que o tipo se apresenta como rico senhor de terras, proprietário de uma Villa em San Sebastiano, destruída pela erupção de 1944. E que, para acentuar a mentira, chama a atenção para a cicatriz: – La lava del vulcano!
Antes dela se despedir – desembarcaria na próxima estação – conclui, meneando a cabeça – Um idiota, o coitado nem era nascido “al momento dell’eruzione”.
Tia Critídia lembra dessa história e argumenta que poderia ser um caso de síndrome demencial de Wernicke-Korsakoff. Dá detalhes: a condição tem como causas a carência de vitamina B1 (tiamina), traumas cranianos, encefalites, intoxicações e indiretamente, mas com muita frequência, o alcoolismo. Provoca danos à memória e à cognição. Uma das suas características mais marcantes é conhecida como confabulação, faz o sujeito criar histórias ficcionais e elaboradas mentiras. Nestas, o autor é o primeiro a dar fé, acredita na própria invenção.
Entre nós – ela continua –, não é por carência vitamínica ou outra razão usual que se constata endêmica confabulação. Antes por excesso de ganância e pilantragem. Corruptores e corruptos tentam nos embriagar com suas versões. Nada fizeram, nada sabem, nada viram… Justificam-se pelas regras espúrias que, a proveito próprio, criam e recriam. Serão todos beneficiados com o indulto de um diagnóstico? Confabuladores, inocentes?
Conta que, ao chegar em Nápoles, foi preciso negociar com o cansaço. A curiosidade exigiu uma dose extra de energia e aproximou-se da placa ao lado de uma muda de oliveira, na grama mal cuidada à entrada do Castel Nuovo. Nos dizeres, uma homenagem em tom de recomendação. Dedicada pela Nação Napolitana Independente aos irmãos de Salento: “Plantiamo questo ulivo le cui radici millenarie possiamo rappresentare il riscatto del popolo contro l’arroganza dei governi”.
Não foi difícil traduzir a mensagem. A oliveira, raízes milenares, fora plantada para reforçar a redenção do povo contra a arrogância dos governos. Tia Critídia agora se inflama, chego a perguntar se colocou uma dose de underberg no chá.
– Não tens visto as entrevistas com as nossas autoridades? – pergunta ela. Diz que vai plantar uma oliveira dessas no resto de pátio que lhe sobrou da última enchente. O recado da Nação Napolitana serviria muito bem para as nossas intrigas e conchavos parlamentares, para o descaso, os discursos vazios, atitudes não tomadas, a desavergonhada incompetência.
Nossa democracia, tem pouco tempo de plantio – ela se mostra preocupada – ainda é frágil devido ao solo contaminado pelo excesso de esterco; inescrupulosos políticos, empresários e imorais de variadas estirpes, instituições e mídia atolada em interesses. – Interésses, como diria o Leonel. Filhos ingratos de nossa pátria mãe gentil. Uns filhos da mãe!
Ela olha pela vidraça, de onde em outros tempos podia avistar o rio. Lá fora chove, uma chuvinha fininha. Faz frio. Desenha círculos na toalha sobre a mesa. – Somos nós – ela diz – uns imbecis, cirandando em torno do vulcão.
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Foto da Capa: Italia.it

