
A música “Garçom” de Reginaldo Rossi é um clássico. Os clássicos ultrapassam as fronteiras do tempo e do espaço. Quem nunca ouviu aquele inconfundível trecho da 5ª Sinfonia de Beethoven tocada por algum guitarrista norte-americano ou sanfoneiro pernambucano? Quem (com mais de 40 anos) nunca se sobressaltou com o estridente toque do Nokia da pessoa ao lado, executando o primeiro movimento da 40ª de Mozart, o Mozart 40 para os saudosistas. A Garota de Ipanema foi gravada em uma dezena de idiomas e centenas de intérpretes. O clássico é aquilo que é o modelo idealizado, a peça que reúne todos os elementos que definem um gênero de coisas. Ele também não é estabelecido por vias racionais e intencionalmente estratégicas; não está necessariamente debitado aos pendores e qualidades de quem o criou: o clássico acontece. Por exemplo, uma partida entre o Santa Cruz e o Sport é um clássico: uma peleja com agremiações historicamente rivais, uma partida cujo resultado, via de regra, foge às projeções mais lógicas. Onde ocorrer um encontro futebolístico com tais características, será um clássico.
O dito Brega não é outra coisa senão o passional romantismo executado sob a paleta das cores de nossa cultura popular. O próprio Reginaldo Rossi, inquirido pelo inteligente Jô Soares sobre o que seria o ritmo, defendia que o gênero era universal, posto que, em todo mundo há dor de cotovelo, e lembra Édith Piaf como uma das grandes intérpretes das dores de um coração-partido. Portanto, assim como o peito-apertado é uma experiência a qual todo Homo sapiens está sob o risco de vivenciar, também em todo modo de vida há aquele tipo de lugar que, por aqui, é uma mesa de bar, e há uma espécie de função social que, por aqui, é desempenhada por um Garçom, com G maiúsculo. Pois não é um atendente qualquer, não é um lépido e produtivo entregador de pedidos: é uma instituição. Sua expertise não vem dos cursos do SENAC: vem da vida. Vem de já ter visto muitos dias amanhecerem enquanto limpava as mesas e recolhia as cadeiras depois do último bebum que saiu; não sem antes testar sua paciência (e ética) com as pantomimas envolvidas em tirar a carteira do bolso (resmungando alguma coisa), puxar o dinheiro, entregá-lo (continuando a resmungar), guardar o troco num bolso e carteira noutro (dar mais algum resmungo) e, por fim (quase aos prantos), jurar eterna amizade àquele ser humano que lhe aturou a noite inteira.
Até o mais abstêmico muçulmano (cujo costume não é assentar-se em mesinhas da Brahma ou da Skol) tem o seu lugar de chorar-as-mágoas, até o mais discreto dos nórdicos poderá contar com a fraternidade de um profissional da resignação no momento de seu despropósito etílico.
Assim, por ser um clássico, é que, para minha imediata surpresa, estando no interior de Portugal, após a procissão da padroeira da cidade, evento litúrgico de maior contrição (milhares de pessoas pelas ruas, sem nenhuma zoada de carros de som, bandas filarmônicas executando sóbrias marchas, cortejo seguindo por ruas enfileiradas de reverentes fiéis), nos festejos paroquianos que ocorriam no arraial à frente, o conjunto musical, composto por jovens angolanos, feitas as saudações e acionados os refrões dos patrocinadores, engata ela: “Garçom”, do recifense Rei do Brega.
De imediato, surpreendido, passei alguns instantes para processar o que estava acontecendo. Os festejos haviam se encerrado, estava voltando para a hospedagem quando, então, me dei conta: a questão é que Reginaldo Rossi é um clássico.