
Não tenho dúvidas de que desobedecer é essencial e útil em muitos momentos, dependendo, é claro, das situações que precisamos encarar. Por exemplo, desobedecer para questionar padrões que já não nos servem e apontar outros padrões, mais livres, mais democráticos, é fundamental. É claro que, para algumas camadas da população, não é tão simples assim. Para quem sofre preconceitos absurdos que ainda nos rondam, como pessoas com nanismo e pessoas negras – e aqui dou apenas dois exemplos –, é mais difícil desobedecer, apontar contradições e erros de um meio social que prioriza pessoas normais e brancas. De um modo geral, não há brecha para o escorregão de alguém que a sociedade discriminatória em que vivemos já colocou à margem. Basta observar as atitudes da polícia quando uma abordagem envolve pessoas ou comunidades negras. Normalmente, esta abordagem é cruel, violenta e, por mais que seja apontada e questionada, ainda hoje acontece com muita frequência. Assim como as piadas indigestas em relação ao nanismo, hoje tão comuns.
Já a obediência, mesmo parecendo natural, pode indicar uma submissão perigosa em algumas situações. Não reagir diante de uma atitude agressiva ou de uma humilhação não é bom para ninguém. Submeter-se por medo, timidez, por se sentir inferior, jamais será uma atitude saudável. Esclarecimentos sempre se fazem necessários porque pessoas humilhadas podem se tornar reféns de situações que não conseguem dominar. Acostumadas a baixar a cabeça, fazem o que ordenam, por mais difícil que seja, mesmo que as dores internas sejam grandes. Pode acontecer com empregadas domésticas que precisam manter o trabalho e assim não conseguem reagir, argumentar, defender-se em busca de um tratamento civilizado, que respeite a dignidade que todo ser humano merece.
O rigor excessivo, de um lado e de outro, não é bom. Mudar a rota seria o ideal, mas como fazer isso? Não podemos deixar nossa consciência envelhecer e acomodar-se por medo dos desgastes físicos e emocionais que uma mudança pode provocar entre o obedecer e o desobedecer. São situações que pedem maturidade. Antes de tudo, uma conversa franca, olho no olho, sem medo de críticas e sem minimizar ou ofender a condição de cada um, observando os recortes de classe social, gênero, raça, cor, opção sexual e por aí afora. Todas as diferenças que nos constituem precisam ser respeitadas. Mas não é o que acontece, infelizmente, porque discriminar é um hábito.
Particularmente, acho que a desobediência tem mais condições de mudar realidades que afrontam a integridade de vidas à margem. Vidas que se submetem por medo do que pode acontecer diante de uma reação adversa ou violenta, muitas vezes perdem a esperança. E isso é flagrante em muitas situações que escravizam as pessoas. Nesta seara, temos ainda o machismo exacerbado e o feminicídio, que só vemos aumentar nesses tempos, e as heranças perversas que a ‘casa grande’ nos deixou e ainda reverberam.
Quando minha irmã nasceu e um ano e pouco depois eu nasci, o nanismo ficou evidente na nossa família. Um dos conselhos que minha mãe ouviu foi: “Coloca no convento das irmãs Carmelitas para esconder”. A família não obedeceu e foi em busca de um diagnóstico. O médico foi preciso: “Essas meninas têm nanismo, não vão crescer, mas a inteligência é normal. Coloquem na vida”. A família obedeceu e fomos para a vida, sem medo!
Quando criança, eu costumava fechar as mãos e bater uma mão na outra, dizendo para uma tia muito querida, fundamental na minha infância: “Não badeço, não badeço, não badeço mesmo!”. Reação que acabou virando uma brincadeira na família, especialmente entre primos da minha mãe e das tias quando me encontravam. Não tenho dúvidas de que a minha atitude contribuiu muito para a minha formação. Assim me fiz respeitar, sem ainda ter noção da complexidade do viver!
Hoje entendo muito bem o que desobedecer ou obedecer podem gerar no nosso cotidiano.