
Estávamos em camas de solteiro, uma ao lado da outra. Dormíamos ferradas. De repente, ela pulou para minha cama, disputando uma posição no colchão. Não demorou muito, ela começou a dizer o que precisava ajustar no texto, o que tinha que mudar. Me bateu um desespero, pois, naquele momento, não tinha como anotar, registrar o que ela estava me dizendo.
O que conto acima foi o sonho que tive com a minha orientadora na noite posterior à banca. Na terça, dia 29, foi a apresentação da minha pesquisa de Mestrado. Confesso que acordei aliviada, pois tudo não passava de um sonho. Estou decantando o significado de encerrar essa etapa.
Se para quem está com os neurônios e hormônios a mil, mas em dia, já é difícil fazer uma dissertação, imagina quem resolveu voltar para a academia depois de mais de 30 anos de formada e em plena menopausa. Além disso, desde o final de julho do ano passado, estou driblando intercorrências de saúde, fora outras adversidades.
Coisas da vida humana. Coisas de “white people problem”, uns poderão dizer. O fato é que o próprio tema da minha pesquisa foi e é um peso. Pouca gente se interessa em investigar, querer entender de comunicação de risco em tempos de Desastroceno (denominação que a Norma Valencio dá ao que muitos chamam de Antropoceno).
Desde que me descobri jornalista, avalio um assunto, uma pauta, sob a ótica da importância para a coletividade. Infelizmente, cada vez mais, o que rola na mídia, o que sai da boca de influenciadores, tem relação com dinheiro, ou então com interesses de alguns.
Na pesquisa, analisei vários lados do mundo contemporâneo e da comunicação de risco no desastre de maio de 2024 em Porto Alegre. E cheguei a algumas considerações “provisórias” (sim, pode mudar) sobre como deve ser uma comunicação que realmente se preocupe com as comunidades atingidas.
Nada fácil, precisa de energia. Principalmente vontade política. Recursos vivos e de grana. Será que os tomadores de decisão querem que lideranças comunitárias, formadores de opinião, participem de processos para construção de estratégias de comunicação para salvar vidas e memórias?
Pois eu cogito isso. Proponho a formulação de estratégias para uma Comunicação Pública de Risco Lugarizada. Já que estamos cada vez com maior número de eventos extremos que impulsionam a ocorrência de desastres. Esses episódios, tipo os que têm acontecido com mais frequência no Rio Grande do Sul, leia-se granizo, ciclones, inundações, tornados etc., não podem ser interpretados simplesmente como fenômenos naturais. Para muitos pesquisadores e estudiosos do assunto, isso que as Defesas Civis fazem de se articularem apenas em casos de resposta à emergência é algo mais que ultrapassado. Os impactos produzidos são atravessados por condições sociais, históricas, ambientais, territoriais, políticas, econômicas e institucionais. Por lei, a Defesa Civil precisa trabalhar com planejamento, prevenção, preparação e também com resposta.
Em resumo, busquei compreender o contexto no qual o desastre ocorreu na Capital, analisar as manifestações comunicacionais da Defesa Civil Municipal publicadas no site oficial da Prefeitura e examinar, sob a perspectiva da comunicação de risco, as recomendações apresentadas pelo Programa do Governo Holandês de Redução de Risco de Desastres e Suporte a Surtos (DRRS), contratado pelo município.
A pesquisa parte da distinção entre informação e comunicação, conforme preconiza Wolton, um autor-chave para minhas descobertas. Considera que a simples transmissão de dados não garante que a mensagem seja compreendida ou transformada em ação. Ou seja, Comunicação é Ciência, deve perpassar por todas as fases antes, durante e depois do desastre. Não é só atender à imprensa e produzir releases.
A comunicação de risco envolve muita coisa. Não apenas a produção e disseminação de mensagens, postagens em redes sociais, sites, mas também as condições de recepção, interpretação, percepção, diálogo, participação e capacidade de resposta dos sujeitos expostos.
A contextualização de Porto Alegre evidencia que a vulnerabilidade diante das inundações está relacionada às características ambientais e hidrográficas da cidade, à ocupação urbana, às condições de infraestrutura e à memória de eventos anteriores.
A inundação de 2024 revelou a interdependência entre diferentes territórios, especialmente pela contribuição dos rios que integram a Bacia Hidrográfica do Guaíba. O relatório do governo holandês também identificou uma combinação excepcional de fatores meteorológicos e hidrológicos, associada às chuvas intensas, aos ventos, às condições de escoamento e ao nível das águas. Nesse contexto, a experiência de risco não se restringe ao espaço físico onde ocorre a ameaça, mas envolve relações, experiências, memórias, percepções e modos de vida.
É nessa discussão que a noção de lugar antropológico de Marc Augé contribui para a construção do conceito de Comunicação Pública de Risco Lugarizada. A pesquisa estabelece uma distinção entre territorialização e lugarização. Territorializar o risco significa reconhecer onde ele se manifesta e considerar as condições específicas dos territórios, como bairros, áreas vulneráveis, cursos d’água, infraestrutura e condições ambientais e sociais.
Lugarizar a comunicação implica avançar em direção à maneira como o risco é vivido, percebido, interpretado e enfrentado pelos sujeitos. O lugar, portanto, não é compreendido apenas como localização, mas como espaço constituído por relações, identidades, memórias, experiências e modos de vida.
Para encerrar, já que estamos em véspera de eleição, para muitos a mais importante da História, provoco: que tal lugarizar o seu voto? Vamos investir em candidatos que se preocupam com o bem-viver onde você mora? Vamos escolher quem está preocupado com a qualidade de vida dessa e das futuras gerações? Vamos optar por candidatos que respeitem o ambiente e invistam na prevenção de desastres? Bora?
Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI.
Participe da campanha Outros Lados do Contexto e colabore com o financiamento coletivo para que eu possa continuar escrevendo no Sler. Agradeço demais o apoio, principalmente de mulheres que vêm me apoiando de distintas formas, seja lendo, compartilhando ou fazendo doação em dinheiro todos os meses. Clique no link abaixo: