
Nos bastidores de O Corcunda de Notre-Dame (1939) — adaptação da obra-prima de Victor Hugo —, a RKO investia alto para erguer, no calor da Califórnia, a mais imponente reconstituição da Paris medieval já vista no cinema. O diretor alemão William Dieterle, conhecido pelo rigor técnico e por dirigir de luvas brancas para se manter imune à sujeira do mundo, buscava a perfeição.
Para a cena solene diante da réplica da catedral, Dieterle queria a presença austera da fé. Precisava de duzentos clérigos na praça para conferir densidade espiritual ao momento. Com seu forte sotaque germânico, deu a ordem ao assistente de direção, Peter Berneis: “Two hundred monks!”
Mas o som cruzou a barreira do idioma e sofreu uma mutação fatal. Berneis não ouviu o pedido por religiosos; entendeu “two hundred monkeys”.
Sem questionar a extravagância do chefe, a produção mobilizou centenas de primatas. Quando a equipe e os atores — entre eles a jovem Maureen O’Hara, no papel de Esmeralda, e Charles Laughton, o lendário Corcunda — chegaram ao set, a solenidade pretendida havia desmoronado. A praça de Notre-Dame fora tomada por micos, babuínos, chimpanzés e gorilas.
Os animais escalavam a arquitetura de gesso, arrancavam adereços e espalhavam o caos. O’Hara recordaria anos mais tarde que o choque foi também olfativo: sob o sol escaldante, o cenário exalava o odor de um cativeiro improvisado. Diante do tumulto, as luvas brancas de Dieterle eram impotentes. O rigor da arte fora soterrado pelo ridículo.
Visto de perto, esse desastre de produção deixa de ser anedota para se tornar metáfora incisiva. No cinema, a troca dos religiosos pelos primatas foi um acidente de percurso, um erro de audição. Na política, a distorção é deliberada.
O equívoco, neste caso, mora na ilusão de quem escuta. Desiludida com os rumos do país, a população entrega suas esperanças a demagogos cobertos pelo manto da virtude. O eleitorado acredita estar contratando a ordem e a elevação moral dos “monges”. Mas a engenharia do populismo entrega, friamente, o espetáculo e o descontrole dos “macacos”.
Esses líderes usam o nome de “Nossa Senhora” e de outros símbolos sagrados em vão; transformam o altar em pódio e recorrem aos céus para chancelar projetos terrenistas de dominação. A promessa não varia: o retorno da ordem e uma suposta elevação mística.
A história demonstra que instrumentalizar o sagrado produz o mesmo colapso daquele set de filmagem. A política disfarçada de dogma não purifica a vida pública — apenas profana o templo e degrada o debate democrático em farsa. Quando a adesão cega substitui o exame sóbrio sobre as liberdades, a praça pública perde a capacidade de construir pontes e sufoca com o bafo do fanatismo.
É por isso que a laicidade do Estado não ataca a fé, mas protege a sociedade da manipulação populista. O Estado laico assegura que as leis sejam escritas na linguagem universal da razão, resguardando a própria religião de ser rebaixada a instrumento de poder. Sem essa fronteira nítida entre o templo e o parlamento, a busca por figuras providenciais entregará inevitavelmente o mesmo fim: o caos, a desilusão e o fedor de um zoológico humano.