
Há anos tenho um contador muito bom. Acho indispensável para mim. Tenho uma preguiça mortal para lidar com coisas como o imposto de renda, por exemplo. Admiro profundamente quem consegue, mas isso não significa que eu não respeite as cifras ou não goste de contar. Também não vale bancar a cínica que, por ser de humanas, diz que não gosta de dinheiro. Gosto sim, só que gosto pra todo mundo.
Parece incrível, mas aprendi um pouco sobre números com literatura e com psicanálise. Com a primeira, por exemplo, ao ler Mishima, aprendi que “uma morte era algo grave e solene, assim como milhões de mortes. O pequeno excesso é que era diferente — os três! Que absurdo! Os três! — disse ela. Um número muito grande para uma família, muito pequeno para a sociedade” [1] Com Tomoko, sofri a perda de seus filhos, mas também sofri o número.
Estudando psicanálise, precisei aprender como era essa história de falo. O pulo do gato foi quando me ensinaram que o falo está ligado ao que se conta com números e ao que se conta com garganta e retórica. Já que nem sempre dá para ficar comparando o tamanho do bilau, melhor contar quantos gols fez o time, quanto dinheiro tenho, quantos carros, quantas mulheres peguei etc. Ou então, posso transformar tudo isso em anedotas e deixar a coisa mais divertida. É a piada do fulaninho que vai para a ilha deserta com a atriz famosa e pede pra ela fingir que é um amigo para ele poder contar que está pegando a atriz famosa. E vá blá-blá-blá, porque o nosso falo, mesmo sendo grande, é bastante frágil e, então, qualquer olhadinha para o lado e vem a detumescência, em uma dinâmica de queda e ascensão, típica das estruturas de poder clássicas.
Receio, no entanto, que algo anda passando com a lógica fálica e sua contabilidade. Parece que estamos realizando, fascinados, a etapa mítica freudiana onde só um goza. O Dr. Lacan gostava de falar que o gozo tinha relação com o usufruto, então, saber quem reparte esse usufruto é a chave para entender algumas coisinhas que acontecem por aí. Antes disso, Freud chamava de pai da horda primitiva um sujeito que liderava o clã e acessava sexualmente as filhas, as irmãs etc., já que não estava colocada a proibição do incesto.
Agora o mundo tem um trilhardário. Uma coisa tão ridícula quanto obscena. E pior de tudo: isso não é um escândalo. Ao contrário, é defendido pelos explorados que, realmente, acham que não têm parte nessa conta. Acham que o Elon Musk é realmente um pica das galáxias que trabalhou duro para construir tudo isso. Um novo delírio coletivo, esponsorado pelo capitalismo pós-industrial.
No mito freudiano, chegava um dia em que os irmãos se associavam e assassinavam o pai da horda, que assim deixava de ser tão primitiva. Atualmente, qualquer coisa que você diga contra o trilhardário – enquanto você, na verdade, está sendo violentada por ele – não é tomada como pedido de justiça, mas como inveja. É muita falta de habilidade para contar.
Nota:
[1] Mishima, Yukio. Morte em pleno verão e outras histórias. Rio de Janeiro, Rocco, 1987.

