
Como diz o provérbio que ecoa na nossa ancestralidade: “quem é rei, quem é rainha, nunca perde a majestade”. A nossa realeza é permanente, mas o nosso trono — que é o direito à vida plena, justa e soberana — precisa ser ocupado todos os dias, com a mesma união e coragem de quem nos abriu o caminho.
Essa soberania me foi ensinada no berço. Minha base familiar é composta por mulheres fortes que me ensinaram, desde cedo, o valor dos estudos, da independência, da fraternidade, da resistência e da dignidade. Minha mãe e tias testemunharam e participaram ativamente de momentos cruciais da nossa história, vivenciando de perto a efervescência dos movimentos negros e o nascimento de iniciativas culturais revolucionárias, como o Grupo Cultural Razão Negra (1976-1986), sob mentoria de Oliveira Silveira.
É a poesia do próprio Oliveira que traduz essa certeza herdada:
“Sou homem / sou negro / sou neto de escravo / mas sou / rei. Rei de mim mesmo / rei do meu espaço / rei do meu tempo.”
Foi sob essa influência que, mais tarde, guardei com muito orgulho a memória de ter sido coroada Rainha das Piscinas da Sociedade Floresta Aurora. Essa vivência marcante despertou em mim o desejo de estudar e compreender a fundo as sociedades negras que eu frequentava desde a infância, como o Satélite Prontidão e o próprio Floresta Aurora. Quando mais nova, considerava que o momento era de lazer e alegrias partilhadas; entender mais tarde as razões históricas de suas fundações mudou minha perspectiva.
Descobri que o lazer da população negra nunca foi despretensioso: aqueles espaços eram, em sua essência, territórios de resistência, sobrevivência e acolhimento mútuo diante de uma sociedade segregadora. Aquela era a tecnologia que utilizávamos para manter viva a nossa identidade e delimitar o nosso próprio reino.
Essa busca por reaver o que é nosso e o impacto de sermos quem somos também ecoa na nossa música contemporânea. Na obra-prima “Ismália”, Emicida rima com a crueza da nossa realidade urbana: “Olhei no espelho, Ícaro me encarou / Cuidado, não voa tão perto do Sol / Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei”. A mensagem do rap é um manifesto de alerta e de ocupação: a nossa realeza e a nossa liberdade incomodam estruturas históricas, e a arte surge como o nosso escudo e a nossa denúncia.
Essa compreensão histórica, poética e musical dialoga diretamente com as nossas urgências atuais.
Quando olhamos, por exemplo, às conquistas da comunidade LGBTQIA+ no Brasil, celebramos passos históricos dados majoritariamente pelas mãos do Poder Judiciário — como o casamento civil igualitário, o direito à retificação de nome e gênero para pessoas trans e a criminalização da homotransfobia. São vitórias que desenham, no papel, o contorno da dignidade humana.
No entanto, quando aplicamos a lente da interseccionalidade, percebemos que o alcance dessas conquistas não é uniforme. Para as mulheres negras, periféricas e pertencentes à comunidade LGBTQIA+, a barreira entre o direito garantido na lei e a realidade das ruas ainda é um abismo. O racismo estrutural e o machismo cruzam-se com a LGBTfobia, gerando violências que cobram um preço alto na nossa subjetividade desde muito cedo.
Lembro que é na adolescência e no início da vida adulta que a mulher negra frequentemente se depara com os impactos dolorosos da baixa autoestima e da insegurança crônica, crescendo em um mundo que dita padrões que nos excluem e, como bem aponta a letra de Ismália, tenta nos fazer descer ao chão quando tudo o que queremos é tocar o céu.
É por isso que, inspiradas pelo legado dos clubes sociais que nos antecederam e pela urgência das nossas vozes atuais, precisamos continuar mantendo os nossos espaços seguros. Lugares de acolhimento físico, cultural e político são vitais para a manutenção da nossa identidade e para curar as feridas na nossa autoestima. É nesses ambientes livres de julgamento que conseguimos baixar a guarda, respirar e encontrar o fortalecimento pessoal e coletivo.
Mais do que refúgios emocionais, espaços seguros são incubadoras de emancipação econômica. Neles, articulamos redes de apoio, fortalecemos o afroempreendedorismo e geramos a sustentabilidade necessária para que as nossas irmãs possam prosperar de forma autônoma. Afinal, a independência que herdei das mulheres da minha família só é plena quando compartilhada e estendida a toda a coletividade.
A nossa realeza ancestral nos lembra de onde viemos e do poder que carregamos no sangue. A ocupação do trono da justiça, da igualdade e da própria autoestima exige de nós vigilância constante e a preservação dos nossos espaços de comunhão. Não basta que as leis existam; é preciso que existam chãos seguros, como a própria Odabá e a nossa história nos ensinam, onde possamos pisar, cantar, recitar e caminhar juntas.
O convite não é apenas para a celebração, mas para o acolhimento das nossas dores, o fortalecimento da nossa economia e a proteção das nossas alianças.
Que possamos continuar pavimentando essa estrada, unindo a força do Direito à coragem das nossas vivências, para que nenhuma menina ou mulher negra precise abdicar de sua soberania. O trono é nosso por direito, e nós viemos para ocupar.
O Grupo Cultural Razão Negra, que integra a tese de doutorado de Letícia Barbosa, foi mencionado na Coluna Odabá publicada em 18/11/2025, ao destacar as mobilizações da comunidade negra para a consolidação do 20 de novembro como data máxima de representatividade na Porto Alegre dos anos 1970.
Louise Barbosa Soares, mãe do Heitor e do Murilo, advogada e empreendedora em construção. Atuante preponderantemente na área cível (consultoria empresarial, contratos, Direito do Consumidor, Direito à Saúde, Direito de Família e Sucessões). Acredita na assessoria jurídica estratégica, individualizada e humanizada como meio de acesso à justiça, solução de conflitos e auxílio na redução de desigualdades. Instagram: @louisebsadv
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