
Vamos então ao vespeiro: falemos sobre Grêmio e Ronaldinho.
Abordar futebol, pra mim, eventualmente é algo sensível.
Motivo: a paixão, que nos cega.
No sábado passado, diante do resultado negativo contra o Corinthians (após os primeiros minutos alvissareiros) e do escancaramento de um time inconsistente (esta é a palavra que encontro pra definir o time do Grêmio, repleto de bons jogadores e com um treinador reconhecidamente competente: por alguma razão que precisa urgentemente ser detectada, somos um time inconsistente), eu ia evitar o assunto Ronaldinho.
Mas por que mudei de ideia? Porque o domingo teve resultados paralelos que embolaram a tabela, nos livraram na temida zona e nos deram tempo, nesta data-Fifa, pra buscar e quiçá encontrar respostas que, humildemente, me dou o luxo de não ter. E frequentemente faço isso. Se sinto que estou confuso e não tenho elementos pra opinar, silencio e espero que as pessoas muito bem intencionadas e remuneradas no clube o façam.
Detectem e resolvam, por favor!
Vou começar por um episódio inusitado, que aparentemente nada tem a ver com esse assunto. Tive a oportunidade, como repórter que sou, de entrevistar várias personalidades cujo contato guardo como queridas relíquias. O Ronaldinho? Também. O Felipão, que defende um reatamento? Idem. Mas me refiro ao escritor chileno Antonio Skármeta, autor do celebrado livro “O Carteiro e o Poeta”, depois devidamente oscarizado.
Entrevistei o saudoso Skármeta duas vezes: uma pela Folha de S. Paulo e, depois, outra por Zero Hora. Na primeira vez, pela Folha, ele nem sabia a minha cidade e o meu time. No meio da conversa, falou que adorava o Brasil e era torcedor do Grêmio no país. Meu senso identitário e meu orgulho se incendiaram naquele momento. Contei-lhe que sou “hincha de Gremio” e perguntei o que o levou a essa preferência tão linda.
“O Ronaldinho Gaúcho”, ele me respondeu.
Ao ver o Felipão defender a reconciliação entre um dos maiores craques da história do futebol mundial e seu clube de formação e coração, elenco os motivos que, há anos, já me convenceram de que essa reaproximação precisa ocorrer. Primeiro, a ressalva: eu estava na praia quando o quase retorno ocorreu, me preparava pra pegar a Freeway e vir com o meu filho a Porto Alegre a fim de receber o ídolo e me vi frustrado e decepcionado.
Logo, sou um dos descornados pela falta que Ronaldinho cometeu conosco. Estive, inclusive, entre as dezenas de milhares que o vaiaram e o chamaram de “pilantra” naquele histórico jogo em que viramos e enfiamos quatro gols no Flamengo com ele no time deles. Sou um dos que remoem esse assunto, dos que ficaram muito indignados e sentiram a autoestima mexida naquele episódio em que ele nos preteriu e foi pro Rio.
Mas vamos por partes no meu raciocínio 100% racional:
- Ronaldinho nunca negou a seu afeto pelo Grêmio. Só é um eterno guri cujo talento Deus concentrou nos pés, e ele vai muito mal com as palavras. Sempre que o vejo falar, identifico uma criança, e isso tem um aspecto bom (o lúdico) e ruim (a dificuldade de trabalhar e traduzir as suas emoções, ostentando uma clara timidez que o bloqueia).
- Ronaldinho teria zero motivo pra querer o mal do Grêmio. Pelo contrário. Não existe nenhum motivo razoável pra imaginarmos que ele fez algo deliberado para nos ferir. E, evidentemente, refiro-me ao momento da quase volta. Sobre o da ida pra França, lá no início, creio que há consenso de que a monumental cagada foi da nossa direção.
- Do seu jeito, Ronaldinho, com aquele sorriso tímido e dificuldade de juntar as palavras, deixa por sentado, como algo já de senso comum, o amor dele pelo clube onde nasceu (isso é quase literal) e se formou. Pra ele, isso nem precisa ser repetido. Você pode achar que sou “ingênuo”, mas seria um clichê de sua parte. É inquestionável que estou certo.
- Agora, vamos à ida pro Flamengo quando também negociava conosco. Vamos nos despir do cinismo e entender o seguinte: o Flamengo, com três dezenas de milhões de torcedores e a força da Globo, é muito sedutor. Ronaldinho foi pro Rio ser “artista” e viver uma vida de artista, longe desses gaúchos tão refratários ao espírito festeiro.
- Naquela famosa entrevista, ele citou a cidade sem falar no amor pelo clube. E essa foi a situação que mais me entristeceu. Mas perceba que, numa negociação (um leilão, vá lá), se o sujeito diz que ama um dos interessados, desmonta a concorrência. Achei ruim? Não. Achei péssimo!!! Fiquei muito puto!!! Mas tento aqui ser racional e pragmático.
- Tenho a certeza de que o que o Ronaldinho fez naquela ocasião foi prejudicial pra ele próprio. O retorno ao Grêmio seria a linda redenção de um romance rompido e mal resolvido. E, anos depois, quando ele quis ser candidato a senador, só lhe restou MG, e não rolou. Se tivesse voltado pra aldeia, hoje ele estaria entre os senadores da bancada gaúcha.
- Estou certo também, em relação ao item acima, que ele próprio já se deu conta disso e rebobinaria a fita pra refazer toda aquela merdança. Hoje, nas ruas da cidade dele, ele é majoritariamente vaiado. Se tivesse voltado, seriam três as estátuas na Arena: a do Lupícínio, a do Renato (que já estão lá) e, entre elas, a dele.
- Vale uma observação: quando falo da sedução do Flamengo, não diminuo o nosso clube, que é de massas. São grandezas equiparáveis e com suas peculiaridades. Ninguém diz que Boca e Ríver são maiores que Racing, Independiente e San Lorenzo (o G5 argentino), por exemplo. Cada instituição tem o seu charme, no centro ou na periferia.
- Como bem disse o Felipão, que é sábio, entende do riscado e é comprovadamente gremista dos pés à cabeça, clube e craque se precisam e se ajudariam. O craque seria um poderoso embaixador, capaz de atrair a simpatia do Skarmeta; como recíproca, ele recuperaria o amor que o embalou desde criança representado pela lindo manto tricolor.
- Você me dirá que ele é “mau caráter”, “pilantra” e “traidor”. Num momento em que defendo a reaproximação, vou me poupar de corroborar esses conceitos. Só vou pedir que você faça uma pesquisa e me diga se ele é o único com essas supostas características no amplo e traiçoeiro ambiente do futebol. Já te digo: não é. E vou além: tem, por aí, figuras muito piores que ele.
…
De tudo que se falou até hoje sobre essa novela, ouvi versões das mais diversas, sobre o papel do Ronaldinho, do Assis e de outros eventuais atores desse enredo. Vejo suposições às vezes até contrárias umas às outras. De alguns, percebo até uma tentativa de ficar melhor na velha foto, cheia de poeira. Prefiro deixar a poeira pra trás e enfim pegar a Freeway. Como diz o Felipão, seria bom pra todo mundo.
Shabat shalom!
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