
Outro dia uma amiga me disse:
— Eu não queria alguém rico. Precisava nem ser bonito, não. Eu só queria um pouco mais de preocupação com o dia a dia. No meu conto de fadas, eu não queria ser a “mãe” do príncipe encantado. Eu não queria ser a única pessoa preocupada com tudo, guria!
Perceba: ela não estava falando de dinheiro.
Falava da lista do supermercado, da consulta médica, da escola das crianças, do aluguel, do gás que acaba. Falava do futuro.
Enquanto uma pessoa sonhava, a outra administrava a realidade.
Naquele dia percebi uma coisa curiosa.
Nem sempre estamos falando de dinheiro quando pensamos que estamos falando de dinheiro.
Assim como nem sempre estamos falando de amor quando pensamos que estamos falando de amor.
Há um tempo, durante um MBA em Finanças, Investimentos e Banking, ouvi um autor famoso dizer uma frase que nunca mais esqueci: “Dinheiro compra até amor verdadeiro.”
Na época, me achei ousada, porque a contadora dentro de mim concordou — relutante. Talvez, porque a pergunta malandramente provocadora tenha me pegado de jeito na época. Não percebi o que realmente “sentimos” ao ouvir que o dinheiro compra o sentimento!
E, provavelmente, não compra. Isso não invalida o fato de que ele compra as condições ideais para o amor nascer (quanto você gastou naquele encontro, hein?); crescer (e aquela viagem dos sonhos?); e florescer (educação, carreira, carro, cachorro, criança… custam caro pacas).
O dinheiro compra liberdade para dizer “não” a um trabalho que adoece.
Compra uma casa onde duas pessoas conseguem atravessar o fim do mês sem transformar cada boleto em uma discussão.
Compra a possibilidade de jantar juntas, envelhecer com menos medo e fazer planos que ultrapassam a próxima conta.
Chamamos de amor verdadeiro aquilo que consegue sobreviver ao tempo, que parte da paixão avassaladora e chega à velhice juntinho, com conforto e dignidade, apesar dos desafios da vida. Porém, deixamos de fora da equação o cotidiano, que nunca foi gratuito.
Curiosamente, aprendemos a imaginar que sentimentos pertencem à poesia, enquanto o dinheiro pertence ao mercado. Como se fosse possível amar fora da vida concreta.
Ninguém ama no abstrato. Amamos em casa: na divisão das tarefas; no café preparado antes que o outro acorde; na decisão de quem fica em casa quando um filho adoece; na coragem de construir um futuro em comum. Porque o amor pode nascer sem dinheiro.
Mas quantos amores conseguem permanecer sem tempo?
Sem descanso?
Sem dignidade?
Sem perspectiva?
Nesse ponto, espero que você já tenha entendido que o dinheiro nunca foi o protagonista dessa história, certo?
Talvez seja por isso que a frase do título provoque tanto incômodo. Não porque o dinheiro compre sentimentos, mas porque ele compra — ou nega — muitas das condições que permitem a existência dos sentimentos.
Passamos a vida repetindo que dinheiro não compra amor. Porém, dinheiro nunca foi apenas o que se entende no senso comum: acúmulo e consumo.
Dinheiro é um signo de valor.
E esse signo pode ser, sim, um amor verdadeiro.
Agô.
Femina Economicus
Onília Araújo é contadora, empreendedora social e fundadora da ESFERA Afrocentricidades e da ICON Contábil. Escreve sob a assinatura Femina Economicus, um projeto de pensamento que traduz a economia para a linguagem da vida, explorando as relações entre dinheiro, cuidado, trabalho, amor, raça, gênero e prosperidade. Instagram: @oniliaaraujo