
No inverno gaúcho, tudo dói. O que salva é o solzinho do meio-dia e a bergamota na mão. Não é fácil ser gaúcho! Jovens têm aquela energia extra, mas a idade provoca intensidade nas particularidades físicas, e quem já passou dos 60 anos parece viver encolhido. Quanto às mulheres nessa idade, ditas sensatas, maduras, equilibradas, aparentam ter a tendência de sentir mais frio. São muitos os fatores biológicos naturais característicos femininos (adicionados a outros fora desses contextos) que podem explicar, como a menor taxa de metabolismo basal e a reduzida massa muscular. Todos implicam em inúmeros cenários que direcionam, inclusive, o humor. O fato é que, quanto mais idade temos, mais se somam alterações hormonais de todas as fases da evolução biológica – creio que processadas já nos óvulos das nossas avós, adicionadas com a loucura do que é viver na atualidade. E o inverno intensifica tudo!
A ícone feminina Rita Lee, que remodelou, transformou e criou de maneira fantástica muitas de nós em sua evolução feminina, como a minha, expressa de maneira eficaz: ‘mulher é um bicho esquisito… por isso não provoque, é cor de rosa choque’. Sim, é uma orquestra maluca de hormônios doidos e oscilantes vivendo e ‘interagindo’ no dia a dia com o meio. Um composto heterogêneo que produz choro e riso ao mesmo tempo, tristeza e alegria em um segundo, garra e desânimo num piscar de olhos, como uma salada nem sempre cadenciada de humor, tampouco fácil em muitas situações. Isso sem pensar nos ditames sociais da evolução da sociedade e do papel da mulher, que construíram/destruíram em choque com a especificidade do que cada cambio de estrógenos pulsava a partir da puberdade. Situações entremeadas com as cólicas, com a intensidade das mudanças preparatórias para a reprodução de cada mês e, por fim, a menopausa. Um caminho literal de entranhas.
O certo é que o organismo da mulher possui características específicas que se modificam em função da idade, passando por alterações e evoluções que provocam mudanças físicas e emocionais muito relevantes em cada ciclo vivido, e as estações do ano exigem cuidados atentos e equilíbrio. Um processo, sem dúvidas, que faz perguntar no que a nutrição importa e impacta para a qualidade de vida da mulher? Muitos artigos, como os do Nutrients Journal (2012 (13,1848); 2024 (16,27)), falam da nutrição na saúde da mulher. No climatério, por exemplo, temos o marco da transição entre o período reprodutivo e o não reprodutivo (mas, sem ser produtivo, de conquistas, de buscas!). Esse período, em resumo, também dita a piora do sono, ganho de peso corporal e os inconvenientes calorões. A causa lógica é a idade, mas a genética influencia quando dita o encurtamento mais rápido ou não dos nossos telômeros, além dos fatores endócrinos, dos medicamentos que rodeiam a vida diária, os fatores imunológicos, ambientais, o estilo de vida (que aumenta o estresse oxidativo), as possíveis infecções recorrentes, ou seja, muitas coisas implicam e contribuem para o envelhecimento ovariano. Então, como não pensar em alimentação de qualidade?
Estudos apontam que, por volta dos 50 anos, em média, os hormônios LH (luteinizante) e FSH (folículo-estimulante), os principais responsáveis por regular todo o sistema reprodutor e fertilidade (também presentes nos homens), aumentam em desordem. Mas caem por volta dos 60 anos. Isso ocorre por meio de um mecanismo compensatório, visto que os ovários começam a entrar em falência e deixam de produzir estrogênio, progesterona e testosterona em níveis adequados. Nesse período, o cérebro ‘entende’ a falta desses hormônios no corpo e passa a estimular os ovários para os produzirem. O hipotálamo sinaliza para a hipófise que libere LH e FSH para a corrente sanguínea, no intuito de chegar aos ovários para estimulá-los a produzir os hormônios necessários. Ocorre que é um processo contra a maré. É decadente e não perdura. A progesterona é a primeira que cai, enquanto o FSH ainda se mantém. O estrogênio também é um carro desgovernado onde, no climatério, passa por altos e baixos, subindo e descendo até cair de vez, numa loucura temperamental de oscilação de humor, na melhor das hipóteses. A testosterona segue a diretriz de queda e, a melatonina, diretamente ligada à redução desses hormônios, despenca igualmente e o sono se vai. Nesse desequilíbrio, o cortisol também se desregula, com picos na madrugada, o que dificulta a precária ação da pouca reserva de melatonina. A ansiedade, a irritabilidade, os suores noturnos, as dores musculares e articulares aparecem.
Mas é um privilégio viver e ser o “bicho esquisito”. O que nos falta, talvez, é aceitar ‘naturalmente as transformações naturais’ e redirecionar o foco para como e que tipo de alimentação pode ajudar a amenizar todas essas manifestações. Pensar e ter orientações sobre dietas anti-inflamatórias equilibradas que incluam fitoestrógenos, atividades físicas rotineiras e exposição solar, pois ajudam a equilibrar o peso, o sistema nervoso central, o cortisol, aliviam ansiedade, melhoram o sono, promovem a diminuição de glicose circulante, melhoram o humor e o intestino. É como oferecer combustível para que as células entrem em ajuste, diminuam inflamações por meio de nutrientes e micronutrientes essenciais que impactam positivamente no balanço hormonal e na qualidade de vida.
Denise Preussler dos Santos é jornalista (Unisinos), com mais de 180 artigos publicados em jornais do interior. Tem publicações na Revista Teias, Labrys, Revistas Eletrônicas Puc, Revista de Educação, Linguagem e Literatura-UEG Inhumas. É mestra em Educação (Ulbra) e terapeuta integrativa. Atualmente, cursa Nutrição (Uniasselvi).
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