
O que está acontecendo com a iluminação dos shows musicais? Tenho me questionado sobre os exageros dos recursos visuais e estímulos luminosos. A iluminação, como complemento do show, mudou de lugar. A iluminação é linguagem, semiótica das cores, traz narrativas para o espetáculo. Ela acentua os sentidos e dá vida à apresentação.
Para o show ser considerado um espetáculo, necessita de uma superprodução de luz e som. Em um grande estádio, colocar telões nas laterais para ver o artista, que fica distante do público, é um recurso importante e necessário. Entretanto, é preciso ter ótimos diretores de arte e de fotografia, pensar a estética do show como um todo, que vai do figurino à finalização dos vídeos projetados. É um trabalho que requer estudo de cenografia, produção de videoartes, direção e domínio de video mapping. Organizar conteúdos visuais para shows ao vivo não é um trabalho simples.
Escrevo sobre isso, pois vou muito a shows e não tenho gostado do que vi. Às vezes, me sinto em uma rave, não em uma apresentação musical. Falo de todos os gêneros musicais. Não tenho só o olhar da plateia, mas de quem trabalha com produção e jornalismo musical há 35 anos. Na minha análise abaixo, não vou citar os nomes dos artistas, por uma questão ética como produtora.
Um dos exemplos que quero trazer foi o show comemorativo de uma banda de rock gaúcho dos anos 90. A iluminação estava satisfatória, mas as projeções no fundo do palco pareciam ter sido feitas por Inteligência Artificial. A IA não tem primor artístico. Estava evidente a falta de cuidado com a edição final do material: tudo padronizado, rígido e repetitivo, com excesso de informações. O show se tornou cansativo e, em uma das projeções, o logotipo com o nome da banda apareceu cortado.
Outro show de um compositor brasileiro no Araújo Vianna tinha um cenário lindo com redes de pesca, colocadas nas laterais do palco, mas, quando começavam as projeções, lá estavam imagens de cachoeiras e horizontes com matas que lembravam aqueles calendários de papel. O excesso de vermelho e de refletores laterais dominou a iluminação, o que tornou difícil, em alguns momentos, ver o artista e até mesmo fotografar. Fechei os olhos e ouvi. Já num show no teatro do Bourbon Country, os canhões de luz branca e azul que passavam sobre a plateia cegavam os espectadores. Parecia que eu estava num farol à beira-mar.
Já a apresentação do vocalista do Led Zeppelin, Robert Plant, no Araújo Vianna, trouxe uma luz serena. Era o domínio total da luz e a centralidade da atenção no artista e sua obra. Para João Freitas, que fotografou o show, a iluminação estava fantástica e clássica. “As imagens não se projetavam sobre o artista; era uma iluminação sóbria”.
Para o fotógrafo, há um excesso de tudo; o músico realmente deixa de estar em primeiro plano. “São muitos raios, fumaças e projeções, tudo exagerado; mas os artistas mais clássicos não abusam desses recursos”. João lembra ainda que há uma dificuldade de encaixar uma fotografia que valorize o artista nessas condições. “O exagero fere a performance dos músicos”.
Já o iluminador Claudio Heinz, também guitarrista e fundador de Os Replicantes, lembra que a iluminação da banda sempre foi um diferencial desde o início. “Nós trabalhávamos com um diretor de fotografia”. Para ele, o que mudou foi que tudo está automatizado; a luz fica engessada no que está pré-programado. A iluminação artística é diferente da iluminação programada.
O recurso visual é essencial, pois cria climas e atmosferas nos shows. Mas é preciso que o artista e a sua obra estejam no centro dos olhares. A luz, quanto mais simples, mais próxima da beleza. Beleza que, segundo Tomás de Aquino, está no sentido de apresentar prazer na proporção das coisas bem feitas. A iluminação dos espetáculos musicais só está reproduzindo uma sociedade dos excessos. Nunca o ditado “menos é mais” foi tão urgente.
Ana Paola de Oliveira é jornalista, produtora musical, mestre em comunicação e especialista em direito autoral. Produtora executiva, assessora de imprensa e curadora. Produz fonogramas e licenciamento de músicas para audiovisuais. Foi professora da ESPM nos cursos de jornalismo e publicidade e propaganda. Repórter e crítica musical do Correio do Povo. Trabalhou como diretora de produção e assessora de imprensa na Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Prefeitura Municipal de Porto Alegre na Usina do Gasômetro.
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