
Sou daquelas que acredita que rir pode ser um bom recurso para aliviar as contraturas que a vida vai impondo. Como psicanalista, não podia ser diferente, mas, pessoalmente, tenho muito apreço pelo tal do descontrair. Me considero uma pessoa bem-humorada e capaz de fazer rir quem está ao meu redor com certa facilidade. Aliás, gosto muito disso. Só que, ultimamente, nem tudo o que chamam de humor me faz rir.
Estarei perdendo o senso de humor? Ou será que o humor está perdendo o seu senso? Com o tempo, aprendi a valorizar o riso que não escolhe um lado para machucar. Prefiro rir de mim mesma e que riam comigo. Ou rir juntos da nossa condição humana. Não sei o quanto interessa às leitoras e leitores o que me faz rir, mas esse preâmbulo é por causa de um meme que me inquietou e que me faz compartilhar essas reflexões. Talvez, ainda sem poder concluir por caminhos, mas ao menos reconhecendo os entraves. O meme me inquietou primeiro por reconhecer e admirar o engenho ali contido e, ao mesmo tempo, por ser incapaz de sorrir, reconhecendo nele a cara do racismo recreativo.
Era um meme em que se comentava sobre a hora da hidratação nos jogos da Copa, com a típica frase: “O que eu penso quando falam em momento da hidratação?” A frase vinha acompanhada por duas fotos de Vini Jr., como se fosse um antes e um depois. Na primeira aparece o Vini como o conhecemos; na segunda, manipulada, aparece o Vini com o cabelo alisado e comprido. No dizer do meme, esta segunda imagem seria o sinônimo de hidratado.
Uma mulher negra perde as contas de quantas vezes o seu cabelo é objeto de ridicularização, de fetiche, de perguntas bestas, de olhar “com as mãos”, de querer saber como se lava e um infinito etc. Infelizmente, muitos homens negros economizam essa gastura raspando o cabelo ou deixando-o muito curtinho. Em algum trecho de O Mapeador de ausências[1], Mia Couto – africano, porém branco – diz, através de uma de suas personagens, como, no fim das contas, a raça está no cabelo. Grada Kilomba, psicóloga, multiartista, portuguesa e negra, dedicou um capítulo inteiro do seu livro Memórias da Plantação[2] ao cabelo. Ela o chamou de “políticas do cabelo”. Ali atravessa com mestria essa fixação do branco com o cabelo do negro, objeto da mesma obstinação que aparece nesse meme. No limite, o recado dado é de que o cabelo do Vini Jr. não está hidratado sempre e quando se trate de um cabelo afro, quer dizer, de uma textura não-branca.
Dá uma preguiça enorme visibilizar esse micro episódio, mas as pessoas até supostamente bem-intencionadas, de esquerda etc., ainda não conseguiram ver que isso está mal. E riem como se fosse a coisa mais inocente. E é por isso que este meme chegou até mim.
Dizia Freud[3] que a pessoa que adota a atitude humorística se comporta como um adulto diante de uma criança, colocando-se em um papel superior, como de um pai, reduzindo os outros ao papel de crianças. Mas também analisa a circunstância em que o humorista adota simultaneamente as duas posições – por exemplo, rindo de si mesmo – na qual estaria mais presente e atuante um supereu. Me recordo disso, mas tampouco creio que atitudes superegóicas resolvam muito. Na dúvida, o melhor remédio, gente branca, é mesmo a abstinência. Vão procurar outra coisa para rir. Ou aguentem, porque nós já não aguentamos.
[1] Couto, Mia. O mapeador de ausências. São Paulo: Cia das Letras, 2021.
[2] Kilomba, Grada. Memórias da plantação – Episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
[3] Sigmund, Freud. “El humor” [1928] In: Obras Completas – Tomo III. Madrid: Biblioteca Nueva, 2003.
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