
Era como um sonho bom poder navegar na internet. Nos anos 90, eu, que me criei pesquisando em enciclopédia, ficava maravilhada com a facilidade mágica, com a rapidez e fluidez da chegada e saída de informações. Acompanhar essa etapa de digitalização do mundo é parte do que constitui a minha geração. No meu caso, honestamente, mantendo uma enorme porção analógica. Misto de inabilidade e convicção.
Aliás, muito curioso como esse verbo navegar traz uma certa ideia de liberdade. Navegar é preciso, viver não é preciso. Fernando Pessoa nos ajudou a romantizar esse verbo, mesclando uma semântica de necessidade, coragem, controle e precisão.
Antes disso, quando o colonizador soube transformar o medo do mar em sanha conquistadora, o verbo navegar já ganhava uma roupagem de sonho, colocando um véu sobre o comércio escravista envolvido.
Hoje, neste mar aberto e infinito da Internet, parecem existir ruas e avenidas pavimentadas e seguras. Supostamente, as redes sociais seriam esses locais. No entanto, também existem ilhas de horror. Antes, na deep web. Agora mais acessível, logo ali no Discord – o sugestivo nome discórdia em inglês. No dia 22 de julho, nesta plataforma, uma menina de 13 anos do Mato Grosso do Sul perdeu a vida, impelida por outros jovens em uma Live.
Navegar é preciso. Viver? Perder a vida ao vivo, tirar vidas humanas e animais ao vivo, estuprar bebês ao vivo… Detesto escrever sobre isso, mas são verbos conjugados com o corpo nessa rede infernal na qual pessoas estão sendo escravizadas digitalmente, especialmente as meninas. O valor da vida para essas crianças e adolescentes parece que não se constitui ali. A extrema dessensibilização faz lembrar os corpos negros atirados aos tubarões. E a analogia ganha mais sentido, já que o Discord mantém o ambiente seguro para grupos nazistas, masculinistas e um desagradável etc.
O governo brasileiro recentemente parece ter se dado conta da gravidade do impacto das plataformas, das redes sociais e das Big Techs na vida da população. Temos um ECA digital, temos a primeira-dama Janja tomando a frente e a palavra contra a plataforma Discord, mas ainda reina um pensamento liberalóide que crê que medidas coercitivas contra redes sociais são muito extremas. Acreditar nisso é como crer que um edifício de 20, 30 andares possa ser construído sem normas de segurança, ao bel-prazer da construtora.
E, quanto a nós, psis – se bem habitamos o ambiente digital para a transmissão, promoção e atendimentos – estamos patinando e muito em relação aos ambientes hostis nos quais está vigente todo um ecossistema de adoecimento mental. Será preciso coragem para admitir que há, sim, certa imprecisão no navegar.
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