
Quando Adão foi expulso do paraíso, recebeu uma terrível condenação: ganhar o pão com o suor do próprio rosto (rapidamente a fórmula foi modificada: ganhar o pão com o suor do rosto… dos outros). Kant viu nesta passagem do Gênesis a origem da cultura: até então ele (Adão) vivia no mundo (paraíso) “irresponsavelmente”; como tudo à sua volta era obra do Criador, ele não tinha nenhuma responsabilidade sobre nada. Com o mundo da cultura (o suor do rosto), a coisa se complicou: a Criatura se tornou Criador e, assim, responsável. Estabeleceu-se uma distinção entre Natureza (o que não foi feito pelo homem) e Cultura (o que foi feito por ele), que produziu um dilema: tínhamos ou não o direito de mexer na obra de Deus (Natureza)? Nas obras da Cultura, tudo bem: eram nossa responsabilidade. O Homo Faber acabou de vez com este dilema: somos livres para transformar qualquer coisa na Natureza e na Cultura segundo nossa vontade, nosso interesse, nossa miopia. Os educadores “progressistas” interessaram-se muito por esta distinção entre Natureza e Cultura e viram no homem “politizado” um transformador da realidade ou das naturezas: a externa (o mundo natural ou social) e a interna (a consciência): mudando a consciência, o resto ficava mais fácil. O problema estava em explicar quem tinha direito ou legitimidade para mudar a consciência dos outros e em que direção! Quanto à Natureza externa, creio que ela foi tão violentada que, caso pudesse falar, emitiria apenas um grande grito de dor!
Mas aí veio o “Construtivismo”. Não o das teorias psicogenéticas, banalizadas na educação, mas este que vê em tudo o que encontramos o resultado de uma “construção” ou uma “invenção”. O gênero? Ninguém nasce homem ou mulher, torna-se. A raça? Uma construção ideológica que, por muito tempo, gozou de status científico. A verdade? Deixou de ser algo que se encontra ou que se procura para ser aquilo que o poder, em sua “positividade”, produz. A História? Uma simples arte de inventar o passado. O judeu? Uma invenção do antissemitismo. O oriental? Uma criação cultural do Ocidente. O Homem? Uma “invenção recente” (Foucault) fadada a desaparecer… O Todo-Cultural dilui a diferença entre Natureza e Cultura, e a ideia de que podemos transformar a realidade não passará de uma disputa sobre “narrativas”. O curioso é a grave tensão entre estas duas invenções: o “fim (cultural) da Natureza” e o desejo (real) de preservá-la! Já o Homem, que já foi “natural”, deixará de ser “invenção” para se tornar fabricação: vêm aí as Antropotécnicas!
Todos os textos de Flávio Brayner estão AQUI.

