
Décadas após o lançamento do filme homônimo, A Casa dos Espíritos ganha uma adaptação de oito episódios na Prime Video. Filmada no Chile, terra natal da autora Isabel Allende, a série promete fidelidade ao livro, explorando grandes conflitos políticos e dramas familiares, sem deixar de lado o realismo mágico, marca da obra. Resta saber se, desta vez, a narrativa fará justiça à complexidade das personagens e às camadas da história, sem reduzir trajetórias ou silenciar vozes que, no livro, são fundamentais.
Li A Casa dos Espíritos no início da faculdade de Letras. O romance da escritora chilena fazia parte da ementa da disciplina Literatura Universal, que hoje, se ainda existe, provavelmente tem outro nome. Lembro de andar com aquele calhamaço de quase 500 páginas debaixo do braço por onde eu fosse e de abri-lo em qualquer brecha de tempo no meio da correria do dia.
Naquela época, eu já havia desbravado Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez, e Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. Já andava pelos vales encantados do realismo mágico, procurando entender o que não tinha explicação e desvendar as metáforas por trás de cada alegoria. No início dos anos 2000, a internet estava longe de ser democratizada e eu, que sequer possuía um computador, buscava a clareza das informações nas páginas de livros, jornais e revistas.
Assim que terminei a leitura, fui até a locadora perto de casa procurar o VHS do filme lançado em 1993. Como o DVD ainda não havia se popularizado e os streamings estavam longe da realidade de qualquer brasileiro, o aparelho de videocassete, que meu pai havia recebido como pagamento de uma dívida, era o único caminho para prosseguir com o estudo que eu desejava fazer. Abrindo um parêntese: rebobinar uma fita antes de devolvê-la à locadora é uma experiência que os jovens de hoje jamais conhecerão. Enfim, a minha intenção, ao buscar a produção cinematográfica, era comparar os elementos narrativos das duas obras, um hábito que conservo desde então.
Só a leitura do livro já havia rendido uma boa reflexão. A partir dela, conheci um pouco da história e da política do Chile, ainda que em nenhum momento o nome do país seja citado. Extremamente relevante para qualquer habitante da América Latina, a ditadura militar abordada no romance também atravessou a trajetória da autora, que precisou, assim como tantas outras pessoas, reconstruir a própria vida fora do país de origem.
Recordo que, na aula em que discutimos a leitura do livro, foram citados aspectos que eu, aos 20 anos, recém-saída do Ensino Médio, ainda não havia percebido. Entre eles, a simbologia dos nomes das personagens, especialmente das mulheres, que, dentro de suas possibilidades, rompem com alguns padrões impostos pela sociedade. Nívea luta pelo voto feminino em meio a um cenário político conservador. Clara, mesmo aceitando o destino do casamento com Esteban, mantém a autonomia guiada pelas próprias crenças e por uma sensibilidade que escapa ao controle do marido. Blanca, por sua vez, desafia as convenções ao viver um amor que não se enquadra nas expectativas da família, enquanto Alba enfrenta a dor para reconstruir o que foi quebrado pelas gerações anteriores. Esteban Trueba, por outro lado, representa o autoritarismo e o patriarcado. Conservador, tanto na vida quanto na política, oprime os empregados por meio da exploração, assim como viola as mulheres utilizando-se da força e do poder econômico que exerce sobre os demais. Na família, a sua vontade prevalece por meio da submissão e do paternalismo.
Quanto ao filme, ainda que conte com uma boa produção e um elenco de peso, deixou a desejar. Entendo que uma adaptação não precisa reproduzir tudo o que está no livro, mas a fusão de personagens e a supressão de acontecimentos cruciais comprometem o desenvolvimento da trama. Por isso, assisti aos três primeiros episódios da série com grande expectativa. O formato mais longo permite que as personagens ganhem tempo de construção e que os vínculos entre as gerações sejam melhor trabalhados. Ainda que algumas diferenças já sejam visíveis, a nova adaptação tem tudo para preservar o espírito da obra nos próximos episódios. Resta saber se esse ritmo será mantido.
Todos os textos de Andréia Schefer estão AQUI.

