
No sítio arqueológico de Jebel Irhould, no Marrocos, foram encontrados os fósseis mais antigos do Homo sapiens que somos. De acordo com eles, existimos há trezentos e cinquenta mil anos. Se cada geração vivesse em torno de três décadas, poderíamos dizer que antes de nossas mães e avós, das bisavós quase ninguém sabe sequer os nomes, há, em linha reta, umas dez mil e quinhentas mulheres e uns dez mil e quinhentos homens, estou escrevendo os números por extenso porque desse jeito vislumbramos a extensão, e todos eles, você goste ou não da ideia, gente como a gente, ainda que tenham vivido em cavernas, se matado a pedrada e a paulada e cometido atrocidades, coisas que, apesar de todo o processo civilizatório, não foram, em boa parte, superadas por um bocado de Homo sapiens contemporâneos e seguem, de alguma maneira ativa, como se a violência fosse em si mesma uma forma de vida paralela.
A vida, como nós a conhecemos do ponto de vista psíquico e cognitivo, está profundamente ligada à vida como os nossos antepassados pré-históricos a conheciam. Os Homo sapiens, machos e fêmeas, considerados modernos, existentes há mais ou menos uns oitenta mil anos, já eram bastante inteligentes e sociáveis. Se levarmos em consideração que não dispunham de métodos sistematizados de transmissão de conhecimento anterior a eles e que estavam a inventar ainda formas de linguagem e de registros que alavancassem o saber, eu diria que certamente alguns possuíam cérebros muito privilegiados. Nós, os sapientes do século vinte e um depois de Jesus Cristo, se ficarmos sem luz elétrica e sem fósforos ou isqueiros, em um piscar de olhos estaremos muito parecidos com eles. Alguns, inclusive, emitindo grunhidos no lugar de palavras. Você, que me lê, saberia, por exemplo, fazer uma fogueirinha amanhã a partir do nada?
Eu, talvez, conseguisse. Fiz um breve curso de sobrevivência em um clima tropical, porém nada que tenha de fato me preparado para interagir com a natureza de um modo mais substancial. Aprender a fazer fogo, se não foi o aprendizado mais relevante para a continuidade de nossa espécie, foi pelo menos um dos principais e o que mais me fascina. Eu gosto de fogo. Via, na TV, o desenho animado Os Flintstones, quando era menina, e brincava literalmente com ele ainda que houvesse advertências constantes, em níveis inclusive simbólicos, de que quem brinca com fogo se queima. O verbo queimar ganhou enormes proporções em nossa civilização, mesmo porque, nesta época turbulenta em que vivemos, saber apagar o fogo ou não pôr mais lenha em uma fogueira simbólica é de um saber também crucial.
No final do século passado, um dos livros que mais me hipnotizou foi o Fogueira das Vaidades, do Tom Wolfe, Homo sapiens nascido no Hemisfério Norte. Decidi, por uma questão pessoal, globalizar, dentro desse texto, a nossa ocupação no planeta apenas por hemisférios. Dizem alguns cientistas que o aquecimento da Terra vai inviabilizar a existência da nossa espécie primeiro aqui no Sul. Daí a relevância dessa divisão, mas não quero falar sobre isso agora. Agora quero falar sobre as coisas que, independentemente de lugar e épocas, nos fritam. E não são poucas. Pensando em nós nesta nossa forma de estar no mundo, teclando, sozinhos ou ignorando quem está por perto, em telefones ou computadores, posso dizer que, nas redes sociais, ardem e carbonizam-se almas. Ia escrever corpos, mas estamos virtuais, uns mais que outros, por uma série de fatores que também não vou abordar neste momento e que eu, particularmente, não gosto. Tenho um certo pavor de conversar por mensagens. Se troco, além das profissionais, alguma com você que me lê, sinta-se estimada ou estimado. E acho que aqui, depois de escritos seiscentos e dezessete vocábulos, finalmente, entro no assunto que me interessa: o beijo como demonstração de estima e desejo entre os seres humanos.
Pesquisando, encontrei coisas interessantes sobre o beijo no rosto, o beijo na boca e o beijo de língua – o famoso French Kiss – título de um charmoso filme água com açúcar, responsável por esquentar as relações entre nós ou por as impedir de seguir em frente. Não conheço nada mais desanimador que um beijo morno. O termo french kiss, surgido na Primeira Guerra Mundial, envolve uma certa dose de volúpia e de abertura. Quem o criou foram os soldados norte-americanos e ingleses beijados pelas francesas. Em épocas mais antigas, mais da metade dos grupos tribais não trocavam, em hipótese alguma, beijos eróticos ou românticos, considerando-os anti-higiênicos ou assustadores. Em parte, o contato com os exploradores europeus, mais beijadores de língua, derrubou essa visão.
Então, vamos a ele. O beijo de língua, evolução máxima do beijo pré-histórico, ativa terminações nervosas da boca, disparando um coquetel de hormônios no sangue. Dopamina, oxitocina e testosterona surgem em grande escala, servindo ao prazer e a um tipo individualizado de laboratório químico em que um modo de análise inconsciente ultra-avançado reconhece se o DNA do parceiro é diferente do seu. Quanto mais, melhor. No caso do ato evoluir para um ato sexual em que uma criança possa ser gerada, a diferença genética favorecerá a sua saúde. As mulheres, dizem algumas pesquisas, por questões também culturais, valorizam mais o beijo de língua que os homens, usando-o como um filtro de qualidade para decidir se vale a pena avançar. Não discordo em medida alguma. Um beijo é, sem sombra de dúvida, um termômetro e um elo capaz de se tornar altamente sofisticado. A boca é.
A boca que beija, o beijo que explora e transcende o próprio beijo, a própria saliva, os próprios contornos, movimentos e limites, tudo pode. Sempre pôde. Entre as centenas de pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, há uma com duas figuras antropomorfas unidas pelo que parece um beijo nomeada de O Beijo. Estima-se que ela tenha sido feita entre seis mil e doze mil anos atrás. “Não sei se é um beijo erótico ou se é a ancestral ligação afetiva entre duas pessoas. Minha sensibilidade recusou a prudência dos arqueólogos, as dúvidas dos estudiosos, as advertências de Niède Guidon. É o pai de todos os beijos do mundo, a representação primeira, mais antiga do que a dos Sumérios. Em sua simplicidade rubra, feita de óxido de ferro sobre sedimentos de arenito que um dia foram fundo de mar, o beijo resiste ao tempo e se entrega aos olhos de quem, como eu, tem do tempo ínfima dimensão”, escreveu o fotógrafo Daisson Flach, autor da fotografia que ilustra este texto. Impressão que compartilho e sinto sem nunca ter estado lá.
Todos os textos de Helena Terra estão AQUI.

