
Ao longo da vida, já mudei várias vezes de opinião sobre a melhor maneira de educar uma criança. E desconfio que ainda vou mudar algumas outras. Na minha infância, o recado era: “estude bastante para ser alguém na vida”. Depois, virei pai e tentei fazer diferente. Procurei uma escola mais humanista, mas que também preparasse para o vestibular. Cometi alguns erros pelo caminho. Hoje, com um neto na Noruega, estou conhecendo outra forma de educar crianças. Me parece que cada geração educa os filhos com as certezas de sua época e só depois descobre que estava errada. É sobre essas certezas que quero conversar.
Se você tem mais de 40 anos, deve lembrar do terror chamado vestibular. Famílias sem muitos recursos tinham uma ameaça pronta: “se não passar em universidade pública, vai trabalhar para pagar faculdade particular”. Quando fui matricular meu filho na primeira escola, visitei alguns colégios. Um deles se apresentava assim: “temos alto índice de aprovação no vestibular”. Isso num prédio cheio de crianças de seis anos. O vestibular já rondava a sala de aula no início da alfabetização.
Em casa, os dilemas não eram menores. O que fazer com as pirraças? Qual era o limite? E, na adolescência, como lidar com as festas e excursões da escola? Uma mãe mais experiente me disse certa vez: “Nessas viagens, eles fazem tudo o que não podem em casa”. E a gente ali, recomendando para não beber nada do copo de outra pessoa.
Hoje continuo lendo, ouvindo e tentando entender o assunto. Tenho uma enteada que mora na Noruega e acompanho de perto a educação do meu “enteneto” de um ano e meio, que acaba de entrar na escolinha. A criaturinha volta para casa toda suja e com belo ranho no nariz. E os pais? Tranquilos, como se aquilo fosse o uniforme oficial da infância. Lá, as crianças brincam ao ar livre mesmo quando chove. Usam roupas adequadas, impermeáveis, e vão para fora. Se ficarem gripados, ganham um chazinho e segue o baile. Sem febre, vai para a escola, mesmo que esteja com nariz entupido e tossindo. Outra diferença que me chamou a atenção é a relação com o esporte: nada de competição até os 12 anos. A ideia é que crianças não são “adultos em miniatura”. O foco não é formar campeões, mas sim crianças felizes e saudáveis. É quase uma afronta ao nosso “tem que ganhar” desde cedo.
Essa ideia de desacelerar também aparece em algumas das coisas que tenho lido e ouvido. A educadora Ivana Jauregui, no podcast “Inteligência Orgânica”, afirma: as escolas são ótimas em consumir teoria, mas péssimas em prática. Para ela, a criança precisa aprender a ter compromissos, se a escola não ensina isso, pode começar em casa: “Filho, tudo o que você usa, você guarda. Tudo o que suja, você lava”. Simples, não?
Ivana também diz que poucos pais entendem que a escola de hoje precisa ser diferente da escola em que eles estudaram. Continuamos preparando nossos filhos para acumular conhecimento, mas informação nunca esteve tão disponível. O Google responde, a IA escreve. O problema é que informação não é conhecimento, e conhecimento não é sabedoria. O desafio da educação de hoje é ensinar a criança a pensar, fazer perguntas, experimentar, errar e aprender novamente. Aprender a aprender, e isso precisa de espaço para descobrir, para se entediar.
O educador Paulo Blikstein reforça essa ideia. Citando Paulo Freire, ele lembra que aprendemos melhor aquilo que faz sentido para nós. Blikstein também chama a atenção para um fenômeno curioso: a indústria de tecnologia educacional frequentemente apresenta uma narrativa bastante conveniente. Mostra dados de outros países, aponta a ineficiência do sistema atual, cria a sensação de urgência e, logo depois, apresenta a tecnologia que supostamente resolverá o problema. É claro que a tecnologia pode ajudar, mas uma ferramenta que é ótima para um adulto pode não ser adequada para uma criança em formação. Um chatbot pode responder em segundos, mas isso não significa que a criança tenha aprendido a pensar. A pergunta que deveríamos fazer: essas tecnologias servem para ampliar a capacidade das crianças de pensar ou para evitar que elas precisem pensar?
Diante de tanta informação e mudança, minha sugestão de hoje (até que eu mude de ideia de novo) é simples: respire fundo. Não precisa correr para matricular os pequenos em inglês, programação, robótica, música, esportes e mil outras coisas que prometem um futuro brilhante. Também não se desespere com a escola mais conteudista do mercado. Uma amiga professora das primeiras séries me contou que tem 28 alunos em sala, sendo quatro autistas e muitos outros apresentam TDAH. Isso me fez pensar que nossas crianças já têm desafios suficientes. A urgência hoje não é preparar o currículo, mas cuidar da saúde mental, deixá-las brincar, descobrir coisas com as próprias mãos e ser feliz ao jeito delas.
O problema é que o mundo mudou mais rápido do que nossas certezas. E talvez a grande tarefa dos pais de hoje não seja preparar os filhos para “serem alguém”, mas ensiná-los a viver em um mundo que ainda nem sabemos como será. O que elas precisam é menos pressão, menos competição e mais tempo livre. No fim, a infância é a única parte da vida em que a pressa é a maior inimiga da aventura.
Referências:
– Inteligência Orgânica – Os pais estão criando filhos sem força para enfrentar a vida? Ivana Jauregui.
– Roda Viva – Paulo Blikstein.
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