
Muitas vezes escutamos relatos duros justamente da vida de personagens extremamente interessantes. Gosto de pensar que, em toda experiência negativa, existe pelo menos alguma coisa a aprender. Mesmo nos cenários mais difíceis.
Valorizamos a felicidade, mas talvez sejam os momentos de dor que mais nos transformam. Na pior das hipóteses, deixam alguma lição. Mas é importante refletir para aprender com os eventos.
A pandemia foi assim.
Para as minhas plantas, por exemplo, foi muito positiva. Nunca viveram tanto. Nunca floresceram tanto quanto entre 2019 e 2020. Ganharam minha atenção, água na hora certa, cuidados diários. O ar também estava menos poluído. O cuidado fez toda a diferença.
Ainda, naquela época, para não enlouquecer dentro do apartamento, investi em um minhocário. Descobri que talvez seja um dos “pets” mais fáceis e úteis para quem mora em apartamento. Não faz barulho, não precisa passear e ainda produz terra fértil para as plantas.
Era relaxante mexer na terra fresca. A compostagem me lembrava que tudo é processo. Restos orgânicos, que representam metade do lixo que produzimos, transformavam-se lentamente em matéria capaz de gerar uma nova vida.
Foi uma das minhas âncoras para manter a cabeça no lugar.
Falando em plantas, também fiz cursos de cultivo e alimentação saudável. Descobri cursos da Embrapa, comunidades no Facebook e no LinkedIn dedicadas ao tema. Cultivei microverdes e, por algum tempo, a alimentação da minha casa nunca foi tão rica em nutrientes e sabores.
Também aprendi, naquela época, o custo do deslocamento.
Não sair de casa fazia sobrar tempo. Muito tempo.
Mas havia um preço alto. Fazia falta o abraço, o olho no olho, o encontro casual. Descobri que algumas coisas não podem ser substituídas por uma tela.
Outra âncora importante foi compreender o verdadeiro poder das redes.
Elas ajudaram, de alguma maneira, a dar continuidade à vida. Para os mais afortunados, trabalho e estudo puderam continuar, ainda que virtualmente. Para aqueles que precisavam continuar saindo para trabalhar, conteúdos culturais, vídeos educativos, música e comédia ajudaram a trazer alguma leveza para um cotidiano marcado pelo risco.
Foi também curioso assistir até as gerações mais velhas aderirem às dancinhas do TikTok.
Mas, ao mesmo tempo, algo muito mais importante acontecia.
Professores, pesquisadores e cientistas encontraram nas redes um espaço para produzir e compartilhar conhecimento em vídeos curtos, aproximando assuntos complexos de pessoas que dificilmente teriam acesso a eles de outra maneira.
Espero que esse seja um caminho sem volta.
Em um país onde uma parcela pequena da população chega ao ensino superior, ampliar o acesso ao conhecimento é fundamental. Afinal, é o conhecimento que nos permite construir caminhos mais sólidos.
A internet é uma possibilidade para isso.
Mesmo competindo diariamente com a futilidade, a distração e a desinformação.
E professor também aprende.
Na pandemia aprendi sobre a potência das organizações estudantis, a força de conexão dos grupos de pesquisa e as possibilidades de trabalhar coletivamente à distância. Aprendi sobre ferramentas de colaboração, reuniões virtuais e financiamento coletivo.
Nada disso é banal.
Bem utilizado, é potência.
E nós somos muito bons em criar redes quando existe uma causa que nos mobiliza.
Uma das experiências positivas foi participar da rede Urbanismo Contra o Corona. Professores e estudantes de diferentes universidades do país se reuniram para trocar experiências e pensar formas de ajudar suas cidades. As trocas ocorriam em reuniões online onde a quantidade de participantes emocionava.
Foram organizados grupos de trabalho, levantamentos, mapeamentos e ações.
O mundo acadêmico se mobilizou. E muito.
Foi em uma dessas ações que diferentes saberes acabaram se encontrando.
Depois de mapear comunidades e identificar suas vulnerabilidades, conseguimos recursos por meio de financiamento coletivo para distribuir cestas básicas.
Começamos então a pesquisar preços nos supermercados. Mas o que chamou a minha atenção foram alguns itens.
Açúcar.
Farinha.
Biscoito.
Achocolatado.
Mistura para bolo.
Chimia.
Suco.
Meus olhos percorreram a lista de dezesseis produtos, sete eu não consumia.
E, pior, não recomendaria ninguém a consumir regularmente.
A pandemia havia me dado tempo para estudar um pouco mais sobre alimentação e nutrição. Eu sabia que aqueles produtos alimentícios não perecíveis poderiam matar a fome, mas dificilmente entregariam aquilo que o corpo precisava para se manter saudável.
E aí apareceu o dilema.
A fome não pode esperar.
Quanto maior o volume de alimentos comprados, mais pessoas conseguimos atender.
Mas o que estamos oferecendo?
Produtos alimentícios ou nutrição?
Estamos matando a fome ou apenas adiando um problema?
Era uma pergunta difícil.
E continua sendo.
Porque sabemos que uma alimentação baseada em produtos ultraprocessados pode produzir consequências mais adiante: problemas de saúde, redução da qualidade de vida, comprometimento da longevidade. Seguramente, no futuro, um custo adicional para todos e uma sobrecarga no sistema de saúde.
E, enquanto isso, quem ganha?
Muitas vezes, as grandes redes que produzem e distribuem justamente os alimentos mais baratos.
Foi duro perceber isso de forma tão clara.
É duro ainda.
Nosso sistema, tal como está organizado, nem sempre entrega aquilo que precisamos. Ele sabe produzir alimentos em grande escala, mas isso não significa necessariamente que saiba produzir saúde.
Talvez porque saúde não seja uma prioridade quando a lógica principal é maximizar o lucro.
E talvez a própria ideia de comunidade se torne difícil quando tudo é organizado a partir do indivíduo.
Mas somos inventivos.
E aprendemos quando trocamos experiências.
Foi assim que conheci uma iniciativa da Gerando Falcões que me chamou particularmente a atenção.
Em vez de simplesmente distribuir cestas básicas, a organização criou um cartão para que cada família pudesse receber o valor da doação e escolher onde e como utilizá-lo.
Havia uma versão digital e outra física, para quem não tinha familiaridade com a tecnologia.
A diferença parecia pequena.
Mas não era.
As famílias podiam comprar nos comércios próximos de suas casas, ajudando também os pequenos comerciantes locais. E, principalmente, tinham acesso agora a alimentos perecíveis — ovos, legumes, verduras, frutas, carnes — que ficam de fora das cestas básicas comerciais. Justamente os mais saudáveis.
Podiam escolher.
E isso é muito importante.
Com informação para fazer boas escolhas, seria ainda melhor.
Talvez essa seja uma das grandes diferenças entre simplesmente entregar alguma coisa e realmente promover autonomia.
E, infelizmente, essa mesma lógica aparece em outras escalas.
Na construção de edifícios de habitação, por exemplo.
Quando a lógica é maximizar o lucro, a habitação popular tende a ser reduzida ao menor apartamento possível, com as medidas mais ajustadas, a menor qualidade construtiva e, muitas vezes, localizada o mais distante possível dos centros urbanos.
É o mínimo necessário para cumprir uma tabela.
Mas o que não aparece na tabela?
As horas gastas diariamente no transporte.
O tempo que deixa de ser vivido com os filhos.
O custo de levar escolas, postos de saúde e transporte público para áreas cada vez mais distantes.
A dificuldade de acesso ao trabalho.
A falta de comércio.
O endereço que passa a carregar um estigma.
A moradia básica, sem sala, em que o espaço para ócio e reflexão é dispensável, tão bem descrita por Faleiro, na crônica Amsterdam.
Tudo isso também tem um custo.
Só que não está necessariamente na planilha de quem constrói.
Está na vida de quem mora.
Talvez o problema esteja justamente aí.
No afã de celebrar a liberdade individual e as conquistas de cada um, esquecemos que liberdade também significa ter condições reais de escolher.
Escolher o que comer.
Escolher onde morar.
Escolher onde estudar.
Escolher como se deslocar.
Escolher como viver.
Nosso básico mal resolve “a fome” de hoje.
Mas talvez uma sociedade verdadeiramente preocupada com seu futuro devesse perguntar o que está oferecendo para que as pessoas possam viver bem amanhã.
Porque o básico não deveria ser apenas aquilo que custa menos.
Deveria ser aquilo que nos permite viver melhor e com dignidade.