
Vamos fazer uma viagem no tempo? O ano é 1867. A discussão da Comissão do Emprego Infantil era: “Estando no emprego das oito da manhã às cinco da tarde, elas [isto é, as mulheres casadas] chegam em casa cansadas e esgotadas, sem disposição para qualquer esforço adicional a fim de tornar a moradia confortável, [e por isso] quando o marido chega, ele encontra tudo desconfortável, a moradia suja, nenhuma refeição pronta, as crianças irritadas e briguentas (…)”.
O trecho acima é extraído do livro O patriarcado do salário, da filósofa italiana Silvia Federici. Escritora, professora e militante feminista, em várias de suas obras demonstra o quanto o tempo das mulheres foi (ainda é) sistematicamente confiscado — e que esse confisco não foi acidente, foi projeto.
Agora, voltamos a 2026. Vivemos uma confluência de sintomas semelhantes aos trágicos acidentes nas fábricas ocorridos no século XIX. Nunca houve tantos afastamentos por saúde mental relacionados ao trabalho. Dados do Ministério da Previdência Social apresentados em reportagem mostram recorde de registros em 2025, passando de 546 mil casos. Nunca tantas mulheres optaram por não ter filhos ou por postergar esse desejo, mostram os dados do IBGE. Há um abismo entre gerações — uma folga demográfica que preocupa quem se dedica a pensar o futuro das sociedades, porque as civilizações dependem de continuidade.
Outra questão que cabe trazer aqui: como falar de autonomia feminina, saúde mental e desejo/possibilidade de reprodução quando se tem duas ou três jornadas por dia?
É importante lembrarmos que a redução de jornada não é ideia nova nem pauta radical. A Revolução Industrial trouxe as primeiras restrições à jornada e ao trabalho infantil porque mulheres e crianças morriam e se mutilavam dentro de fábricas. Essa versão que conhecemos é uma meia-verdade. Para ser completa, é fundamental recordarmos que, além das tragédias, o cenário pós-guerra trouxe os homens para casa e a disputa por espaço-trabalho. No século passado, o tumulto social envolvia as mulheres da classe trabalhadora, que se recusavam a assumir um papel de trabalho doméstico e ameaçavam a moralidade da sociedade com seus novos hábitos: trabalho, bebida, dança e cigarro.
Quando falamos de redução de jornada, estamos especialmente falando de mulheres. É exatamente por esse motivo que o debate encontra resistência, vive nas margens e enfrenta opinião majoritária contrária: o tema mexe com uma arquitetura antiga de como o tempo feminino foi organizado, distribuído e consumido sem remuneração e sem escolha.
Mulheres não estão gerando filhos porque não têm tempo, não têm suporte, não têm jornada na qual caiba uma vida inteira.
Desde quando fomos silenciadas nas fogueiras — quando o saber feminino precisou ser eliminado para que outro modo de produção se instalasse — a sociedade nos conduziu ao que nos “competia”. Não havia negociação sobre o que fazer. Não havia escolha sobre o caminho. Seguíamos pelos mesmos corredores, entre quartos e cozinha (querela privada do quarto-cozinha²), carregando o peso de uma engrenagem que funcionava precisamente porque nós a movíamos, invisíveis, sem remuneração e sem reconhecimento.
O trabalho doméstico nunca foi visto como trabalho. Foi visto como natureza. Como se lavar, cuidar, alimentar, organizar e sustentar fossem extensões do corpo feminino e não atos de produção social. De acordo com levantamento do IBGE sobre o uso do tempo, divulgado pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria, as jornadas conjuntas de trabalho pago e não pago chegam a 65,5 horas para as mulheres brancas e 67 horas e 40 minutos para as negras.
A distinção entre o que é “trabalho” e o que é “cuidado” foi uma das construções mais eficientes do capitalismo patriarcal, porque, ao transformar trabalho em vocação, eliminou a necessidade de remunerá-lo ou de redistribuí-lo.
Quando se diz que a prostituição foi a profissão mais antiga exercida por mulheres, apagam-se, com uma só frase, séculos de trabalho doméstico que sustentaram civilizações inteiras. Os grandes pensadores, filósofos e estudiosos que ditaram as regras do existir, do ser e do fazer — e que assim construíram teorias que ainda nos governam — puderam fazê-lo porque havia roupa lavada e dobrada, café quente, comida na mesa. Esse trabalho não aparece nos rodapés das obras. Não entrou para a história. Mas estava lá, todos os dias, antes e depois de cada grande ideia.
E, quando as mulheres finalmente cruzaram a porta de saída — quando o mercado de trabalho as chamou, primeiro por necessidade econômica, depois por direito conquistado — o trabalho de dentro de casa não foi redistribuído. Simplesmente acumulou. A jornada doméstica não diminuiu quando a jornada formal começou. Ela se somou.
É aí que nasce a dupla jornada. E depois a tripla — quando se é mãe, profissional e ainda se espera que se esteja disponível emocionalmente para todos ao redor. O tempo feminino passou a ser um recurso gerido pela exaustão: o que sobra depois de tudo que foi dado.
Como bem refere Mona Chollet, no livro Bruxas: a força invencível das mulheres: “o único destino feminino concebível ainda é a entrega. Ou, mais precisamente, uma entrega que passa pelo abandono de seus potenciais criativos mais do que por sua realização. Não é coincidência que as mulheres sejam maioria nos diagnósticos de ansiedade, burnout e depressão relacionados ao trabalho.”
Não é fragilidade. É que a conta das horas de um dia não-nunca fecha. É um modelo que nunca foi desenhado para comportar uma vida inteira, porque foi desenhado para quem tinha alguém em casa fazendo o resto.
A discussão sobre jornada reduzida, portanto, não começa na escala. Começa na pergunta sobre a quem o tempo pertence — e em reconhecer que, por muito tempo, o tempo das mulheres pertenceu a todos, menos a elas.
De quem estamos falando quando estamos discutindo uma jornada reduzida? De quem tem nome, cor e tem duas ou três jornadas por dia.
Fontes:
– Chollet, Mona. Bruxas: a força invencível das mulheres. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Editora Schwarcz/Companhia das Letras, 2019.
– Como a dupla jornada de trabalho afeta a saúde mental da mulher?
– Federici, Silvia. O patriarcado do salário: notas sobre Marx, gênero e feminismo. Tradução de Heci Regina Candiani. Contribuição de Bruna Della Torre. São Paulo: Boitempo Editorial, 2021.
– Impactos da jornada reduzida: um olhar feminista sobre o trabalho e uso do tempo.
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Chris Baladão, bicho raro, formada e por coração advogada, na época em que o curso levava sociais em seu nome, escritora por necessidade de expor a palavra, bailarina porque o corpo exige, professora porque a experiência da vida precisa ser compartilhada.