
É bastante comum ouvir ou ler mensagens e cards com dizeres sobre a importância da gratidão pelo simples fato de acordar todas as manhãs. A grandiosidade disso muitas vezes passa batido; a vida segue, novo dia surge, a rotina exige e a percepção se dissolve. Recentemente iniciei o meu último estágio em Nutrição. É em ILPI, Instituição de longa permanência para idosos. Ao adentrar ali, ocorre um martelar da vida, um choque frente a tantas várias realidades que convergem para o mesmo ponto: limitações fortes para aqueles que conquistam um determinado número de aniversários.
Pode-se olhar sob vários ângulos, várias vivências, vários conceitos, respaldar pelo carinho e atenção das cuidadoras, um local seguro para ficar, ter roupa quente e comida na hora… MAS é possível enxergar um silêncio que grita e uma luz que cega. Ali a velhice aparece nua e crua, quase como uma norma para quem viveu mais (ou será demais?). Escancara dificuldades onde se passa a viver um ‘eterno’ dependente para o básico. É enxergar os tantos olhares que estão ali e não estão, em que o tempo tem outra dimensão e parece ter uma sensação urgente de que tudo o que aquelas pessoas ali precisam para mais um dia é também alguém que os olhe nos olhos e perceba o alguém que ainda existe ali!
Sem isso, o que aflora é o instinto para respirar, comer e dormir. Parece ser uma urgência para tão pouco, recheada de tanta necessidade das queridas tutelas, de alguém que realize o que outrora nos era automático. Todas essas percepções se encontram com sons vindos do fundo, com as muitas conversas individuais e solitárias para ninguém além deles, que ecoam lembranças de uma vida que nem parece ter sido vivida por alguém que um dia já se foi.
Num rompante lembrei dos meus que já foram, daqueles distantes, e de um texto de Lacan. Ele fala, no meu entendimento, sobre o sentimento da falta de alguém. Que, na realidade, não perdemos a pessoa que foi para uma outra dimensão, mas o tudo que a gente era e importava para aquela pessoa que se foi. A matriz disso diz que não é a falta da presença em si, mas o pertencimento que aquela relação trazia.
O espaço e a importância que se tinha para aquela pessoa. É isso que acaba. Se perde o sentido de pertencimento de um mundo que só fazia sentido com aquela pessoa, e na nossa relação naquele eixo. Tudo era amparado em como aquela voz entoava ao nos chamar, na conexão e fluidez das conversas que ocorriam, no profundo sentido naquela interação, nos abraços que tinham a força e o aconchego específico e que não aconteciam com mais ninguém. Um resumo do silêncio compartilhado que unia, um tudo e um nada que só se viveu porque era com aquela pessoa. Um ‘lugar’ e conexão única e que morre com quem se foi.
Nas palavras de Lacan e na minha interpretação, um sentimento em rebuliço surge e se transporta para a realidade do idoso, do velho, do ancião. Ali na ILPI se enxerga a perda do pertencimento do eu velho com o eu antes do velho(a). Aquele vínculo e integração da pessoa com ela mesma. Passam a ser estranhos. Outrora trabalhadores, ativos, motoristas, construtores, donas de casa, agricultores… hoje iguais no mesmo esquecimento! Não pensava que essa ‘propriedade’ do eu fosse tão delicada! E me dei conta de que é preciso urgentemente começar aos 20 a construção do velho de 80, para que se possa desfrutar de uma idade como a soma de muitas vivências, e não do resultado que dissolve cada identidade tão única.
Eu não sei a resposta, gostaria! Talvez possamos pensar na construção da vida para a velhice como cozinhar a própria comida. Sim, sem fórmulas mirabolantes, porque o precioso está também no simples, no básico. Vejamos que cozinhar a própria comida é uma prática direta que pode recuperar o controle do que entra no nosso corpo e o que esse processo faz com o organismo. É um contexto que começa muito antes da comida no prato, começa na escolha dos ingredientes. Isso, pois, quando se cozinha, podemos controlar as variáveis mais importantes: o que pode e o que não precisa compor a refeição, como, por exemplo, os corantes, o excesso de sódio, o açúcar invertido, gorduras trans.
Nenhum ultraprocessado consegue competir com um alimento preparado do zero conscientemente, justamente pelo motivo de que simplesmente não existe aditivo para ser escondido ali que não se saiba ao organizar o que vai ser produzido na sua cozinha. O impacto na resposta metabólica é direcionado com coisas simples e pensadas. Se pensarmos que refeições ultraprocessadas costumam disparar picos de glicose intensos, por exemplo, com os mesmos ingredientes da base da nossa refeição feita em casa. Mas por que um pode ser ruim e outro não? Porque o processamento industrial muda a estrutura do alimento, altera a resposta da saciedade com produtos para hiperpalatabilidade, por exemplo, antes de chegar até a nossa mesa. São processos que não vão ocorrer na nossa cozinha, já que temos a opção da escolha do que cozinhar! Pequenos detalhes, pequenas construções que podem fazer o jovem de hoje o velho lúcido, ativo e participativo de amanhã. Nada é por acaso, tudo é construído e a resposta pode ser alterada.
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Denise Preussler dos Santos é jornalista (Unisinos), com mais de 180 artigos publicados em jornais do interior. Tem publicações na Revista Teias, Labrys, Revistas Eletrônicas Puc, Revista de Educação, Linguagem e Literatura-UEG Inhumas. É mestra em Educação (Ulbra) e terapeuta integrativa. Atualmente, cursa Nutrição (Uniasselvi).