
Via de regra, quando voltamos de alguma temporada fora para os ambientes habituais, nos deparamos com reações diversas: há as recepções efusivas via saudações em altos decibéis, as acolhidas fraternas com apertados abraços e há os encontros reticentes, ambas as partes se redescobrindo. Das relações que estabelecemos na vida, as mais cotidianas são as mais sensíveis a longos períodos de afastamento.
As parcerias, que muito nos assistem em ações diárias, são aquelas fortemente afetadas por compridas separações. As imprescindíveis para as aberturas das passagens em nossos ofícios, as necessárias para que possamos reentrar em aconchegos caseiros, as insubstituíveis para que se dê a partida nos motores que nos movem, são aquelas confrangidas em maior grau pelos extensos momentos de distanciamento.
Num primeiro tempo, a pessoa retornada se depara com a realidade de que perdeu alguma coisa do traquejo e do jeito de lhe dar com todas aquelas sem as quais, algum dia, passagens não teriam sido descerradas, a familiar segurança não poderia ter sido acessada, as cilindradas que dispomos não se potenciariam. São essas situações e eventos que constituem proficiência àquilo que temos à mão, que engendram proficuidade às prestâncias.
É praticamente impossível reingressar no mundo do trabalho sem destravar trincos; é infactível reocupar lugares de íntimo conforto sem abrir portas, é difícil acionar nossos propulsores sem as chaves certas.
É neste sentido que acredito serem elas, as chaves, uma das companhias corriqueiras também impactadas com nossa ausência, sendo as que ativamente manifestam ressentimentos nos momentos iniciais da volta.
Assim, a que primeiro manifesta sua birra é a Pado da porta de casa. Se escondendo no molho, só depois de equivocadamente tentarmos a do portão, de erroneamente usarmos a do cadeado da grade ou girarmos desacertadamente a da cozinha, é que ela se apresenta. Surge serena, como se não soubesse de nossa ansiedade já instalada. No serviço, o vexame é o mesmo: a chave da repartição se perde por entre aquelas correspondentes aos fechos do banheiro e dos armários, nos levando ao constrangimento de ter o acesso ao escritório destravado pelo auxílio de algum colega que divida o mesmo espaço conosco. Quanto à chave do veículo, essa, obviamente, por muito que queira, não consegue se esconder, não consegue se disfarçar em nenhum tipo de chavezinha; contudo, faz de conta que nunca foi introduzida na engrenagem da partida: emperra nas primeiras tentativas e apenas depois de pacientes ensaios de ajuste de posição é que faz funcionar as engrenagens.
Então, é no regresso ao cotidiano pausado que podemos nos deparar com a verdade de que, dispositivos indispensáveis em nossa existência, as chaves nunca nos deixam saudades. Apesar do tom bronze (que toma o que já fora um reluzente e prateado corpo) registrar sua valência em nossa vida, não estão entre as criaturas de nossas mínimas lembranças.