
Há quatro anos, no período entre o primeiro e o segundo turno das eleições, eu estava de férias na Espanha. Cheia de culpa por não estar nas ruas de Porto Alegre fazendo aquilo que nos acostumamos a chamar de virar voto e cheia de alívio por essa decisão que me cuidava um pouco.
Ainda assim, à época, as férias não me salvaram dessa outra coisa que nos acostumamos a chamar de “ativismo digital” e que, talvez, mereça cada vez menos esse nome, já que o tal digital nos deixa passivos e nos controla cada vez mais. Houve um dia em Barcelona em que pausei as tais férias e gravei um vídeo para a RED e escrevi no hostel, no celular mesmo, um texto que chamei Lula dia 30 para nunca mais ter que declarar meu voto. Naquele contexto deu tudo certo. Voltei e votei em São Paulo e ainda deu tempo de chegar na noite do dia 30 a Porto Alegre para me perder na imensidão que foi aquela celebração na Cidade Baixa. Tudo muito emocionante. Épico, inclusive. Só me faltou ter ido a Brasília na posse, coisa que ainda me dói um pouquinho.
Tadinha de mim, algo em mim quis acreditar que, com apenas um mandato de Lula, sairíamos dessa maldita sombra do fascismo. Acreditei que recuperaríamos aquela civilidade anterior que nos permitia exercer com tranquilidade o direito ao voto secreto. Acreditei que a direita deixaria de ser a extrema direita. Acreditei que, em um próximo pleito, seria possível votar na esquerda “de verdade” e deixar o voto crítico ao candidato do PT – que, obviamente, já não seria o Lula, pois já teríamos o seu herdeiro político. Quem sabe o Boulos?
Depois, os ventos mudaram, a vida deu um giro e eu vim finalizar meus estudos pendentes na Argentina e acabei me casando e tendo filhas. E, nesse meio tempo, quando se elegeu por aqui Milei, foi um novo sofrimento e eu começava a entender melhor o que havia de errado com aquele texto. Não gosto muito quando escuto as tais críticas à “esquerda cirandeira”. Acho ofensivo. Admito, contudo, que este significante “ciranda” traz algo de um infantil que possivelmente nos concerne. Muitas vezes nos deixamos adormecer, infantilizados em certos devaneios de paizinhos salvadores da pátria, desconsiderando a geopolítica, por exemplo. Foi preciso confirmar no poder de Trump e Milei para entender que Bolsonaro não era apenas uma anomalia, mas que o neofascismo tinha pegado gosto por crescer nas Américas. E que Rússia, Estados Unidos e China já têm seus pátios mais ou menos divididos e definidos. Dificilmente um vai se meter no caminho do outro.
O que a América Latina tem é ela mesma, mas precisamos nos perceber mais integrados. Aqui da “lateral” dá para ver que somos contíguos, que necessitamos unir nossas forças, porque, mesmo que Lula ganhe de novo, estamos perdendo. Em parte, porque nos falta essa união. A diferença está entre perder e sermos servidos de bandeja, como quer o bolsonarismo. Acontece que perder é só para quem luta. Quem se entrega não tem esse privilégio.
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