
Quando andamos numa estrada com túneis, proteção de encostas para não ter desmoronamento e sistemas de drenagem, não temos ideia do processo que envolveu antes das obras começarem. Essa missão de se pensar o impacto de uma construção, de se ter medidas paliativas para reduzir a enorme interferência em áreas muitas vezes intocadas de floresta, é uma das atribuições de técnicos, de pessoas dos órgãos de governo que licenciam, que autorizam a realização dessas obras.
Faço essa breve introdução para explicar, de forma sintética, o trabalho de uma pessoa que deixou um legado relevante, que atuou exaustivamente para que fossem protegidos os últimos remanescentes de Mata Atlântica no Rio Grande do Sul. A geógrafa Maria Isabel Stumpf Chiappetti faleceu dia 11 de julho, sábado, uma semana depois de ter comemorado 45 anos de casada com o professor de Geografia Ademir Chiappetti. Ela estava tratando um câncer no pâncreas há cerca de dois anos.
A partida da Isabel está sendo doída para quem conviveu com ela. Por onde ela passou, deixou uma marca de generosidade e sapiência nos relacionamentos profissionais e de amizade. Ela sempre foi convicta da necessidade de respeitar os ciclos dos ambientes naturais e o território onde as comunidades seriam afetadas diante de um empreendimento. Sua atuação foi decisiva para a consolidação da gestão ambiental pública no Rio Grande do Sul.
Trabalhei com a Isabel no final da década de 90, quando fizemos o Caderno da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Vivemos situações inusitadas, percorremos as áreas núcleo da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica no Rio Grande do Sul. Numa das empreitadas, nosso carro atolou na então Estrada do Inferno, quando não era asfaltada rodovia estadual RSC 101. Com a Isabel, não tinha tempo ruim; ela encarava qualquer situação com serenidade. Pegamos carona com um caminhoneiro para voltar para casa em alto astral. Vim agachada na carroceria porque não tinha lugar para sentar.
Fazia tempo que não a encontrava; receber a notícia da sua partida foi um soco no estômago. Como assim, uma mulher cheia de vida que esteve em tantas frentes se foi assim sem eu saber que ela estava doente? Pelo menos fico aliviada em saber que ela foi em paz e realizada de ter seguido suas convicções e de ter formado uma família amorosa que viveu seus últimos momentos ao seu lado. Ela e Ademir sempre foram muito espiritualizados, estabeleceram vínculos de amizade com muita gente, o que deu para ser percebido no número de homenagens e coroas de flores no seu velório.
Ademir ressalta que ela procurava não julgar, pensava antes de falar, pois tinha certeza de que cada um caminha de acordo com seu tempo. Ela considerava a complexidade do território, trabalhava com os preceitos da horizontalidade. E confessa: “Fui muito sortudo de tê-la encontrado. Ela nunca reclamou, enfrentou um câncer difícil, cuja gravidade só tivemos a dimensão do ano passado pra cá”.
O legado de Isabel e daqueles técnicos aguerridos que ajudaram a Fepam a ter um corpo técnico reconhecido merece ser honrado. Para quem não viveu o tempo em que o contexto ambiental conquistava espaço (foi uma árdua conquista da sociedade civil) e as ações de controle onde o bem comum se sobressaía mais sobre o interesse de alguns, eram mais valorizadas pelo poder público (por incrível que possa parecer, mesmo com tantas evidências do agravamento da saúde planetária, a proteção ao ambiente vem sendo desmantelada), vale conhecer um pouco da trajetória dessa mulher incrível.
Ela nasceu em Canela, mas, ainda criança, foi para Caxias do Sul. Veio para Porto Alegre em 1978 e, em 1982, começou a trabalhar no Departamento de Meio Ambiente, numa época em que a legislação ambiental começava a ser desenhada. Primeiro fez licenciatura em Geografia pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) e depois bacharelado também em Geografia com ênfase em Planejamento e Gestão Ambiental pela Ufgrs.
Ela trabalhou mais de 30 anos na FEPAM, na qual esteve conectada diretamente às atividades de licenciamento e gestão ambiental. Entre suas funções, exerceu cargos de chefia no Departamento de Qualidade Ambiental (DQA) da Fepam. Antes de se aposentar, foi gerente do Projeto Sistema Integrado de Regularização Ambiental (Siram), voltado à integração, padronização e informatização dos processos de regularização ambiental envolvendo Sema, Fepam e Fundação Zoobotânica.
Ademir acredita que um dos momentos decisivos para Isabel foi ter participado da Eco-92 (aliás, esse evento foi marcante para muita gente; a partir daí surgiram diversas iniciativas pela preservação ambiental). A partir de então, seu posicionamento em favor da Mata Atlântica se tornou um objetivo de vida. Viajei algumas vezes com ela e com o professor de Botânica da UFRGS, Luis Rios de Moura Baptista, outro defensor da Mata Atlântica. Sou grata por tudo que aprendi com pessoas como eles. Vale conferir o texto, que tem inclusive uma foto da Isabel com o professor (leia AQUI).
Confira algumas manifestações sobre o legado de Isabel.
Reconhecimento
Foram anos, na verdade décadas, de convivência privilegiada com a querida amiga Isabel Chiappetti, a nossa ruivinha gaúcha, que desde os anos de 1990 ajudou a construir a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Conhecimento, dedicação e competência, firmeza nos princípios, no caráter e na desafiadora luta ambiental. Tudo isso sem nunca perder o sorriso suave, sereno, sempre abrindo caminhos e inspirando pessoas. Foi assim na Fepam, no Comitê Estadual da RBMA no RS e no Conselho Nacional da Reserva. Foi fundamental na criação de várias Unidades de Conservação, como a REBio Mata Paludosa, a Estação Ecológica da Aratinga e a APA Rota do Sol. Foi referência nas lutas por políticas públicas voltadas à conservação e sustentabilidade no Rio Grande do Sul e nas grandes batalhas nacionais em defesa ambiental. Em 2018, recebeu o Prêmio Muriqui Especial (Pessoa Física) por estas e tantas outras contribuições. Agora a nossa amiga nos deixou. Mas ficou o exemplo e o legado de uma vida que valeu a pena, lutando pela natureza que amava e pelo futuro de todos nós.
Obrigado, Isabel!
Clayton Lino, ex-presidente do Conselho Nacional da RBMA, Diretor de Cooperação Internacional da Rede Brasileira de Reservas da Biosfera/MAB-Unesco
Respeito
Conheci a Isabel no início dos anos 1990, quando iniciei meu trabalho em prol da Mata Atlântica. A Isabel sempre foi muito receptiva e trabalhou por anos na criação e implantação da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica no RS, na conservação desse bioma. Talvez seu trabalho de mais visibilidade tenha sido em relação à implantação da Rota do Sol na descida da serra. Se hoje a Rota do Sol é uma estrada com engenharia amigável ao meio ambiente, isto se deve ao trabalho técnico da Isabel e sua equipe no licenciamento ambiental, que exigiu melhorias significativas no projeto de construção desta rodovia.
Kathia Vasconcellos Monteiro, ambientalista
Pioneirismo
A Maria Isabel foi uma das precursoras nos estudos da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica no Rio Grande do Sul (RBMA). Sua dedicação e conhecimento contribuíram para a delimitação e tombamento da RBMA no Estado. Como coordenadora do Programa Mata Atlântica junto à FEPAM, a Maria Isabel colaborou para estabelecer as linhas de ação para a proteção da Mata Atlântica, buscando a efetivação do tombamento dentro dos processos de licenciamento, monitoramento e planejamento ambiental. Pela sua experiência e participação em grupos de trabalho, era sempre consultada pelos colegas, pois tinha na memória a legislação referente ao tema e a delimitação espacial nas diferentes fases da RBMA. A consolidação da RBMA no RS e a criação de Unidades de Conservação neste bioma contam um pouco da história da Maria Isabel dentro da Instituição.
Lilian Waquil Ferraro, analista da Fepam, amiga e colega de faculdade
Referência
A Maria Isabel foi uma das principais referências na Fepam quando o assunto era proteção da Mata Atlântica. Ela foi nossa representante no Comitê da Mata Atlântica e incansável defensora do Bioma. Sempre educada, com a fala mansa, porém firme nas suas convicções, ajudou a plantar as sementes do que hoje temos. Recentemente, inclusive, a Fepam criou um serviço exclusivo para fazer a gestão mais aprimorada dos Termos de Cooperação que mantém com alguns municípios. Este serviço pretende acompanhar com muita atenção o manejo de remanescentes de Mata Atlântica no âmbito dos licenciamentos municipais. Tenho certeza de que a Isabel iria gostar de ver isso funcionando.
Luís Fernando Perelló, analista da Fepam e responsável pelo Serviço de Gestão dos Termos de Cooperação da Mata Atlântica (SIGMA).