
Há muito tempo, em um dos prédios onde morei, houve um incidente condominial, desses que são tão frequentes nas metrópoles. Um vizinho reclamou do outro para o síndico. Alegou que o silêncio necessário para o seu repouso na madrugada estava sendo atacado pelos barulhos desse outro vizinho. A bem da verdade sonora, falava em nome de todos. Ou quase todos que, afinal, eram interrompidos pelos gemidos e sussurros que vinham do 403 (omito o número verdadeiro para manter o sigilo).
Quando, de isolada, a queixa alcançou um coro de tantos moradores, esta foi a pauta principal da próxima reunião de condomínio. A turma em peso estava ali para acabar com a festa ruidosa de amor do vizinho. Tinham até mesmo rota e protocolo para isto: advertência, multa, expulsão. Nessa ordem. Fui o único voto contrário ao mapa da repressão organizada. À época, falei como o poeta que eu já era, argumentando que um mundo que sufocasse os barulhos do amor seria um mundo perdido, condenado ao ódio e ao vazio. Um mundo que perderia a subjetividade, a originalidade, o sentido do encontro e até mesmo do romantismo de uma lua sem mais ninguém para uivar para ela. Sequer riram dos meus sólidos e líricos argumentos.
– Ela urra – disse um.
– Ele berra – berrou outro.
– Eu era surdo, por acaso?
– Que não berrem nem urrem – berrava o coro.
Que o amor não urrasse nem berrasse era a posição inconteste de um grupo que só olhava o seu desejo de dormir, em detrimento do amor alheio, desejoso de vigília e farra. Achei muita falta de alteridade, mas fui voto vencido.
Tempos depois, ainda poeta, mas já psicanalista, mudei a minha hipótese principal para o incidente. Não se tratava de um ataque à poesia, mas da manifestação de inveja que todos aqueles abstinentes, premidos pelo estresse do dia a dia, acumulavam da prosa dos bons de cama amorosa. Entre Freud e Klein, eu teria novos e embasados argumentos que não posso emitir, pois nem eu nem o vizinho moramos mais lá.
Tempos depois, novamente voltei a refletir sobre o caso (o amor ecoa) e, a certa altura de meus pensamentos, não conseguia explicar por que eu não tivera inveja dos vizinhos amorosos, mesmo jamais tendo alcançado aquele nível de gritos e sussurros. Felizmente, a psicanálise também evoluiu e, hoje, ela não se proclama mais como arauta de todas as explicações. Ela mesma se tornou mais silenciosa e discreta em seu trabalho de soltar nossos barulhos e fomentar a força de enfrentamento diante dos que conspiram, escandalosamente, contra o amor.
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