
Um trabalhador semiclandestino pega um avião na fronteira do México com os EUA e, junto com dezenas de companheiros, viaja até Los Angeles, onde deve passar todo o final de semana em trabalho de limpeza dos vidros externos dos edifícios da cidade. Pagar o transporte desses homens é mais barato do que contratar trabalhadores locais, e os atravessadores conhecem os escaninhos das entradas e saídas clandestinas no país.
Durante a limpeza de um daqueles prédios, um trabalhador repara a presença de uma mulher absorta em seu birô de trabalho, solitária naquele mundo de escritórios, em pleno final de semana californiano. Ela se distrai e, ao observar a janela, vê aquele homem. Levanta-se e aproxima-se como quem vai fechar a cortina e evitar olhares indiscretos, mas, ao invés disso, fixa o olhar nos olhos do “chicano” durante alguns constrangedores minutos, olhar relaxado de entrega, sem hostilidade nem medo, como quem convida a entrar e instalar-se em sua vida. Nenhuma palavra, nenhum gesto, nenhum toque… apenas a sensação de que alguma coisa maior do que a diferença que os separava havia acontecido, porém bloqueada por uma cortina transparente e preventivamente segregativa. Trata-se de um conto de Carlos Fuentes: A fronteira de vidro.
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Numa passagem de À procura do tempo perdido, Proust descreve o salão principal do Grand Hôtel de Balbec “como um imenso e maravilhoso aquário, e diante da parede de vidro a população operária de Balbec, os pescadores e também as famílias dos pequenos burgueses, invisíveis na sombra da noite, se amassavam diante para poder ver a vida luxuosa daquela gente, tão extraordinária para os pobres quanto a dos peixes e moluscos estrangeiros (uma grande questão social é a de saber se a parede de vidro protegerá sempre o festim das bestas maravilhosas e se as pessoas que olham avidamente dentro da noite não virão um dia pegá-los no aquário para comê-los)”.
Aqui, a barreira de vidro, ao mesmo tempo impeditiva e frágil, não é mais a que separa o amor impossível da solitária miséria cotidiana, mas a das classes em que o luxo perdulário é espreitado, na noite escura, pela ameaça dos desvalidos que querem apenas uma oportunidade para transformar o festim em carnificina.
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Romand Roland, numa carta ao seu amigo Freud, lhe perguntava sobre certo “sentimento oceânico”: uma sensação de pertencimento cósmico que o próprio Freud confessava não compreender. A paixão, sobretudo a paixão carnal, parece essa tentativa de romper a fronteira irredutível que nos separa do Outro, integrando-o ao meu próprio corpo. Tentativa vã: o fim incontornável da paixão amorosa é o retorno às fronteiras do EU.
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Em 1975, Primo Levi respondia às perguntas de alguns adolescentes sobre seu livro Se questo è un uomo e dizia que, sem cinismo, aquele livro tinha lhe ajudado a suportar a experiência de sobrevivente de Auschwitz e que, depois dele, vivia uma vida normal. Havia um antes e um depois daquele seu célebre livro. Primo Levi suicidou-se em 1978!
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Como imaginar que nossa vida possa estar situada entre duas mortes que nos pertencem? Essa é a tese de Jorge Semprùn em A escrita ou a vida. Deportado para Buchenwald, Semprùn conseguiu sobreviver ao extermínio graças à libertação dos Lager pelos soviéticos. Foi para Paris, para Montparnasse e Saint Germain, disputar espaço com os existencialistas, ele, que era comunista e temente à La Passionaria! Bebeu, fumou, amou, leu, escreveu e sorveu a vida como quem já viveu a própria morte: a morte não estava no futuro, mas no passado do campo de Buchenwald. Depois de tê-la experimentado e sobrevivido, só teria vida pela frente! Um dia tomou conhecimento do suicídio de Primo Levi e soube, naquele instante, que iria morrer de novo!
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Weimar era a cidade-fetiche de Goethe, para onde ele se recolhia nos momentos de decisão e onde, em passeios kantianos e sob a sombra da famosa árvore dominando a entrada da cidade, viveu seus velhos dias. Símbolo mais acabado da Aufklärung alemã na literatura, Goethe, em seu humanismo universalista, achava que um dia não existiriam mais literaturas “nacionais”: toda literatura trataria apenas de uma coisa: do Homem. O campo de trabalho e extermínio de Buchenwald ficava a apenas dois quilômetros de lá. Como é fina a fronteira que separa a cultura da barbárie.
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Nunca mais seremos os mesmos. Não há retorno possível a uma humanidade primeira e edênica. William Golding fez a tentativa literária (O Senhor das Moscas) e mostrou nossa condenação ao fracasso. Um grupo de jovens e crianças, a caminho das férias, sofre um acidente aéreo e cai numa ilha deserta. Veem nisso a oportunidade de romper com a civilização e a cultura da qual vieram e fazer a experiência do recomeço em novas bases. O resultado é a demonstração fatídica de que não existe marcha a ré na civilização, não há volta à inocência da Natureza, não há recomeço possível uma vez ultrapassada a fronteira da cultura. Isso deveria nos advertir em relação às utopias sociais e políticas. Senhor das Moscas em aramaico se diz Belzebu!
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Somos fronteira e estamos condenados às fronteiras. E elas começam quando, ao nascer, ganhamos um corpo, que não é nada mais do que as linhas que definem nossa presença espacial no mundo, os limites que permitem nossas sensações. Antes, no ventre materno, estávamos indissociados na Natureza, integrados um no outro, circunscritos em um corpo-limite, corpo-fronteira, que separa um aquém do que sou de uma além do que não sou, do Outro, do espaço vazio, do nada…

