
Quem visita o Museu Groeninge, na Bélgica, depara-se com duas grandes tábuas do século XV encomendadas ao mestre Gerard David para a prefeitura de Bruges. Trata-se de um díptico perturbador. No primeiro painel, o juiz Sisamnes é preso por corrupção. No segundo, a lâmina dos carrascos retalha sua pele sobre uma mesa de madeira, enquanto, ao fundo, o filho Otanes já aparece sentado na cadeira do tribunal, forrada com o couro do próprio pai. A obra foi instalada na Câmara dos Vereadores como um alerta sobre a gravidade do dever.
O evento histórico que inspirou a tela ocorreu por volta de 500 a.C., no Império Persa. Encarregado de guiar o povo pela justiça, Sisamnes cedeu à ganância e aceitou suborno. Seu julgador, contudo, não era um governante comum. O rei Cambises II vivia à sombra da lenda do pai, Ciro, o Grande. Mas, enquanto Ciro era lembrado pela magnanimidade, Cambises ficou marcado pela instabilidade, obsessivo pelo controle e capaz de reações extremas. Para um rei cuja autoridade beirava a paranoia, a venalidade de um magistrado não era um crime burocrático: era um ato de insubordinação.
Ao descobrir a traição, Cambises não se limitou a decretar a morte de Sisamnes: ordenou que fosse esfolado vivo. Antes do fim, perguntou-lhe quem deveria sucedê-lo. Agarrado ao prestígio do cargo, o juiz indicou o próprio filho. O rei concordou, mas determinou que a pele do condenado revestisse o assento do tribunal. Otanes assumiria a função, mas julgaria sobre os restos daquele que o precedera.
Há uma frase de sabedoria austera que diz: “Tudo o que não tenho devo a meus pais.” Longe de ser um lamento sobre a escassez, trata-se de uma afirmação de integridade. A ausência de certos bens, títulos ou facilidades deixa de ser evidência de fracasso para se tornar fruto direto do exemplo — a recusa em obter o que quer que seja às custas da retidão. Não ter é, muitas vezes, a prova de que a cobiça não venceu a consciência.
Imaginemos Otanes naquele assento. Se o pai falhou em transmitir o exemplo em vida, o terror do tirano o forçou a aprendê-lo sem atalhos. Sentado ali, o novo juiz compreendeu que qualquer ganho obtido por vias tortas custa caro demais. Tudo o que ele decidiu não ter, a partir daquele dia, tornou-se o seu patrimônio: as propinas, os favores, as facilidades da venalidade. A ausência do lucro desonesto passou a ser a sua maior virtude.
No entanto, é preciso recuar alguns passos da tela para enxergar o que ali realmente se encena.
A corrupção é uma via de dois sentidos, mas o espetáculo da punição costuma iluminar apenas uma das pontas. Ao focar no suplício do magistrado e na coerção imposta ao filho, Cambises transformava a sentença em um teatro para mascarar os próprios excessos — um roteiro que se mantém conveniente. Exibir com estardalhaço o couro de quem se vendeu continua sendo a forma mais eficaz de manter coberta a pele de quem acusa ou de quem, nas sombras do poder, ofereceu a primeira moeda.