
Um centímetro, equivalente à gota d’água, era o que eu precisava pra tentar me afastar do futebol. Jamais deixar o Grêmio, o time que foi cultivado com carinho paterno e depois por mim mesmo na minha alma. Uma vez, num encontro de final de ano da RBS, perguntei pro saudoso Paulo Sant’Ana (como tu nos faz falta, querido amigo!), com quem eu tinha um afeto recíproco que muito me honra: “Sant’Ana, tu ama mais o Grêmio ou o futebol?” O Sant’Ana me olhou, fez um silêncio reflexivo com a cinza do cigarro queimando, levantou-se da mesa em que estávamos e saiu contando aos gritos que eu tinha feito aquela pergunta classificada por ele como “genial”. Nem preciso dizer qual foi a resposta, que coincide com a minha. Evidentemente, futebol é só um jogo, não uma paixão.
E já começo este texto ressalvando que largar de mão o futebol não implica largar de mão o time, porque são coisas diferentes. Posso até parar de pagar o Première e desprezar tudo que venha da CBF, mas manter as minhas cadeiras na Arena é algo inegociável, até em respeito ao meu pai. Fui ao jogo mais recente, contra o Palmeiras, por exemplo. Mesmo nos momentos de maior dureza financeira da minha vida – e houve alguns – e cortes no orçamento doméstico, as cadeiras na Arena são intocáveis.
Quando criança, eu jogava botão SOZINHO, narrando bem alto e ainda fazendo o som ambiente da torcida, e o meu time era o Grêmio, sempre demolindo os adversários com goleadas e em geral tendo o Tarciso, o André e o Eder como goleadores. Escrevi oito livros* sobre o meu time e voltaria a escrevê-los, porque me dão um orgulho infinito. Eu torcia pra seleção brasileira quando criança com mais vigor se tivesse um jogador gremista (na real, eu torcida pra esse “meu” jogador).
Percebem? O jogo pouco me importa. Curto o time, seu imaginário, emblema e mística.
Metade dos meus livros trata de temas comportamentais, em especial no campo da diversidade, não de jogo.
Isso está literalmente tatuado na minha pele e simbolicamente na alma.
“Até a pé nós iremos, para o que der e vier” não é um trecho de hino, é todo um lema.
Mas o centímetro enxergado pelo apitador de vídeo evitando a lindíssima reação do nosso time, cheia de significados e extremamente importante no momento do jogo contra o Botafogo, foi a minha gota d’água. Tive que engolir o grito de g0l por um capricho. Até fui pesquisar, e uma revista especializada em curiosidades me ensina que a gota d’água pode ter um centímetro e se fragmentar. Achei que faz muito sentido essa informação diante do conteúdo deste texto.
E recorri também à Inteligência Artificial, prima não tão distante do “VAR semi-automático”, perguntando-lhe se o vento pode mover um centímetro a roupa que alguém está usando, tipo a camiseta do Carlos Vinícius, que evidentemente estava na mesmíssima linha que a do defensor botafoguense. Pense: se alguém está com uma variação de um centímetro pra mais ou pra menos, ela está contigo, dançando, abraçando, disputando uma bola.
O que me disse a prima do VAR? “Sim, o vento pode mover facilmente um centímetro de uma roupa. Na verdade, mesmo uma brisa muito leve que nós mal conseguimos sentir é suficiente para deslocar o tecido por essa distância. Isso acontece por causa de alguns fatores simples. Leveza do tecido: roupas comuns (como camisetas de algodão, camisas ou tecidos sintéticos) são leves e oferecem pouca resistência ao movimento. Área de superfície: a roupa funciona como uma pequena ‘vela’ de barco. Ela capta o ar em movimento, o que gera uma força chamada sustentação ou arrasto. Flexibilidade: como as fibras do tecido são maleáveis, qualquer mínima pressão altera sua forma e posição. Para você ter uma ideia, uma brisa de menos de 5 km/h já é capaz de agitar suavemente as folhas das árvores e balançar roupas em um varal por vários centímetros.”
O tipo anulou a linda e importantíssima reação gremista possivelmente por uma brisa.
O gol anulado, nos acréscimos, seria essencial nos sentidos emocional e técnico, numa reação que o time busca e que pode valer a permanência na Série A com tudo que isso implica, em diversos aspectos, incluindo o financeiro. O cara nos tirou isso! E vamos lá. Não estou falando de falta duvidosa, expulsão, pênalti que pode ser mal cobrado. Estou falando de um gol materializado. Parece que os caras estão conseguindo uma precisão cada vez maior na roubalheira normalizada.
Foi o segundo gol concreto e o segundo ponto afanado do Grêmio neste campeonato. Contra o Bragantino, o Braithwaite fez um gol, todos comemoramos e o apitador anulou. Vimos e revimos o replay sem entender o motivo da anulação. Até que veio uma nota oficial da CBF dizendo que, efetivamente, não houve motivo. Foi um erro absurdo que anulou o gol (Gol! Já consumado e materializado!). E uma nota completamente inútil, que só serve pra nos deixar com ainda mais raiva.
Cansei! O meu problema é que levo futebol a sério. Os resultados do meu time influenciam no meu humor, atingem a minha vida, mexem com o meu cotidiano. Não posso deixar que tamanha leviandade me afete tanto. Leviandade e seriedade não combinam, são termos opostos, inclusive. As entidades do futebol parecem não entender o efeito que esse troço tem no torcedor apaixonado, além de aparentemente não levar em conta a quantidade de dinheiro envolvida nisso.
Eu até estava estranhando que neste ano o Grêmio não tinha passado por nenhum pênalti do Yuri Alberto, aquele em que o cara dá um tapa na bola como se fosse jogador de vôlei e o apitador, endossado pelo VAR, acha que foi um “gesto natural”. Aquele lance levaria à cobrança de um pênalti, que, se convertido, pela tabela fria, teria nos dado o título nacional. E eu o uso apenas como exemplo. São inúmeros os erros de arbitragem escandalosos que nos prejudicaram sistematicamente.
A conta chegou, era fake news que neste ano estaríamos livres. Mas agora veio com um requinte. Os caras estão nos surrupiando gols já consumados. Aquilo que eu já via como um rematado e sistemático escândalo (e o fato de ser escandaloso e sistemático faz o cara desconfiar de que não haja só coincidência nisso) foi superado com a precisão de um VAR que tira a espontaneidade (os atacantes agora vão se encolher e jogar sem as mangas da camiseta pra evitar o impedimento).
E veja que nem citei o jogo contra o Vitória, em que o Caíque dá uma biaba nas costas do nosso jogador e não é expulso. Sim! Tchê, um soco!!!
Um queridíssimo amigo ponderou que a objetividade da trecnologia ajuda a tornar o futebol mais justo, como o vôlei, em que se verifica quando a bola foi dentro ou fora pelo vídeo. Eu respondi: “Ok, amigão. Mas precisa ter uma margem. Como a questão de a bola sair, no futebol, ou entrar na goleira. Precisa passar toda a linha, não? Um centímetro é uma sujeirinha. Concordo com a tua ponderação, mas a tecnologia precisa se adaptar a uma atividade praticada por humanos.”
Perdão pela grosseria, mas pensem num atacante que sente ereção pouco antes de invadir a área e fazer o gol. Por essa tecnologia doida que não leva em conta estar a serviço de uma atividade humana (e nada pode ser tão linda e apaixonadamente humano quanto o futebol), esse atacante que invadiu a área todo fogoso será punido com impedimento. Pelo menos, nós, judeus, temos a vantagem da ausência do prepúcio. Literalmente, estão castrando o futebol, estão tirando a nossa ereção.
Não tem como continuar levando a sério essa várzea, por mais rica que seja, ou até por isso.
…
Mas não é só isso que tem me incomodado no futebol. A própria rivalidade, na qual a desonestidade e até o sadismo são autorizados, chegou a níveis insuportáveis com as redes sociais e a polarização. Foi-se o tempo em que um gracejava com o outro fazendo piadas leves. Hoje a coisa é pesada, é destrutiva. Deixou de ser sadia. No belíssimo filme sobre os Gre-Nais (Veja! Está nos cinemas), sou um dos entrevistados e procuro, no meu depoimento, trazer alguma razão ao parquinho.
E tem mais: a desqualificação de vários “influencers” (por favor, não generalizamos; tem caras bons) que rende “likes”, “engajamento” e “lucros” vindos de uma audiência desqualificada e contamina os veículos tradicionais que deveriam ser o contraponto a isso. O calendário massacrante. A desigualdade financeira que exige financiamentos até de fontes a princípio indesejadas, dos mais variados tipos de hospedeiros, que em tese não combinam com os propósitos originários do futebol.
Lá sei eu, vejo até times subvertendo a cor histórica da própria camiseta.
…
O futebol tem envenenado as nossas vidas. Em vez de ser válvula de escape pra dureza da realidade, passou a ser o oposto, a lógica se inverteu a ponto de não ter mais lógica. O futebol é a dureza que tentamos esquecer pela “válvula de escape” da vida. Juro que me concentrei no trabalho tentando esquecer aquele mísero e miserável centímetro. Até por isso, este texto está sendo escrito só agora, dias depois. Quando o “olho clínico” do apitador viu um centímetro a mais na linha que unia dois jogadores (sim, estavam na mesmíssima linha, o que não resulta em impedimento), eu já tinha outro texto pronto pra ser publicado no meu espaço semanal da SLER, semana passada. E, sinceramente, me faltaram forças pra escrever sobre o assunto e fazer a troca. Por quê? Porque a gota d’água se fragmentou.
Ah, vou reproduzir aqui outro aspecto emburrecedor, que muito me incomoda. Depois do desligamento do Luís Castro, foram cotados o Renato e o Roger, ambos com enormes virtudes. Escrevi isto num grupo de gremistas: “Espero que a nossa torcida não prefira este ou aquele ao sabor da polarização política (no sentido partidário amplo). Nem os esquerdistas vetando o Renato, nem os direitistas vetando o Roger. Asseguro inclusive que, apesar dos apoios que andaram manifestando, ambos são moderados, apartidários e muito bons profissionais. Pra mim, precisa ser um deles, e meu apoio será o de torcedor que só quer o bem da instituição.”
(acabou sendo o Renato. Viva o Renato!)
Até isso! Já vi esquerdista dogmático (e naturalmente burro, por mais que se ache o sabidão da aldeia) depreciando o Renato por esse motivo. Chamam o Renato de “estátua”, pejorativamente. São os mesmos seres que se acham muito lúcidos ao ignorar um pogrom devastador, empunhar bandeira de grupo terrorista e apoiar os aiatolás, as figuras mais exasperantemente obscurantistas do planeta. E seria o mesmo com a direita ignorante em relação ao meu querido amigo Roger, que inclusive recentemente tornou público o que eu já sabia: é tricolor. Renato e Roger, que aliás são amigos, precisam estar acima dessa superfície de um centímetro.
…
Se vocês veem sentido nesse telecatch transferido dos ringues pros campos de futebol, divirtam-se. Nunca foi essa pantomima desonesta o que me atraiu.
Shabat shalom
*Os livros são “120 anos de Glória”, “Coligay”, “Somos azuis, pretos e brancos”, “A fonte”, “Viagem à alma tricolor em 7 epopeias”, “Reconquista”, “IGT, uma história de amor e inclusão” e o infantil “Meu pequeno imortal”.
Todos os textos de Léo Gerchmann estão AQUI.