
Nesta semana, de reta final do quinto mês do ano, foi assassinada a 39ª vítima de feminicídio no Rio Grande do Sul deste ano: Marines Rodrigues, 40 anos, moradora de Santo Ângelo. Dias atrás, uma vereadora de Porto Alegre teve o direito de falar no plenário cortado por uma ação violenta de um “colega”, um sujeito que já passou por diversos partidos e agora está no PP, o mesmo partido do ministro-chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro, Ciro Nogueira (PP), que está envolvido no esquema de corrupção do Banco Master.
No trânsito da Capital, é cada vez mais comum cenas de infração que deixam qualquer motorista impressionado com as ousadias, tipo dobrar de uma faixa à esquerda de uma avenida de duas pistas, quando só é permitido seguir em frente; atravessar o sinal vermelho ou mesmo estacionar em uma grande via de tráfego pesado. E, na esmagadora maioria das vezes, essas barbaridades são cometidas por homens.
Há um gradiente de violações de direitos, de regras de convivência em que o extermínio da vida de mulheres, em especial, é apenas a ponta de um iceberg de tantas situações em que somos submetidas.
Ainda tenho que escutar do meu filho de 19 anos dizer que as mulheres não sabem dirigir direito. E que ouvi isso da boca de outras jovens. Educar, hoje em dia, com tantas nuances e complexidades, não é tarefa fácil.
A impressão que dá é que estamos cercados de vulcões, em que cada erupção extrapola limites de algum tema, um contexto multifacetado no qual precisamos saber transitar. Cenário de policrises de texturas e dimensões diversas.
De um lado, uma montanha expulsa a lava da misoginia e patriarcado, que resulta na morte de mulheres, do outro, o magma de outra cratera está se solidificando para nos impedir de avançar, seguir adiante, que são votações comandadas pela bancada do agro, que compõe a pior Câmara dos Deputados da história.
Ficaram sabendo do pacote de medidas que literalmente acelera o fim do mundo? Não vi a imprensa gaúcha repercutir. Eis um breve resumo: a Câmara dos Deputados promoveu uma sequência de votações de interesse dos ruralistas que provocarão estragos no ambiente e no clima do Brasil. A “Semana do Agro” foi costurada pela Frente Parlamentar da Agricultura (FPA) e pelo presidente da casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). A meta era aprovar um “Pacote da Devastação”.
Os deputados, apoiados e incentivados por gaúchos, aprovaram uma alteração na Lei de Crimes Ambientais que proíbe a realização de embargos remotos em quem desmata, descaracteriza a vegetação nativa original, o que deve dificultar a vida da fiscalização. Hoje o Ibama e outros órgãos ambientais se valem dessa tecnologia de satélites principalmente para ganhar agilidade e alcance. Isso, em termos de Amazônia e Cerrado principalmente, é péssimo, pois estabelece que é preciso fazer uma notificação prévia do infrator antes de ocorrer o embargo. Os parlamentares também reduziram em quase 40% a Floresta Nacional do Jamanxim, em Novo Progresso (PA).
E fizeram tudo isso rapidinho. Numa votação acelerada e sem rito regimental padrão, os deputados aprovaram vários projetos de lei que fragilizam (ainda mais) o controle, a fiscalização e a legislação ambiental.
Outra medida foi a aprovação do PL 5.900/2025, que dá mais poderes ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). A pasta deverá se manifestar sobre todos os atos normativos que impactem espécies de interesse produtivo, sobrepondo-se a decisões que hoje são de competência do Ministério do Meio Ambiente.
E o nosso deputado Alceu Moreira (MDB-RS), que foi prefeito de Osório, apresentou os PL nº 364/2019 e PL nº 3123/2025, que alteram a Lei de Proteção da Vegetação Nativa e mecanismos de crédito rural, respectivamente. O primeiro coloca em risco mais de 50 milhões de hectares de vegetação nativa, inclusive nossos campos do Pampa e da região dos Campos de Cima da Serra, enquanto o outro pode fazer com que áreas com desmatamento ilegal ou Terras Públicas griladas recebam dinheiro do governo.
Ou seja, eles não têm o menor pudor em ceifar o futuro próximo ou dos próprios filhos e netos em pleno agravamento das mudanças climáticas! Na era de aumento da frequência de desastres e que já sofremos com escassez hídrica!
E nesse cenário cercado de morros e montanhas jorrando lavas, estamos nós abaixo de mau tempo, com um El Niño que os cientistas do clima estão alertando que não será pouca coisa.
Tudo isso serve para dar uma breve contextualizada no quanto os diversos níveis de violências praticadas por homens, a maior parte brancos, têm atingido a todos, mas quem mais sofre são as mulheres, idosos, crianças e as populações mais vulneráveis.
Diante desse set, que às vezes se assemelha a uma ambientação de uma tragédia anunciada, me pergunto: o que está em nosso alcance para driblar essas lavas incandescentes que logo vão endurecer, conquistando novos territórios?
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