
O Fito Páez viveu situação com o público portenho que me lembrou, de leve, episódio vivido pelo Morrissey (líder da Smiths) comigo em 4 de abril de 2000. Eu não o xinguei como o Fito foi xingado pelo público em Villa Crespo, mas, ao escrever sobre o show na Folha de S. Paulo, deixei claro meu desconforto pelo fato de ele ter tocado só quatro canções conhecidas do Smiths entre as 20 da playlist (20% do total). Só que aqui vai uma diferença essencial entre os dois casos. O Fito é rosarino, mas radicado em Buenos Aires, e volta e meia toca por lá. O Morrissey deveria ter se tocado e tocado os hits da banda, porque a sua presença, convenhamos, não é das mais frequentes por aqui.
Na época, eu usufruía de uma malandragem. Por algum motivo, os artistas estrangeiros que vinham ao Brasil se apresentavam em Porto Alegre (bons tempos…) e, logo depois, em São Paulo. O que eu fazia? Ia ao show como jornalista credenciado da Folha, trabalhava e, claro, desfrutava. Fazia 100% aquilo de unir o útil ao agradável e tudo de forma completamente lícita. Tinha ali só uma pequena traquinagem, que funcionava perfeitamente e era boa pra todo mundo, porque eu fazia a matéria contando sobre o show que haveria em São Paulo no dia da publicação, e todos ficavam felizes.
Mas primeiro vou contar sobre o Fito, depois vou reproduzir o texto que escrevi e, pra concluir, vou dar o meu pitaco sobre a situação de Buenos Aires, que, como eu disse antes, se assemelha à minha, mas também tem significativas diferenças. O fato é que não gostei do que ocorreu com o ídolo Fito e tenho as minhas críticas ao excesso de interação neste mundo em que a cultura digital e virtual, assim como a raivosidade da polarização (muito retroalimentada pela cultura digital e virtual), leva as pessoas a dizerem ou fazerem qualquer coisa sem a chance de reconsiderar.
Pois bem, Fito abriu seu show da turnê “Sale el Sol” com as músicas novas do disco “Novela”. Iria tocar seus clássicos depois (e realmente tocou), mas, na primeira metade da apresentação, ele quis mostrar as novidades. A decisão surpreendeu parte do público, que esperava ouvir desde o início os clássicos mais populares do grande Fito. E aqui aparece outro problema da nossa vida atual: a ansiedade. Nem adiantou que o próprio músico tinha avisado nas redes que assim seria.
Fito foi severamente vaiado pelos intolerantes e implacáveis na Arena de Villa Crespo. No momento da surpreendente iconoclastia, ele se irritou. Quando começou a tocar os “hits”, recomendou ironicamente a quem estava vaiando que agora cantasse com ele. Mas, horas depois, utilizou as redes pra dizer que nunca vai esquecer essa noite, porque houve “pelea callejera” e se sentiu vivo. O grande artista, com seu talento e sua sensibilidade, soube ressignificar a grosseria de que foi vítima.
Aqui vai, já que não foi longo, o texto que escrevi sobre o Morrissey (até que eu fui bem brando e delicado diante da frustração de quem, como vários ao meu redor, quedou-se frustrado por ter a intenção de ouvir antigos clássicos da banda):
“Morrissey cantou quatro músicas do The Smiths no show que fez sexta-feira passada no Bar Opinião, em Porto Alegre. Entre elas, “Half a Person” e “Meat is Murder”. Foram 20 músicas no total, para um público de 1.515 pessoas, em uma hora e vinte minutos de show. Morrissey recebeu flores da plateia com cartinhas que guardava no bolso de trás do jeans. Como resposta, jogou para os fãs as duas camisas e quatro camisetas que usou, depois de passá-las pelo corpo suado e beijá-las. O cantor também interagiu individualmente com os fãs, pedindo aos restantes que silenciassem. Mas, no final do show, a impressão que ficou foi de que Morrissey apenas cumpriu sua obrigação. Houve apenas um bis, apesar dos insistentes pedidos para mais um. O público tinha, em média, 25 anos. Mas alguns adolescentes foram atraídos pelas músicas que continuam tocando nas rádios especializadas em rock.”
Ficou claro meu azedume, né?
O que o excesso de interação escancara
Estou há tempo pra escrever sobre algo que tem a ver com a história do Fito. O excesso de interação e a exposição permanente estão tornando mais verdadeira do que nunca a constatação de outro grande artista: “De perto, ninguém é normal”, escreveu Caetano Veloso, criando uma máxima de muita sabedoria.
E assim estamos. As pessoas estão muito próximas, e isso nem sempre é bom. Tem caras que sempre achei boa gente, queridões, bons papos, que, estando num diálogo direto ou diante de um grupo no WhatsApp (principalmente nesse caso), tornam-se uma mala que nem com as rodinhas dá pra remover.
Exemplos:
1) O que sempre tem opinião formada sobre tudo. E pior: tenta te mostrar que uma mera opinião está certa (a dele) ou errada (a tua), como se fosse um fato objetivo, com argumentos inesgotáveis, provas duvidosas e armadilhas retóricas que te desqualificam. Lembro de uma conhecida que quase rompeu comigo porque eu achava um modelo novo da camiseta do nosso time (é o mesmo) bonito. Eu tive que chamá-la à razão e explicar que preferência estética não se discute. “Gosto não se discute” é um dos clichês mais antigos e surrados, mas parece que algumas pessoas o ignoram.
2) O que sempre se sente na obrigação de comentar tudo, porque tudo lhe diz respeito. Conheço uma figura que se considera a de maior memória do mundo (e não é, é uma pessoa que vive de idealizações pretéritas). Chega a um ponto em que, se ela não se lembra do fato, ele não existiu, mesmo que as provas sejam acachapantes. Um dia ainda vou alcançar a triste história do “Funes, el Memorioso”, do Borges, pra ele ver que nem sempre a memória total e não filtrada é algo positivo. Só assim, talvez, o sujeito deixe de ver no seu HP orgânico motivo de tanta vaidade.
3) O que transforma até um respiro ocasional em debate maçante, desgastante e inesgotável. E só vai cessar o debate quando o interlocutor respirar no seu compasso. Conheço um tipo que termina o diálogo feliz da vida porque foi construtivo -na verdade, tu fez um joinha pra te livrar. E o irônico é que o teu “joinha” tem um custo. O sujeito volta a te chamar pra conversas tão “prazerosas”. As redes sociais amplificaram essa característica (e turbinaram a polarização). Antes, dava-se a opinião, alguém ponderava e se reconsiderava. Agora, escreve-se na rede e vira dogma.
(juro: sou um cara que dificilmente, na vida inteira, definiu alguém como “mala” ou “chato” ou “pesado”, como dizem os argentinos – e eu adoro. Sempre achei meio chato -pedante – chamar alguém de “chato”. Costumo ver o melhor nas pessoas e entender as suas idiossincrasias, e a muitas que aparentemente se enquadrariam no dito aqui eu relevo porque procuro entender o seu jeito e vejo as suas qualidades. Logo, peço que ninguém se identifique, ninguém vista a carapuça, porque corre o risco de errar feio. Em casa, essa minha tradicional benevolência de “bonzinho” é até folclórica. Mas algo mudou em mim: esses grupos de WhatsApp deixam tudo muito nítido, muito exposto, muito perto, até as entranhas da mente aparecem. Cheguei à conclusão de que “mala” e “ególatra” são praticamente sinônimos. O ególatra é um chato irremediável)
4) O que escreve um textão e, se tu não lê, fica magoado, e, se tu lê e discorda, fica ainda mais magoado e… claro, polemiza e transforma o troço num debate infinito.
5) O cara a quem tu recorre pra resolver um problema ou solucionar uma dúvida, e ele “problematiza”. Tu atira uma bola e o sujeito te devolve uma pedra.
6) O pusilânime que, num grupo de WhatsApp, deixa claro seu oportunismo, rasgando o saco, de tanto puxá-lo, daqueles que por algum interesse, nem sempre claro ou palpável (muitas vezes é a simples aceitação ou os tapinhas nas costas), lhe convém. Percebam que o nível da chatice está subindo dramaticamente. É exasperante quando tu sofre uma agressão ou uma grosseria, tem um suposto amigo ali junto e esse suposto amigo silencia ou tergiversa pra “não se envolver” no assunto.
7) Claro que, nesse caso em especial, serei preciso: tem o lance do antissemitismo normalizado, e aí é complicado -e machuca no íntimo. O (suposto) amigo confunde racismo com “questão ideológica” (nesse caso, devo confessar que vejo algo mais grave do que uma simples maletice; vejo uma conivência com o crime velado).
8) O “schnorer” (palavra em iídiche de difícil tradução, que talvez possa ser o equivalente a “aproveitador”, algo assim), que se aproveita do espaço pra tirar alguma vantagem financeira e insiste na tentativa, te transformando num muquirana, porque chega um ponto em que tu diz NÃO em grosseira caixa alta.
9) O que te manda à meia-noite o link de conteúdo agressivo e revoltante, que vai te incomodar, revirar o estômago e… pqp… tirar o sono. E tem, na mesma linha, aquele que, revoltado com o que viu ou leu, te manda o link de vídeo ou texto que tu não tinha a menor vontade de ver ou ler, justamente porque te revoltaria e esse é um sentimento que tu não tá afim de ter. Já aconteceu de eu pedir: “Por favor, avisa qual o conteúdo que tu tá mandando pra eu decidir se abro.”
10) O cara que, num grupo plural, impõe suas “certezas” ignorando os outros com visões divergentes invisibilizadas, e isso vai além da politica. É como se o sujeito estivesse sozinho -aliás, egoísmo e grosseria que se veem muito no cotidiano, virtual ou real (os exemplos infelizmente são infinitos, dos que ficam falando alto num ambiente em que não interessa aos outros os seus assuntos ao bagaceiro que põe o volume da sua música na altura máxima, passando pelo cara que grava áudios ou os ouve numa sala de espera enquanto os outros derretem pela raiva que consome e pela impotência que a civilidade exige).
O próximo item seria pros manjados marqueteiros invasivos ou, céus, pros cruéis golpistas. Mas aí é outra conversa -e muito mais complicada, sem a possibilidade de recorrer a um texto que tenta ser divertido. São literalmente “fora de série”, no pior sentido dessa expressão, uma conotação, evidentemente, negativa. É outro nível, são outras considerações. Das malas, mesmo que muito pesadas, tu pode continuar amigo, segurando a alça ou puxando pelas rodinhas, às vezes até dando risadas condescendentes. De bandido, não. O decálogo acima é exclusivo sobre malas.
Ah, também poderia haver um decálogo só sobre torcedores de futebol nas redes sociais, e não falo só sobre a rivalidade clubística que poucas vezes é divertida e em geral é muito tóxica, com teses agressivas e ofensas mútuas. Às vezes, diante do azedume negativo de um corneteiro (frequentemente reproduzindo a própria baixa autoestima) no grupo do time, sinto saudade de encontrar, em eventuais churras de domingo, aquele tio folclórico por odiar um jogador ou técnico e fazer disso uma lacração sem volta. Por que a saudade? Porque era só em domingos eventuais.
…
Às vezes, limitemo-nos a ser espectadores, interagindo só se for com algo agradável. Deixem o Fito apresentar suas novas e lindas canções.
Mesmo que seja só aos domingos.
(no caso do Morrissey, bah, ali eu tinha razão e era pago pra opinar)
Shabat shalom!
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