
É o nono dia. Eu e D. acordamos com novo horário de verão, as 10h30. Nosso café da manhã agora tem, enfim, frutas. Ligo a TV. As notícias dão conta do fim do congresso do Partido Socialista (PS), um partido que está no sistema há 50 anos junto com o Partido Republicano Português (PR). Levo o lixo, e a lixeira, diferente dos dias anteriores, não está lotada, mas mais vazia porque já tiraram boa parte do lixo. Não sei se é porque passou o carro da companhia de limpeza urbana ou por causa dos idosos catadores. Volto para casa. Olho pela janela de minha mansarda e vejo, mesmo nesta rua calma e distante do centro, turistas fotografando tudo ao seu redor. Eles mal chegaram em seus apartamentos de plataforma e sua primeira preocupação é fotografar todo o lugar. Não posso reparar: fiz isso no primeiro dia. Inclusive as escadas. Depois, me senti ridículo. Por que fotografar logo de cara quando chego o meu próprio prédio quando estarei aqui mesmo por vários dias? Olho de novo as rachaduras no teto de meu apartamento e me dou conta que ainda estou preocupado com a ideia dos terremotos.
Vou para a IA perguntar o que faço se houver um terremoto em Lisboa. Ela me manda ir para debaixo da mesa, mas como é de vidro, não acho que tenha a resistência suficiente. Penso em perguntar se, em caso de tudo desmoronar, se eu tenho mais chances de sobreviver porque já estou no último andar, mas desisto ao pensar na canção “O que será, será”. Estou em Lisboa, mas o que vem à mente é a música americana “Whatever Will Be, Will Be”, eternizada pela cantora e atriz americana Doris Day em 1956, mantra sobre aceitar o destino. Se ocorrer um terremoto justo no período de minha viagem, “o que será, será”. Eu gosto desta canção. Ela foi lançada originalmente no filme “O Homem Que Sabia Demais”, de Alfred Hitchcock e venceu o Oscar de Melhor Canção Original. A música narra as fases da vida de uma personagem que se pergunta sobre o futuro, exatamente como faço em minha mansarda em Lisboa. Mas, como no filme, se você sabe demais, como o casal Ben e Jo McKenna, você pode sofrer consequências ainda piores. Mas a melodia na minha mente não é a original, é claro, é a da abertura da série Origem (From, 2021) mais sombria e misteriosa. Ela foi gravada pela famosa banda de rock alternativo Pixies, olho o rio ao longe dessa forma lenta e melancólica presente nesta versão enquanto imagino um tsunami, um tremor. Eu sei que isso um dia vai acontecer em Lisboa “o que tiver de ser, será”. Só espero que não seja hoje.
De volta ao Chiado
Eu e D. pegamos um taxi. Hoje queremos explorar mais o Chiado. O motorista, Muhamed, tenta conversar. Pelo menos se esforça, ainda que saiba poucas palavras. Ele parece querer quebrar a imagem que os mulçumanos têm junto aos turistas. Chegamos. Faço foto em frente ao cinema São Jorge, caçoando porque ele leva meu próprio nome. Esse cinema viveu seu auge entre os anos 50 e 70, mas precisou ser dividido em 3 nos anos 80. Eu lembro dos cinemas de Porto Alegre que passaram por isso, como o Coral e o Baltimore, também divididos e lamento que, graças ao streaming, nem o hábito de ir aos cinemas mais temos. Os portugueses têm mais sorte, pelo menos seu cinema sobreviveu. O nosso não. Chego a Avenida Liberdade, repleta de lojas de grife, como a Zegna, principal marca da cidade. Fico a imaginar essa alfaiataria sob medida, como se estivesse no prédio DabDab em Porto Alegre, maior porque então com cinco andares, enquanto a Zegna tem dois. Entretanto, a Zegma italiana é mais antiga, fundada em 1910, enquanto que a nossa Dabdab é de 1925, mas mesmo assim, esta que estou diante, é de 2014, então estamos quase 90 anos adiante. Mas essa profissão, alfaiate, também sucumbiu a era dos grandes magazines e suas roupas da China, que vemos aqui como na nossas Lojas Renner.
Estou na Avenida Liberdade, o primeiro grande boulevard de Lisboa. Sua origem está no antigo passeio público que existia ali, termo pelo qual é denominado o parque arborizado que foi construído após o terremoto de 1755, mas que era de acesso exclusivo de pessoas da alta nobreza. Sei disso não apenas pela pesquisa, mas porque, ao redor do monumento ao Marquês de Pombal, há um enorme painel explicativo da história do local. Precisamos desses painéis em Porto Alegre em nossos principais locais históricos. O passeio público foi demolido em 1879 e ali foi construído uma enorme avenida onde ao redor se ergueram palácios imponentes. Como foi iniciativa da Câmara Municipal, já imagino com temor, na futura reforma do Plano Diretor de Porto Alegre recém aprovado, se os neoliberais continuarem no poder, que nosso único passeio público, o Parque Farroupilha, um dia dará lugar também a prédios e arranha-céus. Não é esse o sonho secreto dos empresários do setor em nossa capital? Não tenho dúvidas, os portugueses só se adiantaram. Bato na madeira três vezes.
Avenida Liberdade ou Rua da Praia?
Caminhando nesta ampla avenida vejo pessoas por todo o lado. Elas estão comprando nas lojas de grife, nos quiosques espalhados pela rua que lembram os do nosso Bric da Redenção, com seu artesanato e diversos produtos para turistas. Esta avenida está muito além da nossa Rua da Praia, pela qual tenho especial carinho, pela preservação dos prédios antigos que fez e que, infelizmente na nossa, já cederam seu espaço a prédios modernos e arranha-céus, como o prédio antigo que existia na esquina da Rua da Ladeira com a Rua da Praia e que já desapareceu. Aqui, alguns turistas param nos bancos da avenida simplesmente para olhar a vista, e como eu, estão deslumbrados com o lugar, com a arquitetura preservada. Que boa ideia seria se nossa Rua da Praia tivesse bancos assim, não? Melhor ainda se tivessem os prédios antigos. Não temos nem um nem outro. Não tem bancos, porque se as pessoas pararem, não farão compras. Não tem prédios antigos, porque seu espaço precisa abrigar grandes empresas. Até reformaram a rua da Praia, mas não botaram bancos. Ganha um doce quem adivinhar a ideologia de quem reformou as ruas do centro de Porto Alegre.
Paro para olhar um cartaz afixado na parede sobre a comédia de Paolo Genovese, Louca-mente, que estreou num cinema lisboeta no último dia 5 de fevereiro. O subtítulo é “A nossa mente é um lugar cheio de gente”. Não só a mente, meu caro, a avenida aqui também. Essas pessoas passam pela Avenida Liberdade, passam por esses prédios antigos, essas portas, mas não se detém nelas. Eu sim. A do número 282, por exemplo, é uma porta enorme dupla, em madeira entalhada, com desenhos ornamentais clássicos, os medalhões com rostos de leão, guirlandas de motivos geométricos, painéis com grades de ferro ornamentais e uma moldura arredondada em pedra ao redor. Gostaria de andar pela rua dos Andradas e ver portas assim, mas elas não estão mais lá. Quando turisteio primeiro não bato fotos sucessivas, olho os detalhes ao meu redor e o que evocam de minhas lembranças. Sim, eu sou um turista das antigas. Isso significa que eu não bato foto desta porta, primeiro eu a olho. Meu olhar examina essa composição simétrica e constato que sua linguagem decorativa é típica do ecletismo urbano do fim do século 19 e início do século XX.
Símbolos de poder
Volto a lembrar de Porto Alegre. Esta porta diante de mim me lembra as da Casa Godoy, em Porto Alegre, na Avenida Independência e que serviu de sede do Centro de Pesquisa Histórica da Secretaria da Cultura de Porto Alegre, onde trabalhei no projeto Memória dos Bairros. Hoje a porta está lá, o projeto, não. Estamos rodeados de coisas que desaparecem com o tempo, só não nos damos conta. Estou diante dessa entrada cujos medalhões foram feitos com rostos de leão e arco de pedra com o objetivo de transmitir prestígio e solidez. Aqui nada é funcional, aqui nunca você está diante de uma porta comum, está sempre diante de símbolos de poder. Me lembro do livro La arquitectura del poder: Cómo los ricos y poderosos dan forma al mundo, de autoria de Deyan Sudjic (Editora Ariel, 2007), que mostra como líderes políticos, ditadores e mega capitalistas utilizam as construções monumentais para massagear seus egos e projetar autoridade. Esses grandes burgueses fizeram isso em Lisboa, mas os grandes capitalistas também o fizeram em Porto Alegre: há um novo prédio na Carlos Gomes? Veja se não está escrito Melnick sobre ele, com luzes visíveis a distância. Para ambos, a arquitetura não serve apenas para abrigar pessoas, é uma arma de propaganda política, intimidação de massas e sedução ideológica. Eu só lamento que em Porto Alegre, essa prática tenha sido usado pelo poder corporativo moderno representado por bancos e grandes empresas para destruírem os antigos prédios ecléticos que existiam em nosso centro histórico que admiro para colocar ali novos arranha-céus. Aqui existem como um elemento turístico, em Porto Alegre desapareceram.
Fico triste. Quantos patrimônios históricos Porto Alegre viu desparecer em seu processo de verticalização? Eu não teria dúvidas de dizer que, se nossa cidade antiga tivesse sobrevivido a fúria do capital, não precisaríamos ir a Europa para apreciar a cultura e arte urbana do passado. Nós a teríamos também. Meu sentimento de perda é porque já tivemos arquitetura como a de Lisboa, não há como não deixar de admirar esses elementos neorrenascentistas, que fazem parte da composição da porta que está diante de mim. Eu vejo esses materiais dialogarem entre si: madeira escura com pedra clara, ferro com vitrais. Mas eles também tiveram as suas perdas: estou diante de um prédio urbano de prestígio onde viviam famílias, mas que hoje se transformou em mais uma loja de marca. Quem teria vivido ali? Por que esses moradores queriam uma face de leão no centro dessas portas? Porque não basta ser rico, porque é preciso associar o lar a força, a proteção, a autoridade? O que é mais importante nessas portas: a funcionalidade ou a ornamentação? As perguntas que faço, faço em Lisboa porque ela não é uma cidade qualquer. Nela, tudo foi feito para impressionar. A escala das construções, os entalhes e detalhes de cada obra, o refinamento dessas casas de famílias abastadas que são quase palacetes individuais mesmo que, ao final, tudo entre em contraste com as moradias que eu via no trajeto, as mais distantes, as do modelo de habitação popular que lembram a da arquitetura popular de Porto Alegre, como do Parque dos Maias, racional, funcional, o império do igual de que fala Han. Só o ornamento salva a arquitetura.
A Humana é …. desumana?
Encaro os detalhes de leões incrustrados na porta. Eles me lembram os mesmos leões que estão na frente o prédio da Prefeitura Velha, um de cada lado: imagine que em Porto Alegre, eles ornamentam a sede do poder político; aqui, eles ornamentam as casas das pessoas ricas. Ambos marcam a transição do público, a rua, para o privado, a casa, mesmo que, em Porto Alegre, seja ali a Prefeitura Velha. Isso, no final, tem algum sentido. É que a maioria dos porto-alegrenses não sabe, mas a Câmara Municipal também já esteve no prédio da Prefeitura Velha no passado: faz sentido que ela também tivesse seus leões na entrada, pois ela é chamada de “a casa do povo”. De novo, o privado se mistura com o público, a rua com a casa. DaMatta estava certo. Caminho mais um pouco, deixo a porta de lado, estou chegando na praça Marquês de Pombal. Perco a foto, mas não a piada: – Vejo pombas sobre a cabeça do Marques do … Pombal! Dou risadas. Claro que nada tem a ver, já que o Marquês do Pombal era chamado de “Pombal” por causa da localidade na província da Beira, onde passou sua vida e onde sua família tinha terras. Talvez aquelas pombas estejam apenas ali para lembrá-lo de suas origens, o que faço a cada instante enquanto passeio pelas ruas de Lisboa.
No retorno, eu e D. passamos na loja Humana, grife de roupas usadas. Vejo jovens europeus com pegada ecológica que querem salvar o planeta comprando-as. “Salvar o planeta ou se salvar?”, penso. Eu não, tenho sempre culpa ao entrar nestas lojas. Penso na indignidade que é alguém ter de vender as próprias roupas do corpo para poder comer. Lembro que na minha infância, minha mãe comprava roupas nessas lojas de roupas usadas. Nós comprávamos porque éramos pobres, mas chegaríamos a vender as nossas roupas ali? Isso nunca aconteceu, mas eu tinha medo. Aquelas lojas não tinham glamour algum, ao contrário desta Humana, era vergonho para eu assumir que não tinha dinheiro para comprar roupas novas e que precisava, por isso, comprar usadas. Isso era… desumano. Humano, desumano, entendeu? Como diz Zizek, as vezes as coisas contém sua própria negação. Havia lojas de roupas usadas na Avenida da Azenha, onde íamos a pé, pois nesse tempo eu era criança e morava na Avenida João Pessoa. Outras lojas de roupas usadas existem ainda hoje na rua Lima e Silva, e quando passo por elas de carro ainda consigo desviar o olhar e, ao vê-las pela janela, lembrar o menino que ia com a mãe ver essas lojas antigas, tão antigas quanto as de relojoeiros do Viaduto Otávio Rocha, mas estes, não também não existem mais. Será que um dia essas lojas de roupas usadas desaparecerão em Porto Alegre para abrirem espaço para lojas chiques como a Humana? A rede afirma que revertem parte dos lucros para projetos de desenvolvimento e ajuda humanitária na África. Sempre a África. Sempre a minha culpa. Dizem as redes sociais que vale muito ir à Humana nas semanas de saldos, já que as peças podem chegar a custar entre 1€ e 3€. Uma barbada para quem compra. Mas quanto pagaram para quem as vendeu? Eis eu de novo revirando o conceito de alienação de Marx.
Um lugar, outro cheiro
Eu não sei se você já reparou, mas essas lojas de roupas usadas sempre tem um cheiro característico. Nas de minha infância, um cheiro forte de roupa usada mesmo, nestas de consumo de elite, é mais fraco, mas ainda está presente. Os cheiros também devem ter suas famílias e por alguma razão esse odor também lembra o da casa de idosos onde deixei minha mãe. Quando voltei a uma, recentemente dando carona ao vizinho que precisava ver sua mãe numa casa de idosos em Cidreira, observei que o cheiro é semelhante. Tudo o que vai se aproximando do fim vai assumindo um odor característico. Esses jovens não se importam com isso, eles têm dinheiro para comprar roupas melhores, mas o menino pobre que um dia eu fui jamais imaginaria que um dia a roupa usada que usava seria um signo de distinção social. Mas isso só acontece por uma grande sacada de marketing, porque a loja que vende é bem localizada, tem design e música de fundo. Lembro das lojas de roupas usadas na Rua Lima e Silva: elas são discretas, quase pedindo desculpas pelo trabalho sujo que fazem; essas não, são orgulhosas do seu trabalho. Esse orgulho de fazer o trabalho sujo é o mesmo da propaganda dos candidatos de direita: mas que trabalho sujo é exatamente este?
Os dos políticos de direita, como os do PL, o de dizer que fazem o bem ao cidadão quando, lá nas galerias do plenário, votam pela extensão da sua jornada de trabalho e pelo fim de seus direitos; o das Lojas Humana, é a proposta de compra de produtos ecológicos, sustentáveis ou vintage como boa ação social quando não é. Ela não passa do exemplo máximo do “capitalismo cultural” moderno: o problema é que essa prática não destrói a lógica do consumo, ao contrário, a fortalece, porque transforma a minha culpa em uma mercadoria. Esse mecanismo enganador só funciona porque quem compra uma roupa usada ali adquire também a promessa de redenção inclusa no seu preço. Grande avanço que fez o capitalismo contemporâneo! Num único gesto, ele unifica o ato de consumir com o ato de fazer o bem. Quem compra uma roupa vintage ou ecológica na Humana o faz não para adquirir apenas uma peça de vestuário, mas para se redimir, para adquirir sua redenção como consumidor. Lembro da linha ecológica da Renner, a do “Selo Re – Moda Responsável”, que sinaliza as roupas e acessórios produzidos com menor impacto ao meio ambiente. Não é marca separada, está nas da loja, como como Blue Steel, Cortelle e Marfinno. Ela diz que usa matéria-prima brasileira cultivada sem agrotóxicos por pequenos produtores e agricultoras apoiadas pelo Instituto Lojas Renner, peças de jeans feitas com processos que reduzem drasticamente o consumo de água na lavagem e utilizam resíduos têxteis reaproveitados, fibra artificial obtida de celulose vinda de florestas com manejo controlado e reflorestadas, poliamida biodegradável e reciclada nas linhas íntimas que se decompõe mais rapidamente. Entendo, entretanto, antes de lhe dar o digno valor da iniciativa, que é preciso, primeiro, localizar no próprio capitalismo a fonte do mal que tais iniciativas visam sanar; e no caso da loja Humana, reconhecer que a promessa da venda dessa roupa vintage é uma outra ilusão baseada justamente na ideia de “consciência social”: ela quer que o sujeito que compra se sinta bem consigo mesmo, “oh, estou salvando o planeta”, essas coisas.
Em todas elas, na minha opinião, entendo, secretamente, está o pulo do gato do capitalismo: manter o sujeito participando do sistema capitalista, que é continuar comprando, mas agora, sem sentir culpa. Zizek afirma que esses mecanismos operam com sucesso porque o sistema capitalista trabalha nossa culpa individual para gerar mais capital. Pior, ele sabe manipular o discurso ecológico atual como se fosse uma estrutura de superego “que joga a responsabilidade do colapso planetário nas costas do indivíduo”. Sinto-me culpado individualmente pela destruição que o capitalismo faz da natureza, tenho de me redimir. A culpa é do sistema, mas a redenção é individual. Por favor! Talvez seja a mesma situação desses idosos moradores de São Vicente, que vejo ir ao lixo reciclar e pegar algo que ainda possam vender para sobreviver. Talvez eles também entendam que assim colaboram com a preservação do planeta, mas o que Zizek quer dizer é que mais importante é o fato que tudo isso ainda mantém a desigualdade, porque tudo isso ainda é exploração do capital, não vemos como isso transfere a culpa do capitalismo para o indivíduo, e mais, não vemos como isso se torna nosso novo ritual obsessivo. Ir a loja ou recolher lixo reciclável para vender pode aplacar a ansiedade individual, mas a produção industrial global continua, a desigualdade também e o dono do capital agradece.
De volta ao fetichismo da mercadoria
Estou na Humana e enquanto reflito, eu olho essas mulheres e homens procurando o que vestir. Eu mesmo só me dou conta depois que estou numa loja de produtos usados porque olho primeiro os sapatos. D. olha as roupas, mas não se entusiasma; eu vejo que elas estão realmente em boas condições e quase me fazem pensar que estou numa loja de roupa novas. Mas o cheiro estranho continua ali querendo me avisar de algo. É que aqui é bem diferente das lojas de roupas usadas de minha infância, as roupas da rede Humana são muito bem lavadas e passadas. Parecem novas, mas como dizia Chapolin Colorado (Roberto Bolanos) “não contavam com minha astúcia”: eu olho os sapatos, mas como não tem como lavar ou passá-los, estão no seu estado real, amassados, com solado gasto e com cordões corroídos. Usados. Eu vejo pelos sapatos que toda a loja é um simulacro, roupas usadas que querem parecer novas e não são. É puro Baudrillard. Estou diante do paradoxo do “Vintage Fast Fashion”, esse mercado que se apropria da ideia de que usar roupa vintage é algo bom porque mostra que as roupas podem ser reaproveitadas e com isso salvar o planeta. Tenho minhas dúvidas.
O que me impele a comprar roupas assim? O mecanismo do “mais-gozar” de que fala Zizek, o de que o desejo nunca deve ser totalmente saciado, ao contrário, deve ser sempre atualizado, agora pelo novo mercado vintage, essa gourmetização do antigo mercado de roupas usadas de minha infância agora transformado em tendência hype estética. “Roupa usada”: eu preciso ter uma, preciso consumir uma! Damos assim um passo adiante, e ao mesmo tempo, para trás, no mesmo desejo de adquirir uma roupa de marca, mas agora, com uma etiqueta…ética! Zizek tem razão: estou diante mais uma vez diante do fetichismo da mercadoria de que fala Marx, só que agora, a mercadoria ecológica supera a definição original, pois a roupa deixa de apenas servir ao seu objetivo, vestir, para assumir uma dimensão imaterial: a jaqueta velha que compro é “restaurada”, é “uma experiência de consumo que cuida do planeta”. Não é que comprar essas roupas seja totalmente ruim, mas o que ela não revela é que faz parte da mesma ilusão ideológica, a de que escolhas individuais resolvem a crise estrutural do planeta, paliativo que só adia a necessidade de uma mudança radical, de uma revolução. Bom, o leitor já sabe que sou de esquerda, não?
Viagem como mobilidade
Todas estas reflexões são porque estou passeando por lojas de Lisboa. Marc Augé trata da viagem como uma forma de mobilidade. Ele conclui assim seu Por uma antropologia da mobilidade: “A mobilidade no espaço permanece um ideal inacessível a muitos, enquanto é a primeira condição para uma educação real e uma apreensão concreta da vida social. Em toda verdadeira democracia, a mobilidade do espírito deveria ser o ideal absoluto, a primeira obrigação. Quando a lógica econômica fala de mobilidade é para definir um ideal técnico de produtividade. É o ponto de vista inverso que deveria inspirar a prática democrática. Assegurar a mobilidade dos corpos e dos espíritos o mais cedo e pelo maior tempo possível levaria a um excedente de prosperidade material” (p. 108). Saio da loja e volto a turistar. Não saio correndo de monumento em monumento porque quero olhar devagar a paisagem, quero aprender dela como é viver numa cidade-mundo; mas o que me chama a atenção é o fato de que, para onde olho, é sempre a lógica econômica que vejo se expressar, exatamente como vejo nas Lojas Humana. Esses turistas consumidores de roupas vintage não conseguem escapar da lógica capitalista são os mesmos turistas obcecados por fazer fotos por todo o lugar. Eu, ao contrário gostaria de conhecer um país, aprender com ele, para analisar melhor a democracia em meu país, mas o que vejo é que todas as democracias têm problemas com suas práticas devido ao capitalismo: idealizar Lisboa como paraíso turístico é apenas outra forma dessa contradição. Passeio por Lisboa para descobrir que ela está desenhada como qualquer outra cidade, mais para benefício do capital e menos para benefício das pessoas.
Em Lisboa, como em Porto Alegre, isto está relacionado ao fato de como o planeamento urbano se tornou refém de burocracias e pareceres, criando corredores de leis e não corredores de pessoas, que são sempre, principalmente, para benefício do capital. Participo do turismo de massa e sei que ele impacta numa transformação radical dessa cidade: vejo a perda de funções urbanas do comércio local tradicional, a prestação de serviços e habitação que o seu impacto produz. “Eles estão a transformar os centros históricos em espaços vazios. O turismo vai extraindo as funções, vai extraindo a habitação e depois extrai até as próprias pessoas”, alerta uma reportagem de Expresso assinada por Ribeiro. Não é que não encontre comércio local nas proximidades de minha mansarda, em Lisboa, ao contrário, vejo muitos. O problema é seu desenraizamento: eles não estão nas mãos dos locais, mas dos estrangeiros. Não se fala a própria língua portuguesa neles. A própria prestação de serviços passa a ser em função das novas formas de habitação: eu vejo de manhã pequenos carros e suas modestas equipes de 2 ou 3 pessoas irem arrumar os apartamentos de plataforma para os novos clientes.
Turismo que transforma a cidade
Ribeiro analisa a condição da mobilidade em Lisboa. “Basta olhar para as filas de automóveis para perceber que as pessoas estão aprisionadas dentro de um automóvel.” Na verdade, não é bem assim. Eu acordo e caminho por minha rua por pelo menos três quarteirões. Eu vejo muitos carros, é verdade, e eles estão estacionados ali há alguns dias. Há muitos carros parados e vejo que alguns são usados raramente. Essa fila de carros minha rua pode ser dos proprietários dos apartamentos que já preferiram mudar de casa, ou podem ser, simplesmente como os que usamos pouco no Brasil porque já não vale mais apena com a gasolina cara, e preferimos outras formas de mobilidade. Ribeiro propõe a solução da caminhada ou do uso da bicicleta, “meios que trazem a liberdade de estarmos com os outros”, mas talvez eles já estejam em execução pois já vejo muitas bicicletas e ônibus em minha rua e nas proximidades quando caminho, sinal que a luta cultural entre o transporte público e a bicicleta pode estar caminhando para uma solução. Mas ele tem razão quando diz que tanto para o Brasil quanto para Portugal, que a mobilidade sustentável só será efetiva “só quando o uso do solo e as funções urbanas forem repensadas a montante.” Pensar no conjunto, pensar na totalidade, eis a questão. Ele cita cidades em que a mobilidade, com a redução de espaços para carros e ampliação para bicicletas, foram vitórias do executivo, como em Felgueiras. Ele defende que “o futuro deveria ser de cidades mais densas, mas estamos a construir “ilhas segregadas e periféricas”, consequência de planos diretores “sem escala nem conteúdo” para responder aos desafios atuais.”” Será este o destino de Porto Alegre com seu novo Plano Diretor? Teremos a ilha centro, a ilha quarto-distrito, a seguirem-se a já conhecida ilha da Restinga? Porto Alegre, uma cidade com ilhas ao seu redor está destinada a reconstruir em seu interior esse modelo geográfico nessas “ilhas de crescimento”? Isso não é uma contradição com a ideia de… cidade?
Quero sair do centro e peço outro taxi para voltar. Nesse trânsito, o taxista chega pelo outro lado da avenida. É outro muçulmano sem palavras, mas que com gestos, nos manda atravessar a rua para pegá-lo. Bem capaz que vou contrariar um possível homem bomba – penso aos risos. Atravessamos e voltamos com ele. Em casa, ligo de novo a televisão. Esses comentaristas sempre têm bibliotecas de livros ao fundo quando dão entrevistas. Aqui e no Brasil é assim. É outro signo de poder, o poder da autoridade. Olho pela janela. A vizinha, uma velhinha, olha de novo pela janela para rua. Ela faz isso todo o dia, mas hoje ela está mais arrumada. Será que irá a missa? Lembro que passei por dois homens negros altos e que parecem estar em surto psicológico no momento, falando de maneira desorientada. Um deles na rua da Graça, caminhava com o olhar perdido, falando com seres imaginários. Lembro dos moradores de rua em Porto Alegre que D. atendia no seu trabalho. Ambos os países têm de enfrentar o desafio estrutural porque mais de ½ da população de rua estima-se que tenha esquizofrenia e depressão. Esse negro que fala sozinho lembra minha tia na minha infância: ela também sussurrava e dizia que era para os espíritos. Eu não entendia. Eu, já adulto, anos depois, vi que ela teve o diagnóstico de esquizofrenia. É o círculo vicioso, não da rua, mas da desigualdade: a desigualdade leva a viver na rua, que agrava transtornos e a doença, que fecha o círculo dificultando a pessoa sair da sua condição de exclusão. Minha tia desapareceu da família por anos e viveu na rua. Ela também enlouqueceu. Ela também foi vítima da desigualdade. Isso me lembra os dias em que o nosso Hospital Psiquiátrico São Pedro era ativo, quando também, ao seu redor, eu via, ainda criança, perambulando pelas ruas ao redor, seus pacientes. Minha tia esteve lá uma vez. Esses negros com doenças mentais de Lisboa lembram-me da minha própria família, e eu mesmo escrevendo essas memórias, as vezes desconfio de minha própria sanidade. Mas porque há tantos negros com problemas mentais nas ruas de Lisboa?
O capital desagrega a nossa mente
É que a população negra e afrodescendente tem um peso significativo entre as populações de rua em Lisboa. São imigrantes que ficam sem alternativa de habitação na capital, de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), como Cabo Verde, Angola e Guiné-Bissau. Se a crise geral, a crise de habitação e despejos já não são fáceis para os portugueses, os nativos, imagine para os imigrantes. A crise imobiliária já é incompatível com salários médios, imagine com baixos. Pergunto a IA outras razões, e ela diz que “historicamente, muitas famílias negras e de origem africana residiam em bairros autoconstruídos ou periféricos. Com os processos de realojamento, demolições e a forte especulação imobiliária, muitas pessoas perderam as suas redes de apoio comunitário e foram empurradas para a exclusão habitacional por falta de recursos para arrendar uma casa no mercado regular”. São trabalhadores com os mais baixos salários, como a construção civil para os homens e os serviços de limpeza para as mulheres. Sem contratos de trabalho estáveis e na maioria informalidade, esses trabalhadores perdem tudo o que dá sustentação a sua psiquê: emprego, pagar por um quarto ou habitação, a possibilidade de conseguir residência legal, regularização de documentos, apoios sociais do Estado, como Rendimento Social de Inserção (RSI) ou mesmo participar de programas de habitação social. Terminam nas ruas. Penso no pior, que esse pode ser o futuro dos senegaleses e haitianos que recentemente migraram para Porto Alegre, que trabalham na informalidade, vendendo seus produtos na rua Salgado Filho ou Borges de Medeiros. Se as políticas municipais não forem fortalecidas, como o Centro de Referência dos Direitos Humanos (CRDH) e demais ações, temo que esse seja o destino de muitos desses imigrantes. Lá parte desses imigrantes desenvolveu sintomas mentais, mas tudo, como aqui, iniciou no contexto de vulnerabilidade que participam. É preciso empatia: olho o negro que fala sozinho na rua e pergunto “o que lhe aconteceu?”. Mas fazemos isso quando passamos por moradores de rua em Porto Alegre?
Chego em casa e vejo o noticiário sobre assoreamento em rios que margeiam cidades portuguesas. Diz a matéria que as tempestades recentes deslocaram mais de 300.000 metros cúbicos de areia no portinho de Vila Praia de Âncora. Esse assoreamento drástico compromete a segurança da barra e a navegabilidade, levando os pescadores locais a exigir intervenções urgentes de desassoreamento e a pedir socorro aos portos vizinhos que põe em risco a segurança das embarcações. Vejo que foi aprovado um plano de reconfiguração portuária e construção de um aeroporto, orçado em cerca de €20 milhões, projeto que depende de dragagens de manutenção para garantir a operacionalidade da frota até a conclusão das obras definitivas. Lembro do Rio Guaíba após a enchente e como foi discutida a necessidade de seu assoreamento. Lembro do assoreamento feito no Riacho Ipiranga. Tanto em Lisboa, quanto em Porto Alegre, tudo está ligado ao clima, tudo está ligado a economia.
Arte de rua
Nem tudo em Lisboa é tragédia porque aqui há arte por todo o lugar. Na vinda para casa, passei mais uma vez pelo largo em homenagem a Natália Correia (1923-1993), que dá nome a rua. A homenagem foi feita em 13.9.1992 pela passagem de seu centenário de nascimento. Há ao lado um grafite em um prédio. Nessa época, os neoliberais não eram uma força política no poder, a esquerda que era. Penso que somente quando a esquerda está no poder, a cultura e a educação são valorizadas. Olho ao lado e há um magnífico e colorido mural, um dos principais localizado no bairro da Graça. Esta é de grande relevo na cidade. Ela se chama “Fado tropical em tons RGB”, de autoria de OzeArv, nome artístico de José Carvalho, um dos nomes mais representativos da arte urbana contemporânea em Portugal. Seu logótipo em forma de balão de fala (“OZE ARV”) pode ser visto claramente no canto superior direito do desenho. Feita em setembro de 2021, é uma típica street art que combina tintas em spray (aerossol) e tintas plásticas/acrílicas aplicadas diretamente sobre a empena do edifício. Lembro das pinturas assim que começaram a se espalhar em Porto Alegre.
Lisboa é uma cidade repleta de obras nas paredes dos prédios. Eles as valorizam. Em Porto Alegre, não há tantas assim. Lembro do mural “Estado de Paixão” que ilustra Paixão Côrtes pintado pelo artista Eduardo Kobra na fachada de uma antiga fábrica de vidros no Quarto Distrito e gravemente afetada após a enchente de maio de 2024 e do mural de Danúbio Gonçalves na Estação Mercado degradado pelo abandono e sujo. Eu queria que tivesse ficado no lugar o mural do Prefeito Sebastião Melo, grafite do artista Filipe Harp, que retratava o prefeito submerso na lama como crítica à sua gestão, mas foi censurado. Sinto o mesmo para o mural gigante na Avenida Borges de Medeiros na lateral do prédio que abriga o DAER e a PGE-RS que entrou para a lista de obras que serão prejudicadas/apagadas em definitivo para dar lugar a reformas estruturais e revitalização na fachada do edifício. Em todas estas situações, por omissão do poder público ou ação, mostramos que desprezamos a arte pública. Aqui não. Aqui a obra de Natália Correia é uma metáfora visual sobre a identidade cultural e a fusão de tradições. Penso nela como o Lupicínio Rodrigues lisboeta e de saias. Assim como Lupicínio teve presença em bares da noite em Porto Alegre, principalmente o Adelaide’s Bar, no Alto da rua Marechal Floriano, templo da seresta da capital, Natália passava a noite em Lisboa no bar Botequim, que fundou e geriu na Graça. Essa espécie de “café parisiense” tornou-se o principal epicentro de debates literários, artísticos e políticos de oposição ao regime, o que faz inveja, já que nosso cantor preferiu cantar a dor de cotovelo, evitando-se manifestar-se politicamente.
Cabrais por todo o lugar
Passo de novo pelo senhor com cara de Pedro Alvares Cabral, o descobridor, com cabelo Chanel. Eu já apontei que vi outro igual no armazém da esquina e um outro conduzindo o Elétrico 28. Este primeiro sempre está num bar de esquina quando passo. Um dia ele está sentado com um copo de cachaça num bar; em outro, o dono dá a ele um sanduiche para que ele se afaste, pois está afugentando a freguesia. Triste fim desses homens com cara de descobridor do mundo, incapazes de descobrir o que está acontecendo com sua própria mente. No supermercado, vejo de novo muçulmanos que param e olham com indecisão os produtos para comprar. Seria dificuldade com a língua ou seria porque olham e pensam, “por Alá, por que existe tal produto?” A última hipótese, inspirada em ZIzek é simplesmente que olham por não saberem mais o que querem e o que podem comprar. É diferente de europeus ou americanos, que não tem dúvidas em suas compras, pegando de primeira os produtos, como se ainda estivessem vivendo a era das grandes navegações em que saiam ao mundo e pegavam o que bem entendessem.
Que é ser português? Que é ser brasileiro? Que é ser estrangeiro num país como este? Não é apenas uma história diferente, mas uma cultura diferente unida por laços de ancestralidade. São os negros que nos ensinaram, depois dos indígenas, a valorizar nossos ancestrais. Eu sabia de minha origem em trabalhadores da viação férrea. D., sabe do avô que lutou na Guerra do Paraguai e que ele era português. Ela tem direito, com certeza a cidadania, eu ainda tenho de descobrir. É tudo um nome, Machado ou Barcellos, ambos de origem portuguesa. E o meu até tem cidade. Nada mal. Em casa, vejo matéria da SIC notícias que diz que o Ministério das Infraestruturas, Transportes e Turismo do Japão publicou o novo plano de redução do turismo para os próximos quatro anos para equilibrá-lo com a qualidade de vida dos residentes, bem como impulsionar destinos turísticos através da diversificação da oferta para zonas rurais. “As medidas para combater o turismo massificado incluem a redução do tráfego nas estradas locais e a limitação do número de visitantes, ao mesmo tempo que promovem a melhoria das infraestruturas de transportes. Também propõem medidas contra as infrações às normas de comportamento com a “divulgação exaustiva” delas.” Vejo isso como o futuro de Lisboa, que já está promovendo ações para dificultar a reivindicação de cidadania portuguesa. É sempre assim, quando chega minha hora, dá problema.
Futuro da cidade
A verdade é que há muitos turistas aqui e poucos no Brasil e Porto Alegre. Tóquio mantém a meta para 2030 de receber 60 milhões de visitantes estrangeiros contra a previsão de 7,2 milhões de Lisboa, ao mesmo tempo em a cidade japonesa hoje conta com 42,7 milhões turistas em 2025 e a lisboeta tem 6,97 milhões. Se no Brasil a previsão para 2030 é de 16,2 milhões, para Porto Alegre, pasme!, se der para se transformar até essa data apenas em destino turístico para nichos específicos, já está de bom tamanho, diz reportagem do site Amanhã. Enquanto isso, hoje estamos no Brasil com 9,2 milhões de turistas e em Porto Alegre, 1,4 milhão. Mas, se em ambos países, o turismo é visto como uma indústria estratégica, aqui em Lisboa e nos países de megaturismo, já iniciam-se as medidas na direção contrária, para sua redução (disponível AQUI).Será esse o futuro do Brasil? Não desejo reconhecer minha ancestralidade lusitana no meio de uma massificação do turismo e nem ser considerado visitante indesejado. Mas eu sei que o fato de a imagem desses turistas andarem simplesmente perdidos em Lisboa, vagando como almas penadas turísticas, também colabora nessa sensação: sei por que sou um deles. Sem rotas pré-definidas, apenas dependentes de seus celulares, caminhando por ruas que não conhecem levados por taxistas Uber ou Bolt que não falam com eles por que eles também são imigrantes, o que se tem é um cenário urbano caótico e pouco acolhedor. Estamos indo ou vindo dos mesmos lugares, apenas em momentos diferentes. Somos idosos com problemas no joelho, somos casais perambulando por ruas e monumentos. Quem somos além de uma massa indistinta de celulares em trânsito? Fotografamos cada detalhe da geografia como se quiséssemos pegar algo daquele tempo: para nós, registrar, fotografar se tornou sinônimo de pegar, se apropriar. Mas quando essas centenas se tornarem milhares pelas ruas, aí sim teremos um problema da globalização.
A conclusão de minha utopia particular de turista de esquerda é: eu preciso sair disso tudo. Eu não posso ficar indo a lugares e passar por monumentos cuja história não sei, me acotovelando pelos cantos dessas obras de história em busca de uma selfie; eu não posso andar em círculos para voltar aos mesmos lugares simplesmente porque não é possível conhecer uma cidade num único dia pela multidão que a acessa. A chave não é criar uma política para reduzir o acesso, como tais países preveem. Isto, é claro que é necessário, mas não se trata apenas de fluxo, mas de educação. Eu preciso que uma educação turística seja concebida (isso é possível depois da educação financeira e congêneres), que seja capaz de, como aponta Han, dizer que nós não necessitamos alimentar a produção de imagens quando viajamos. “É preciso aprender a sair de si, a sair de seu entorno, a compreender que é a exigência do universal que relativiza as culturas e não o inverso. É preciso sair do cerco culturalista e promover o individuo transcultural, aquele que, adquirindo o interesse por todas as culturas do mundo, não se aliena em relação a nenhuma delas”, como afirma Augé. .
Todos os textos de Jorge Barcellos estão AQUI.