
Sem inspiração para escrever, fui tomar um banho – a água sempre me ajuda a ter ideias, seja a do chuveiro ou do mar. Coloquei o álbum Transa, de Caetano Veloso, para me acompanhar, e assim me veio esse texto.
Sempre fui muito musical. Desde cedo atrelei músicas a sentimentos, a situações, a pessoas. As melodias e letras me atravessam, me arrepio, me emociono, encontro nelas o divino. Quando pré-adolescente, passava a maior parte do tempo trancada no quarto, mergulhada em Linkin Park, Evanescence, Avril Lavigne e, mais tarde, nas bandas emo que tomaram conta da minha geração, cujas letras ressoavam dentro de mim e me traziam algum entendimento para o que eu vivia: solidão, estranheza, as tantas incertezas daquela fase.
Hoje faço aulas de canto, não porque quero ser cantora (infelizmente me faltam talento e dedicação), mas porque cantar, pra mim, é uma forma de cura, de terapia e de conexão espiritual. “Quem canta, seus males espanta”. De fato.
Deixo aqui três canções que me marcaram. Não necessariamente em momentos grandiosos, embora alguns o sejam.
Nine Out Of Ten – Caetano Veloso
Eu e minha amiga de infância, Ana, estávamos em Boipeba, uma ilha na Bahia, mais especificamente em Moreré. Depois de um banho gelado no camping, decidimos ir até a praia de Bainema, onde estaria acontecendo uma festa. O trajeto foi feito de trator (um dos únicos meios de transporte da ilha, já que carros não circulam por lá), debaixo de um céu estreladíssimo, do calor de janeiro e de uma atmosfera mágica que poucos lugares no mundo me apresentaram tão intensamente quanto a Bahia. Chegando na praia, um pequeno bar com uma banda tocando brasilidades.
“I’m alive e vivo muito, vivo, vivo, vivo… feel the sound of music banging in my belly, belly, belly.”
A música ecoava em todo meu corpo, me sentia, de fato, viva. A pele bronzeada, o cabelo bagunçado pelo vento, os pés descalços na areia. Entre danças, abraços, risadas, conversas… definitivamente fomos felizes naquela noite.
Partilhar – Rubel
Luigi e eu noivamos em 2019 e resolvemos fazer uma festa-relâmpago, organizada em pouco mais de uma semana, só para família e amigos mais íntimos, cerca de sessenta pessoas. Simples, no salão de festas do nosso prédio. Foi lindo, emocionante, delicioso.
Em determinado momento, depois de discursos, choros, abraços e sorrisos, minhas amigas colocaram essa canção, nós dois começamos a dançar, e quase todos os convidados se juntaram a nós, em um momento de catarse, amor, união. O tempo parou enquanto as pessoas que mais amamos no mundo cantavam conosco: “Eu quero partilhar a vida boa com você”.
(Tenho uma ótima história sobre este evento, que envolve um par de sapatos, minha cachorra Sol e um cancelamento na internet – mas fica para um próximo texto).
Atlas – Lane 8
Essa música instrumental foi a trilha sonora do trajeto que eu e minha melhor amiga, Flávia, fizemos para ver a aurora boreal, nos arredores de Tromsø, na Noruega. Temperatura de menos vinte e tantos graus Celsius, rumamos até uma fazenda de criação de huskies siberianos, distante das luzes da cidade e com uma ótima visibilidade para o céu, densamente estrelado. Ao lá chegar, vestimos um macacão térmico fornecido pela agência de turismo dentro de uma cabana, e saímos a pé pela madrugada ao som dos uivos das dezenas de cães, da surreal luz verde e roxa dançante, e do frio que chegava aos nossos ossos. Foi um dos momentos mais singulares da minha vida, especialmente ao notar que, quanto mais intensa era a dança da aurora boreal, mais os huskies uivavam olhando para o céu.
Todos os textos de Helena Ruffato estão AQUI.