
Na década de 1990, desenvolveu-se no Recife um intenso movimento de contestação, intitulado Manguebeat. Entre os muitos idealizadores dele, destacam-se Chico Science e Fred Zero Quatro. A denominação manguebeat queria manifestar a insatisfação com o contexto de penúria da cidade e a cena cultural, pois, como denunciaram, as “artérias” da cultura do Recife estavam “bloqueadas” e a cidade “estava morrendo” econômica e culturalmente. A indignação do grupo pode ser percebida nos versos a seguir, extraídos da música “Manguetown”, de Chico Science & Nação Zumbi:
Estou enfiado na lama / É um bairro sujo / Onde os urubus têm casas / E eu não tenho asas / Mas estou aqui em minha casa / Onde os urubus têm asas / Vou pintando, segurando as paredes do mangue do meu quintal / Manguetown / Andando por entre os becos / Andando em coletivos / Ninguém foge ao cheiro sujo / Da lama da Manguetown
Desde que passei a trabalhar na Universidade Federal de Pernambuco, vou pouco ao centro da cidade do Recife e, quando ando, geralmente é em festividades urbanas ou para dar conta de compromissos pontuais. Nestes dias, precisei resolver algumas coisas por lá e fui tomado por entristecimento ao ver o abandono da área central dela. Naquele cenário, fui guiado por uma nostalgia imensa, daquela que Fernando Pessoa chamou de “doença do mistério da vida”, uma sentimentalidade pura apelidada de saudade. Trata-se desse misto de melancolia que invade a gente por amar algo que já passou na materialidade da vida, mas repousa na memória. Presença da ausência daquilo que o coração e a alma teimam em afirmar como melhor.
Mas não apenas ela! O que me machucou ao transitar pelo centro da cidade foi a percepção de que o esvaziamento da região não é um fenômeno ocasional ou meramente estético: trata-se da expressão concreta de transformações econômicas profundas que reorganizaram a cidade e ampliaram suas desigualdades. O abandono do centro não é só urbano; é social, político e histórico. Coisas bonitas são construídas e inauguradas. Equipamentos de lazer, desporto e diversão são socializados. Edifícios suntuosos estão se espalhando para assegurar o usufruto da beleza de nossa Veneza para as elites endinheiradas. Sem priorizar o povo mais pobre, a gente mais sofrida dos morros da zona norte, os ribeirinhos, cuja vivência anfíbia persiste em meio à grande aflição.
Vale transcrever um trecho do manifesto “Caranguejos com cérebro”, escrito em 1992, de autoria de Fred Zero Quatro: “Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação, aliada à permanência do mito da metrópole, só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano”.
Cheguei ainda adolescente em Pernambuco. Trazia uma felicidade incontida em meu coração pelo privilégio de vir morar no estado no qual Dom Hélder Câmara defendia os oprimidos. Local de Miguel Arraes, Paulo Freire, Josué de Castro, Francisco Julião e Joaquim Correia. A metrópole da “Escola do Recife”, com suas ligas camponesas, passeatas políticas, muitos movimentos sociais e comícios pelas diretas já, seduzia-me profundamente. Recife, ataviada por rios e ternamente alcunhada de “Veneza Brasileira”, era uma cidade em movimento, terra do frevo e do maracatu.
Nas últimas décadas, a centralidade tradicional das cidades brasileiras foi sendo progressivamente deslocada. A emergência dos shopping centers e, mais recentemente, a consolidação do comércio online redesenharam os fluxos de consumo e convivência. O Recife não escapou a essa lógica. O que antes se estruturava na rua — no comércio popular, no encontro entre corpos, na circulação intensa — migrou para espaços privados, climatizados e seletivos. Não se trata apenas de uma mudança de hábitos, mas de uma reconfiguração do próprio sentido da cidade.
A digitalização do consumo, ao mesmo tempo em que facilitou o acesso a bens, contribuiu para esvaziar muito mais os espaços públicos tradicionais. O centro urbano, já fragilizado por décadas de descaso e políticas urbanas inconsistentes, passou a encarnar a imagem de uma cidade que perde sua função agregadora. A rua deixa de ser lugar de encontro e torna-se espaço de passagem — quando não de abandono, que se assemelha, lamentavelmente, a uma cidade fantasma.
Não se deve reduzir esse fenômeno a uma simples consequência da modernização. O esvaziamento do centro do Recife revela, sobretudo, a face desigual desse processo. A migração do consumo para espaços privados e digitais não foi acompanhada por políticas capazes de integrar a população mais vulnerável. Pequenos comerciantes, sem condições de competir com grandes redes ou de migrar para o ambiente digital, foram sendo expulsos do circuito econômico. O que se apresentou como inovação para alguns se traduziu, para muitos, em exclusão e empobrecimento. Não bastasse, a nova geografia que acena ocupar espaços ociosos empurra cada vez mais os mais carentes para periferias sem dignidade urbanística, ambiental e social. Mesmo diante de avanços pontuais — como a expansão de serviços de saúde ou iniciativas tecnológicas —, o acesso permanece profundamente desigual. A cidade se moderniza, mas não se democratiza.
Ao rememorar minha chegada a Pernambuco, ainda jovem, recordo ter-me deparado com uma cidade vibrante, marcada pela intensidade de seus fluxos humanos e culturais. O centro era mais do que um espaço comercial: era um território de convivência, de diversidade e de produção simbólica. Caminhar pela Conde da Boa Vista, frequentar a Rua da Aurora – linda de doer –, visitar potentes livrarias e teatros, tudo isso compunha uma experiência urbana ímpar que articulava consumo, cultura e sociabilidade. No entanto, essa memória precisa ser interrogada. Aquela cidade pulsante era, de fato, acessível a todos? Ou já carregava, ainda que de forma menos visível, as marcas da exclusão que hoje se tornam mais explícitas? As marcas da exclusão não nasceram hoje e nem são frutos de iniciativas pontuais do capital. Acompanham todo seu processo de desenvolvimento, no qual resta ao empobrecido um mero papel de indesejável figurante.
Contudo, a nostalgia precisa ceder lugar à crítica. O Recife que “não existe mais” talvez nunca tenha existido plenamente para aqueles que sempre estiveram à margem: os moradores dos morros, os trabalhadores informais, os que habitam as zonas de risco ou vivem nas ruas. O que mudou não foi apenas a cidade, mas a forma como suas desigualdades se manifestam e até mesmo como são produzidas. O esvaziamento do centro não elimina a vida urbana; ele a redistribui de maneira desigual, tornando mais evidentes as fraturas sociais. Os fenômenos com os quais hoje nos deparamos ganharam cheiros e cores diversas, disfarçando de distintas maneiras seu horror à pobreza.
Recordar a cidade em versos, como faz Manuel Bandeira, recifense, auxilia na compreensão do papel da memória na constituição da identidade urbana. Em “Evocação do Recife”, a cidade aparece como espaço afetivo, tecido por experiências singulares e coletivas. Hoje, essa rememoração ressoa de forma ambígua: ao mesmo tempo em que preserva a memória de uma cidade vivida, expõe o distanciamento entre aquele imaginário e a realidade contemporânea. A cidade cantada pela poesia contrasta com a cidade fragmentada pela lógica do mercado. Uma cidade Maurícia que enterra sua memória e coloca suas tradições no balcão dos negócios.
Enquanto isso, persistem problemas estruturais que revelam a face mais dura dessa “reorganização” citadina. A população em situação de rua cresce, os serviços públicos enfrentam sobrecarga, e as áreas mais vulneráveis continuam sendo as mais afetadas por violência e tragédias recorrentes, como enchentes e deslizamentos.
O centro do Recife, nesse contexto, torna-se um símbolo. Seu esvaziamento não é apenas físico, mas também político: revela a incapacidade de produzir uma cidade que articule desenvolvimento econômico e inclusão social. Recuperá-lo não significa apenas restaurar fachadas ou atrair investimentos para edificar um potente centro tecnológico, mas repensar o modelo de urbanização que o levou à decadência e colocar no cerne das preocupações das políticas públicas as pessoas concretas com suas necessidades vitais.
Mais do que perguntar pelo Recife que se perdeu, é preciso indagar pelo Recife que está sendo produzido. Quem tem direito à cidade? Quem ocupa seus espaços? Quem é expulso deles? Sem enfrentar essas questões, qualquer tentativa de revitalização será superficial, incapaz de reverter o processo de exclusão que estrutura a vida urbana, deserdando o cidadão nativo em benefício do empresariado investidor. A negociação do espaço urbano finda se configurando na venda da dignidade humana, porque homens e mulheres simples em constante situação de vulnerabilidade tornam-se ainda mais invisíveis.
Se a saudade insiste em nos conduzir pelas ruas do passado, a crítica nos obriga a encarar o presente e a inquirir sobre a cidade que queremos. O esperançar nos sacoleja para a construção do possível. A pernambucanicidade precisa redesenhar becos e avenidas, praças e vielas, em paisagens urbanas que integrem seu povo. Hoje, ela revela que o esvaziamento do centro do Recife não é apenas o fim de uma época, mas o sintoma de uma cidade que, ao se transformar, aprofundou suas desigualdades. Recuperá-la exige mais do que memória: exige justiça urbana.
Façamos eco ao frevo que brada vibrantemente: “Frevo, freve, meu povo não se curva não! É na ponta do pé que eu espanto a dor da solidão. Pernambuco é raça, Recife é resistência. No compasso da orquestra, eu afogo a minha carência! Eita, frevo bom! Eita, povo forte! A gente nasce e vence, sem medo da sorte!” (Frevo da Resistência).
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.