
A idade é uma das primeiras coisas que a gente observa em algo ou alguém. Sobre o carro, o ano e modelo de lançamento, sobre o vinho, de qual ano é a sua safra, sobre a pessoa, se é jovem ou idosa. Assim, a idade é uma das formas que se utiliza para categorizar pessoas e objetos. Porém, enquanto a gente valoriza carros antigos, livros raros, imóveis tombados, móveis de antiquários, vinhos de safras antigas, o mesmo não acontece com gente. Com relação às pessoas, o inverso ocorre, o que vale é esconder o envelhecimento.
Uma amostra disso está no campo da linguagem. Quando nos referimos a jogar fora algo que está velho, estamos indicando um objeto inútil, estragado, que não presta para mais nada, que serve apenas para lixo. E linguagem revela muito do que nossa sociedade carrega em seu inconsciente. Nesse caso, o idadismo com relação à pessoa mais velha.
O idadismo, sempre é bom salientar, é um fenômeno que atinge pessoas de todas as idades, sempre que a idade é utilizada para prejudicar alguém, o que pode acontecer durante qualquer fase do curso de vida, seja na infância, adolescência, juventude, adultez ou velhice. Porém, está provado por estudos que, com o envelhecimento, os efeitos do idadismo vão sendo maiores sobre as pessoas idosas.
O idadismo se manifesta em três dimensões
Auto-idadismo: É aquele voltado contra si próprio, internalizado, as crenças aprendidas desde a infância com familiares, no contexto cultural vivenciado, que irão moldar os estereótipos e preconceitos que cada pessoa carregará (exemplo: velhice é doença; pessoas velhas são ranzinzas, lentas, tornam-se crianças novamente). Dessa forma, ao entrar na velhice, sua tendência é se comportar como acredita que uma pessoa mais velha deve se comportar.
Idadismo Interpessoal: É quando refletimos na outra pessoa as nossas crenças sobre idade, sejam crianças (criança não sabe nada), adolescentes (são todos aborrescentes), jovens (são todos irresponsáveis) ou pessoas idosas (são feias, perderam o gosto pela vida, são ultrapassadas, são chatas, só sabem falar sobre doença).
Idadismo Institucional: É quando o idadismo extrapola para leis, regras, normas sociais, políticas e práticas institucionais. Sobre essa terceira forma de manifestação, gostaria de apresentar dois lamentáveis exemplos. Um já normalizado, mas que prejudica milhões de pessoas no Brasil e no mundo, outro quase distópico, que me traduz a desumanidade de uma parte da nossa sociedade que tem vergonha de envelhecer.
O exemplo das telas
A tecnologia tem como missão ajudar a sociedade no seu processo de evolução, certo? Atualmente, não se faz quase nada se a gente não tiver um aplicativo instalado no celular. Desde o acesso aos serviços do Estado, o banco, a compra na farmácia, o transporte público ou privado, entre tantos outros. No Brasil já contamos com 15% de sua população 60+. São milhares de pessoas. Entre esses milhares, há uma diversidade de velhices. Temos pessoas com alta escolaridade e analfabetos, aquelas que ainda trabalham, atuando com tecnologias digitais, outras que pouco ou nunca tiveram acesso a elas. No entanto, há uma cobrança para que se eduquem digitalmente, como se as dificuldades que enfrentam no manuseio desses aplicativos fossem de sua responsabilidade exclusiva. Será?
Percebo que, na maioria das vezes, esses aplicativos são inadequados para o público 60+, pois foram construídos sem considerá-lo, com fontes pequenas, com baixo contraste nas cores, pop-ups com anúncios que não se faz ideia de onde fechar, botões escondidos e/ou confusos (especialmente para quem não é nativo digital) ou botões pequenos, que não consideram que os dedos “engrossam” no envelhecimento.
Outra falha? O tal pedido de reconhecimento fácil, sem óculos (e não é só pessoa 60+ que usa óculos). E, depois de retirado o óculos, pede para piscar, para virar o rosto para a direita, para a esquerda, para cima, para baixo… Como saber se estou sem óculos?
Outro obstáculo é o tal menu em QR Code. Para o restaurante pode ser uma boa solução, mas para clientes, em especial as pessoas idosas, esses cardápios são uma dificuldade para navegabilidade, traduzindo-se em dificuldade e vergonha para muitos.
Erros de design. Desconsideração. Exclusão de milhões de pessoas idosas. Pessoas que se tornam dependentes de filhos, netos, sobrinhos, vizinhos (talvez algozes de violência financeira) para resolver suas variadas questões no “mundo digital”. Não diga que a falta de independência na área é da responsabilidade da pessoa idosa. Há aqui uma boa dose de responsabilidade coletiva e institucional. De idadismo.
O idadismo mora no City Lapa em SP
Na terça-feira saiu na Folha de São Paulo uma reportagem que apresentou um conflito que nos dá uma amostra do que há de mais triste em pessoas que não conseguem conviver com finitude, envelhecimento, velhice. Uma parcela adoecida da nossa sociedade.
No bairro da Lapa, mais especificamente no City Lapa, em São Paulo, a associação de moradores Assampalba solicitou à Prefeitura a remoção de 40 casas de repouso que estão localizadas no seu perímetro, formalmente alegando que o zoneamento urbano não permite espaços comerciais na sua região. Assustadoras são as falas dos moradores justificando a necessidade do pedido para “acabar com a gemeção (dos idosos)”, “os velhos choram”, “circulação de ambulâncias e carros funerários”, deixando claro que o problema não está na origem comercial do empreendimento, mas na dificuldade de lidar com o público envelhecido e nas reflexões, angústias, questões que acarretam lidar com essa fase da vida.
Porém, esses moradores preferem tomar uma atitude cruel e covarde, a de expulsar essas casas de repouso e as pessoas idosas que nelas estão. Assim, talvez imaginem que elas próprias não envelhecerão, estancarão o tempo. Sofrimento, choro e gemeção só existirão em bairros vizinhos, não irão precisar de uma ambulância em suas casas, muito menos de um carro de funerária, pois a morte na casa delas não chegará. Afinal, as pessoas idosas estarão todas expulsas e o City Lapa estará livre desse mal!
Até agora, a Prefeitura de São Paulo vem sendo cúmplice e autuando casas de repouso, como forma de, aparentemente, coagir a saída delas. Atitude incoerente com uma gestão que foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como “Cidade Amiga da Pessoa Idosa” em 2025. Espero que retome a consciência e a lucidez, dando exemplo de como trata esse cruel idadismo institucional.
O idadismo mora na gente em diferentes medidas. Ele se institucionaliza porque muitos normalizaram comportamentos a ponto de escreverem regras, práticas, normas, desenvolverem produtos baseados em estereótipos e preconceitos etaristas. Precisamos nos libertar. Assim, viveremos mais e viveremos melhor. Só assim.
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