
Após a menopausa, sofre-se uma forte sensação de perda. Bem mais grave, no entanto, é a depressão relacionada ao processo de envelhecimento. Que não é necessariamente provocada por algum acontecimento crucial na vida da mulher, mas é um estado de posse de sua imaginação, ordenado pela maneira como a sociedade impõe e limita às mulheres se imaginarem a si mesmas.
Susan Sontag (em “A doença como metáfora”)
Na visão médico-antropológica, o corpo humano e suas doenças são vistos como produtos da história e da cultura e, portanto, se modificam com a mudança dos espaços temporais e sociais. No caso do climatério, ele não é um evento uniforme, nem tem idênticas e universais representações; portanto, trata-se de uma experiência que deve ser interpretada dentro de suas contingências. Muito mais complexas do que as meras alterações físico-químicas são as interpretações psicoculturais contextualizadas no corpo e na mente das mulheres.
No conceito cartesiano reducionista dos fenômenos biológicos, ao tentar explicar as propriedades de um todo, deve-se antes considerar as partes que o compõem. Neste tipo de raciocínio, as alterações bioquímicas que ocorrem quando cessam as menstruações são julgadas fundamentais para explicar o climatério e irrelevantes quaisquer outros fatos culturais e as diversas experiências pessoais.
Trata-se, pois, de um discurso no qual estão implícitas algumas ideias ancestrais e outras pós-modernas.
A milenar sacralização da função reprodutiva da mulher, é um anacronismo sociocultural que ainda persiste no inconsciente coletivo. A infertilidade feminina era considerada uma ameaça à horda primitiva, que sofria periódicos riscos de extinção devido à fome, às alterações climáticas, às pestes, às guerras e à antropofagia.
Os mitos e ritos ligados à fertilidade são riquíssimos e permeiam todas as culturas, desde os relatos folclórico-literários até a teogonia, por meio da adoração de deusas propiciadoras de numerosas gestações e parições.
Na realidade pós-moderna de um mundo povoado por bilhões de pessoas, embora persistam consensos ideológicos ancestrais relativos à sublimidade da função social da reprodução, as taxas de fertilidade são cada vez menores, as crianças menos desejadas e o padrão estético da beleza se deslocou da mulher obesa (e grávida) como as deusas do neolítico para a mulher delgada, jovem, profana e erotizada.
A fertilidade, evitada por vários procedimentos atuais, é um dos sinais de juventude. Nas estatísticas da estética e da economia, a média é ocupada pelos jovens. As crianças e os velhos são desvios da normalidade, pois pouco produzem e consomem, e não votam.
Tanto o discurso folclórico quanto o proclamado científico concordam que a mulher na menopausa entra numa situação biológica não natural e permeada por falhas orgânicas, perdas biológicas e psíquicas e, enfim, pela decrepitude.
Essa ideia é reforçada pela descrição clínica dos órgãos reprodutivos senis, os quais, nas sociedades avançadas pós-modernas da produtividade e do consumo obsessivo, foram invadidas por um número crescente de seres ausentes do mercado e da capacidade reprodutiva.
As mulheres de meia-idade são vistas como seres incompletos, mas passíveis de retornarem à uma jovem completude através de cosméticos, de cirurgias, de inúmeras drogas, de hormônios sexuais, de atividades físicas intensas nas disseminadas academias de ginástica, tudo englobado numa estratégia para reconduzi-las ao mercado consumidor.
A fêmea jovem, sensual e fértil é a “mulher” e, uma vez passada a fase reprodutiva, ela se torna “a outra”, limitada pela senilidade. Sua existência é dividida entre a presença e a ausência de ciclos menstruais, saudáveis ou doentes, normais ou anormais.
Enfim, parece não haver vida além dos cinquenta anos.
Franklin Cunha é médico, membro da Academia de Letras Rio-Grandense