
Segundo o Spotify, passei, neste mês de maio (escrevi este texto na segunda-feira que passou), 2.514 minutos escutando músicas, algo perto de 42 horas ou de dois dias. O artista mais ouvido, que divide o amor máximo de minha audição com a escocesa Elizabeth Fraser, segue sendo o argentino Gustavo Cerati. Sua música Beautiful, todos os dias em uma espécie de oração sem deus, no primeiro silêncio da manhã, invade minha mente mesmo antes de eu colocá-la para tocar. Acordo meio que com a frase “mereces lo que sueñas” falando comigo, o que não significa que eu vá ter e tampouco que eu vá parar de sonhar.
Sonhar, para mim, entre outras coisas, é aumentar o volume da minha conexão comigo mesma. Não consigo interagir direito com outra pessoa se os sons da minha imaginação e da minha autoescuta estiverem muito baixos, o que parece complexo e um tanto contraditório se levarmos em conta de que mesmo com a boca fechada, produzimos sons orgânicos o tempo inteiro. Quando eu tinha uns vinte e poucos anos, lendo o livro De Segunda a um Ano, escrito pelo norte-americano John Cage, entrei em um estado de assombro diante da afirmação de que não existe silêncio no mundo em que vivemos e no mundinho que somos, mas existe, é claro, a ilusão.
Ilusão não é exatamente algo negativo. A palavra ilusão faz parte do grupo de vocábulos mal interpretados ou que foram distorcidos com o passar do tempo. Não é por nada que muita gente fala, quando se sente frustrada ou enganada, que está desiludida. Quem entre nós não sofreu alguma desilusão amorosa? Ou foi acusado de ter causado? Ou causou mesmo? Ontem, lendo os comentários de uma postagem em que a autora acusava um cineasta megafamoso de não ter responsabilidade afetiva por ter encerrado, sem aviso prévio, um relacionamento de cinco anos com uma atriz também megafamosa, dizendo a ela apenas que não a amava mais, me surpreendi com a quantidade de pessoas revoltadas com ele.
Fiquei, aí, pensando cá com meu cérebro, por vezes, meio excêntrico, por que alguém prefere ser avisado que vai ser deixado em algum momento, empurrado devagar para fora, desconsiderado aos poucos dentro de uma convivência forçada, a ser tratado com honestidade, ainda que dolorosa? Mais do que isso, como consegue acreditar que um ‘eu não te amo mais’ possa ser justificado? É mais decente dizer porque o seu corpo não me excita mais, porque você não se transforma, porque você invade meu espaço vital, porque não gosto de seu gosto musical, porque você fez isso ou aquilo?
Ninguém, em cultura nenhuma, vai dizer ‘não te amo mais’ porque te acho incrível e te quero sempre por perto. A gente não quer. E a gente não sabe, nem tem de aprender a ficar com a pessoa que não queremos quando a mastigação, os passos, a comunicação com o outro, tudo o que o outro faz vira um grande ruído. Ninguém tem de virar refém do apego do outro. A gente tem de aprender é reconhecer o silenciamento do que sentia, encarar o peso, falar e ir embora. Ir embora previne deslealdade e infidelidade, duas escolhas indignas que machucam e até ensurdecem a todos quando descobertas e que, cedo ou tarde, revelam um lugar mais frio, calado e distante que o de uma separação de corpos.
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