
Não, ainda não estamos preparados pra mudar de assunto.
Os brasileiros são um caso à parte e não seguem regras comuns aos demais seres humanos. Enquanto outros vivem as fases usuais do luto, negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, o brasileiro consegue sentir quase tudo ao mesmo tempo.
A negação, por uma morte anunciada desde a convocação, é uma constante na nossa vida. A gente é foda em algumas coisas que não valorizamos e deficientes em outras que arrotamos. Faz parte, mas, no nosso caso, funciona mais como um mecanismo de defesa: se me recuso a admitir que o menino Ney cresceu e o que antes era uma criança engraçadinha virou um adulto chato, marrento, briguento e vivendo do passado, é como se magicamente a criança ainda jogasse futebol.
E muita gente defende porque não aceita o que o cara é, sem ética dentro e fora do campo — e não estou falando de política, antes que alguém venha me xingar. Pra não dizerem que pego no pé do velhinho Ney, foi tudo uma patacada coletiva desde o começo, que escolhemos negar pelo amor ao futebol.
A raiva, essa é incontrolável. É um calor que começa com um maçarico botando fogo no estômago e sobe feito um meteoro reverso pela garganta, se espalha por todas as veias do corpo borbulhando, até se transformar em atos totalmente irracionais de alívio temporário.
Quem não viu vídeos de gente quebrando televisões novas, que provavelmente ainda não tem nem a primeira das 24 prestações sem juros pagas? Ou as crianças revoltadas queimando os álbuns da Copa, que antes eram tratados como um membro da família? A catarse, na definição, resulta em dor de cabeça com ressaca moral no dia seguinte, na prática.
A barganha, no nosso caso, vem na comparação com o 7×1, ou seja, agora estamos imaginando que poderia ter sido pior. E se o primeiro pênalti fosse convertido, e se aquele outro tivesse feito aquele gol na cara, e se, e se, e se … barganhamos com a linguagem e imaginação, mas a realidade e os memes continuam batendo na nossa porta.
A depressão, essa já tava deitada em berço esplêndido desde o início. O dia seguinte era uma segunda-feira, historicamente o mais deprê dos dias da semana. Acrescente a isso as imagens patéticas de um ex-ídolo marrento, briguento, criando confusão desnecessária. E o chocolate belga com cereja do bolo é que era dia 6 e o salário já tinha acabado, os boletos todos batendo na porta e as prestações da televisão nova ainda na primeira parcela.
O único consolo é que achamos uma outra seleção pra nos fazer sorrir. Na primeira Copa jogada e na figura de um ídolo real, como o goleiro de Cabo Verde. Eles nos fizeram sorrir de novo com o futebol. O futebol de paixão sem ostentação. Vozinha, um cara que dizem ser simples, mas na verdade é um ser humano complexo, esclarecido, com consciência de classe, persistente, afetuoso, grato, dedicado, nada deslumbrado, de atitudes humanas e sem afetação.
A aceitação da nossa derrota, essa não virá nunca. Morreremos culpando tudo e todos, menos os verdadeiros culpados, que nos inclui ao tratarmos como ídolos pessoas que nos tratam como consumidores de suas patrocinadoras e não torcedores apaixonados.