
Desde 2002, o segundo domingo de maio é um dos dias mais difíceis do ano para mim. Quando eu era criança, era mesmo devastador. Hoje, adoro ver as homenagens nas redes sociais, fico emocionada com a relação dos meus amigos com suas mães. Mas também me sinto muito sozinha, injustiçada, desamparada. Sentimentos irracionais, mas ainda assim, reais.
Não tenho muitas lembranças da minha mãe. Me lembro do sentimento de amar e ser amada por ela.
Aqui vai o que sei sobre ela: era extremamente sofisticada, tinha um olhar sensível para as artes plásticas, moda, decoração. Isso está impresso nas fotos: ela sempre estilosa, e eu sempre bem vestida, com acessórios e penteados que até hoje não sei replicar. Gostava de Tom Jones, The Carpenters e Belle & Sebastian. Tinha muitos perfumes e joias. Era linda e melancólica. Tinha facilidade em aprender línguas e foi professora de inglês na Cultura Inglesa. Era jornalista, trabalhava na área e também escrevia poemas. Fazia uma picanha no forno deliciosa. Não gostava que eu desenhasse com caneta Bic, só com lápis e lápis de cor. Reclamava quando meu pai me vestia para dormir com o pijama descombinando: short de um conjunto, camiseta do outro. Tinha um gato branco quando era adolescente, que se chamava Mimi. Adorava estudar filosofia e astronomia, ambos os temas que também muito me interessam.
Detalhes colhidos ao longo dos anos, em conversas com a família, com quem a conheceu. Assim, vou montando o quebra-cabeça da minha identidade, para entender quais hábitos, comportamentos, gostos e formas de viver herdei dela, e quais são intrinsecamente meus (sei muito bem o que veio do meu pai).
Quando minha vó estava grávida da minha mãe, o óvulo que me originou já estava lá, dentro do ovário dela. Minha vó foi morada, de certa forma, para mim também.
Nunca moramos perto. Sempre oito horas de estrada nos separaram, eu em São Paulo, ela em Juiz de Fora. Hoje, nove horas de voo. Quando eu era criança, minha vó era rígida e gostava de tudo em ordem. Eu era muito bagunceira, então sempre levava bronca. Levei anos para entender que ela se sentia na obrigação de me educar quando eu passava as férias lá, depois que minha mãe partiu. Após uma conversa difícil entre nós há alguns anos, compreendi, e o que poderia ter ficado como mágoa virou ainda mais amor.
Ela faz a melhor comida do mundo: bife à milanesa com farinha que ela mesma faz e tempera, arroz de limão, lasanha à bolonhesa, filé mignon no forno, farofa, camarão no bafo com maionese artesanal, brigadeiro, bolo de nozes, bolo de açúcar mascavo, entre muitos outros pratos com gostinho de casa. É artista: pinta porcelana com delicadeza, suas clássicas florzinhas coloridas, e sempre presenteia os netos com aparelhos de café, jogos de chá, vasos, conjuntos de pratos pintados por ela. Nos falamos todos os dias pelo WhatsApp e toda semana me envia foto dos seus gatos, Brigitte e Espiga, seus fiéis companheiros.
Ela é doce, divertida. Adora um choppinho na hora do almoço e uma taça de vinho à noite. Tem personalidade forte e, às vezes, comenta sobre determinada pessoa: “Heleninha, não vou com a cara dessa daí, não”. Ela é resiliente: mesmo tendo vivido muitas perdas – a última, meu avô, há oito anos -, segue firme, bem-humorada, vivendo com alegria. Há uns meses, perguntei qual era o maior aprendizado após oitenta e cinco anos neste planeta. Ela pensou um pouco e me disse: precisamos ter vontade de viver.
Construímos uma relação muito forte e bonita ao longo dos anos, principalmente depois que minha mãe morreu. Minha vó, mãe da minha mãe, que provavelmente ensinou a ela a maior parte das coisas – e, por extensão, a mim também -, é o maior motivo para que eu retorne ao Brasil com certa frequência. Amo ouvir suas histórias, ver as fotos antigas, compreender de onde vim. Sempre damos muita risada juntas, e às vezes, choramos. Ela é, para mim, a metade que restou da minha mãe, e nela a vejo e sou vista.
Todos os textos de Helena Ruffato estão AQUI.

