
Parece clichê manifestar júbilo na data reservada ao Dia das Mães tecendo cânticos de loas e palmas. Claro que, para além do lugar comum e do mercantilismo do evento, essa data também pode significar resistência e reconhecimento. Não no sentido da canonização tardia daquelas que convivem amorosamente conosco no cotidiano da vida, bem como das que já não mais estão entre nós. Pode ser na direção da justa medida. Na homenagem a uma fêmea que se faz mulher e mãe na trajetória de sua existência.
Eu não tenho a intenção de produzir mais uma página elogiosa, pois sei o quanto as palavras são limitadas para expressar com objetividade os afetos que atravessam nossa vida. Mas, permitam-me começar falando da mulher que se fez minha mãe com galhardia e coragem. Uma mulher modesta, com qualidades e limites como toda pessoa humana. Apesar do muito sofrimento que experimentou, era uma pessoa sempre alegre. Eu fui o quarto de oito filhos. Nasci de oito meses e exatamente na data do aniversário de três anos de minha primeira irmã. Dizia mamãe que, de tão feio, eu fazia vergonha. Porém, esse era um traço de sua sinceridade a toda prova. Muito cedo foi abandonada pelo marido e criou os filhos na labuta, costurando noite e dia em máquina de costurar de pedal. Foi mãe e pai. Sempre guerreira.
Depois do falecimento de minha mãe, eu teimo em buscar um espaço de morada dela em meu corpo. Um lugar físico. Algo simbiótico, já que habitei no seu ventre por algum tempinho; gosto de pensá-la morando em mim. Eu encontrei o destino de minha busca no umbigo. O ônfalo é a cicatriz deixada pelo corte do cordão umbilical após o nascimento, funcionando como uma marca da nossa dependência física de outra pessoa durante a prenhez. Na gestação, é o canal de conexão mãe/filho. Talvez, por isso, enterrar o umbigo seja, para alguns povos, uma tradição cultural que simboliza ancestralidade e, para outros, prosperidade. Mas o fato é que, já em minha avançada faixa etária, quando quero entrar em sintonia com ela, eu a encontro em meu umbigo. Eis o símbolo físico de nosso pertencimento um ao outro. Afinal de contas, Winnicott, ao destacar que entre mãe e filho existe uma “unidade inseparável e simbiótica”, defende que “não existe bebê sem uma mãe”.
Eu não compreendo que o destino da mulher seja a maternidade. Aceito tranquilamente que existam mulheres que encontrem motivações existenciais profundas para a vida sem o imperativo de parir ou cuidar de crianças. A maternidade é uma opção. Está para além da gravidez, da gestação e do conceber ou criar filhos. Ela participa, eu acredito, do mesmo processo do tornar-se algo ou alguém. Por exemplo, tornar-se mulher, tornar-se mãe. Por isso, não creio que a maternidade tenha como condição o gestar e parir. Mãe é relação, é fazer-se no cotidiano, na tensão e na liberdade, nos limites psicológicos e nas qualidades existenciais. Mas nunca deverá ser uma renúncia de si, uma negação de seus afetos e desejos.
Minha mãe não era muito diferente das Marias nossas de cada dia: sofridas, batalhadoras, corajosas, resistentes. Era diferente porque era minha mãe! Como tal, tinha a soberania da maternidade, esbaldando-se no amor feito oblação. Sinto uma ternura grata pelo privilégio de ela continuar existindo em mim. Como Severinas, ou Sebastianas, ou Franciscas… recorda a personagem eloquente que Gorki concebeu em seu livro “A Mãe” (1907). Uma mulher, de “existência apagada e silenciosa […], quando era vivo o pai, quando ela vivia na espera angustiante das pancadas”. No livro, o autor nos emociona ao narrar a trajetória de Pelaguia Vlassovna, que passa de uma mulher oprimida e analfabeta a uma militante revolucionária, forjando, assim, uma consciência política ativa na luta.
Helena Sut (2005) reflete que “o título e a atuação da protagonista no romance ensejam uma crônica especial sobre o papel das mães na construção da história. As mães da Praça de Maio, as mães dos soldados mortos em combate, as mães dos grandes líderes, as mães dos grandes mártires”. Parece claro que todas elas foram apagadas com a naturalização do apagamento das mulheres, da negação de seu protagonismo e força na construção das nossas vidas.
A cultura as reduziu ao arquétipo da mulher dócil e servil. Alguém sempre “atrás” de seus valorosos companheiros. Conceberam na “Virgem Maria” o modelo da maternidade incondicionalmente devotada à vida do seu filho. Esqueceram de propagar que essa mesma Mãe Maria, tão decantada, foi corajosamente a mulher que liderou doze homens medrosos e escondidos após a execução de seu líder. Não obstante, a tradição preferiu retratá-la como uma mulher abnegada. Tal abordagem tornou-se comum no início do século XX, em que o valor da mulher estava intrinsecamente ligado ao sacrifício pessoal. Assim, exalta-se a figura da mãe que se anula em prol dos filhos, reforçando a centralidade do varão na condução da vida humana.
Não imagine, minha amiga leitora, meu leitor amigo, que estou banalizando ou secundarizando a figura materna. Por experiência de filiação, sei o quanto ela é sublime e fundamental em nossas vidas. Recordo-me de uma frase de Tomás de Aquino que gravei desde a adolescência: “é mais próprio da caridade querer amar do que querer ser amado”. Acredito que as mães praticam um amor que transcende a justiça e transborda gratuitamente. Um amor gratuito; porém, sofrido. Sem sentimentalismo. Pode ser por isso que Zeca Veloso cante tão docemente que “todo homem precisa de uma mãe”. Mas não confesso ser compulsória a maternidade, porque alinho-me à concepção de que é necessário respeitar os direitos das mulheres no assenhoreamento de seu corpo e de sua vida.
Deleuze corrobora no entendimento de que a maternidade não é essência ou destino, mas produção existencial e histórica. Foucault nos ampara na proposição de que ser mãe é constituir-se na relação; evidencia-se um movimento de devir, no qual os sujeitos se fazem nos encontros e nas experiências, recusando identidades fixas. Ao mesmo tempo, a problematização das expectativas sociais que pesam sobre os corpos femininos revela o modo como discursos e práticas instituem normas que regulam o que se entende por mulher e maternidade; por fim, ao negar a maternidade como imperativo, reafirma-se que não há natureza que determine o feminino, mas processos de construção atravessados por liberdade, cultura e escolhas, como nos ensina Beauvoir.
Chico Buarque e Augusto Boal compuseram, em 1976, a música “Mulheres de Atenas”, para integrar a peça Lisa, a Mulher Libertadora. Na música, propiciam uma concepção mordaz e satírica da condição feminina. Tal visão se conecta exaustivamente com a perspectiva de uma maternidade compulsória e altruísta, própria de um androcentrismo impositivo.
Surpreende que a crítica social contemporânea não coloque o afeto em pauta, mas sim a instituição da maternidade, que ainda opera sob lógicas de sobrecarga e invisibilidade. Basta analisar os casos ocorridos em Recife e Goiás, quando crianças entre nove e treze anos foram estupradas. A sentença proferida por magistrados em órgãos de segundo grau de jurisdição causou absurda polêmica, sem que fossem levadas em conta as condições emocionais e físicas das crianças para parir. Além disso, a maternidade continua sendo vista como empecilho para as mulheres no que se refere ao mercado de trabalho. Outrossim, parece necessário discutir corajosamente a questão das mulheres trans, reconhecendo seus direitos à maternidade (adoção, barriga solidária, lactação induzida), bem como de homens trans que podem gestar e parir. O acolhimento médico e a luta contra o preconceito são desafios centrais.
É inegável a necessidade de celebrar e honrar, no dia a dia, aquelas que nos deram a vida. Eu, particularmente, não tenho uma palavra que traduza a infinitude do meu amor por aquela que me concebeu e o reconhecimento afetuoso por todas as mulheres mães. Contudo, muito mais que homenagens afetuosas, elas carecem de respeito e dignidade. Precisamos recolocar a questão como possibilidade biológica e existencial. É necessário entender maternidade muito além de condição compulsória, valorizando o afeto e a construção de vínculos. Questionando os papéis consagrados pela cultura eminentemente masculinizada. Se não entendermos e nos mobilizarmos na defesa dos direitos das mulheres, de pouco adiantará comovidas saudações em festas que celebrem a maternidade.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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