
Uma pesquisa revelou que homens chamados Chris ou animais falantes têm mais probabilidade de serem protagonistas de filmes do que mulheres mais velhas.
Essa pesquisa foi feita a partir da análise dos 100 filmes de maior bilheteria entre os anos de 2023 e 2025, em que foram encontrados mais atores chamados Chris como protagonistas do que atrizes com mais de 60 anos.
Ainda de acordo com essa pesquisa, da campanha Age Without Limits, os filmes têm quatro vezes mais probabilidade de apresentar um animal falante como personagem principal do que uma atriz com mais de 60 anos.
De curiosa, dei uma olhada nos 25 filmes de maior bilheteria no Brasil em 2025. Neles também não descobri nenhum com atriz protagonista com mais de 60 anos. Mas vários de animação e com animais, como Lilo & Stitch, Rei Leão (Mufasa), Smurfs, Moana, Sonic. Os demais filmes possuíam protagonistas masculinos, como Superman, Minecraft, Missão Impossível, Conclave, entre outros. Com protagonismo feminino, porém com menos de 60 anos, teve a honrosa exceção de “Ainda Estou Aqui”, com a nossa talentosa Fernanda Torres.
Um outro estudo, conduzido por acadêmicos da Escola de Cinema, Mídia e Design da Universidade de West London, descobriu que personagens femininas com 65 anos ou mais tinham três vezes menos probabilidade de aparecer em filmes britânicos na última década do que homens da mesma faixa etária. Também foi constatado que personagens femininas com mais de 50 anos falavam 14% menos do que homens mais velhos na amostra de filmes analisada pelos pesquisadores.
Os pesquisadores também descobriram que personagens femininas mais velhas, empoderadas, ativas e complexas eram raras, sendo muito mais comum que mulheres mais velhas fossem retratadas como passivas, dignas de pena, ridicularizadas por não se comportarem de acordo com a sua idade e, muitas vezes, irrelevantes para o enredo principal.
Vemos nas telas o reflexo do idadismo, com a intersecção do sexismo, que existe no cotidiano. Quando mulheres são relegadas a papéis secundários, quando não inexistentes nos roteiros, ou ainda pior, apresentadas como as bruxas más ou bonecas “Barbie”, figuras caricatas, dependentes dos homens para tomar suas decisões, inseguras, loucas, incompetentes, desequilibradas.
A indústria cinematográfica, juntamente com a mídia, a publicidade e a televisão, exerce enorme influência sobre a forma como percebemos certos grupos de pessoas, ajudando, ou não, a perpetuar estereótipos que alimentam nossos preconceitos. Quando a linguagem e as imagens usadas sobre o envelhecimento e as pessoas idosas na sociedade são predominantemente negativas, a forma como somos representados no cinema torna-se absolutamente importante.
Claro que, para muitas de nós, essas descobertas não serão nenhuma surpresa. Sabemos que as mulheres mais velhas sofrem uma “dupla camada” de tratamento negativo devido à combinação da idade e do gênero, sendo o envelhecimento feminino visto de forma mais negativa do que o masculino.
Esse “desaparecimento” das telas, essa falta de representatividade, reforça a ideia de que as pessoas idosas importam menos à medida que envelhecem. Não é de se admirar que tantas mulheres falem sobre se sentirem invisíveis ao envelhecerem, quando não se veem representadas na cultura popular ou na publicidade.
Pesquisas da campanha contra o preconceito etário, promovida pela instituição “Centre for Ageing Better”, revelam um desejo por mais filmes protagonizados por atrizes mais velhas. Mundialmente, as mulheres compõem 50% da população acima dos 48 anos e dominam expressivamente as faixas etárias mais avançadas, em grupos como centenários, elas chegam a representar cerca de 80% do total. O que impede de nos representarem como realmente somos na sociedade?
É correto afirmar que isso não acontece apenas no cinema, na publicidade e na mídia em geral. Em diversos setores do mercado de trabalho, em diferentes esferas da vida pública, a contribuição das mulheres mais velhas é minimizada, marginalizada e ignorada.
Todos nós devemos lutar contra o idadismo e sua interseção com o sexismo, dizendo que queremos que todos os aspectos e fases da vida sejam representados naquilo que assistimos, ouvimos e lemos.
Como declarado pela atriz vencedora dos Óscares, BAFTA e Globo de Ouro, Emma Thompson, que questiona onde estão todas as histórias sobre mulheres mais velhas: “As mulheres representam metade da população e envelhecemos. Então, onde estão as histórias sobre nós? Quanto mais velhas ficamos, mais interessantes nos tornamos. Quero ver mais filmes com mulheres maduras como protagonistas; somos cativantes, nos identificamos com elas e já passou da hora de ocuparmos o centro das atenções. Mulheres mais velhas não precisam de permissão para existir na tela. Elas já existem no mundo, o cinema só precisa acompanhar.”
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.

