
Atuar em áreas em que o governo não chega. Mais que isso, proporcionar um encontro de pessoas de diferentes extratos sociais, ampliando a conscientização sobre as desigualdades brasileiras. Essa é uma simplificação do que faz a TETO, uma organização da sociedade civil que tem mobilizado milhares de voluntários para a construção de casas em periferias em várias partes do mundo e do Brasil.
O trabalho promovido pela ONG trata várias camadas da vulnerabilidade, com ações práticas de adaptação à emergência climática, proporcionando mais dignidade para quem não tem um lugar em condições mínimas para morar. E tudo isso movido a um voluntariado formado principalmente de gente de espírito jovem de vários lugares do mundo. A organização foi fundada no Chile e vem fazendo a diferença em alguns estados brasileiros, como Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco.
O Rio Grande do Sul entrou na mira da TETO desde o desastre climático recente. Assisti a uma apresentação feita pela Flávia Cardoso, representante da TETO no Estado, no 1º Seminário Internacional Comunicação de Risco e Cultura do Cuidado, no qual escrevi um brevíssimo relato sobre a participação da organização (saiba mais aqui).
No evento, estivemos na sede do Quilombo dos Machado, que foi erguida pela TETO e que hoje é ponto de cultura e de iniciativas para a comunidade. “Queria que todas as sedes que já construímos fossem tão bem usadas como a do Quilombo dos Machado”, revela a engenheira sanitária.
Rogério Machado, o Jamaica, conheceu a organização durante o desastre de 2024 na Ilha da Pintada. Recentemente, ele esteve no I Fórum Brasileiro de Moradia e Clima, em Brasília, trocando experiências, pois no espaço no Sarandi ocorrem aulas, oficinas, ações de saúde coletiva, diversos tipos de atividade que beneficiam a população. A sede foi viabilizada com apoio da Companhia Azul.
Para abrigar os voluntários que vêm para trabalhar, a Teto conta com o apoio da Escola Municipal Liberato Salzano Vieira da Cunha, que serve como ponto para carregar as baterias do voluntariado. Lá, o pessoal fica hospedado os dias necessários para a realização das obras. Flávia reforça que o desastre de 2024 ainda não acabou.
A voluntária Ana Julia Dorneles, 22 anos, estudante de Relações Internacionais da UFSM, é uma das voluntárias que participou da construção de casas em abril deste ano na Vila Nazaré, no bairro Sarandi, em Porto Alegre. Ela integrou a equipe juntamente com outros participantes daqui e de outros estados, como Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. Ela ficou sabendo da iniciativa por uma postagem de uma amiga em uma rede social. Em abril, 60 voluntários se dividiram para erguer três casas.
Ana Julia revela o quanto o mutirão em forma de imersão é intenso, envolvendo gente em uma energia vibrante. O pessoal dorme na escola, levanta, toma café da manhã e retorna no final da tarde todos os dias. Para ela, essa experiência ampliou sua visão de mundo. Ana Julia conta que não tinha ideia das faces da desigualdade, pois, mesmo estudando sobre o tema na faculdade, ela nunca tinha tido contato com situações que expusessem a pobreza de uma forma tão tocante. Depois da vivência, ela se considera uma privilegiada. “Estar no meio dessa população, vendo criança de pé descalço direto na terra em dia frio, deu para entender a realidade bem de perto,” desabafa a moradora de Santa Maria.
Ela agora está ajudando a divulgar a próxima empreitada, que será de 23 a 26 de julho para a construção de 15 casas. Ela adianta que, nos dias 17 e 18, terá um encontro para pré-logística e que virá gente de outros lugares para se dedicar a essa tarefa. Ela informa que, dessa vez, as casas serão feitas com banheiro, o que é uma novidade para a organização.
A TETO tem uma metodologia própria para a atividade. O foco é principalmente substituir casebres sem janela. As equipes são divididas em áreas de atuação. Mas, antes disso, há componentes que já fizeram o contato com a comunidade e mapearam as necessidades do local.
Os participantes podem exercer vários tipos de serviço, desde colocar a mão na massa da própria construção até fazer comida e cuidar de tarefas da comunicação, como fazer registros, publicar nas redes sociais etc. Tem gente que já se programa para participar sempre dos mutirões. Ana Júlia participou das atividades de comunicação, porque é a área que mais gosta.
Depois que a gente vê o quanto há gente dedicada em deixar o mundo um pouco melhor, diante de tantos desafios, sinto uma vibração contagiante para querer que mais gente saiba da existência de projetos assim. E, quem sabe, queira fazer parte dessa iniciativa que vai fazer a diferença na vida de tanta gente. Confira mais no Instagram da TETO. Que tal ajudar a construir moradias dignas e espalhar esperança? Ainda dá para se voluntariar, bora?