
Analisar distintos ângulos daquele maio da inundação em Porto Alegre tem me possibilitado descobrir lados de uma cidade que desconhecia. Mais que isso, aquele fatídico desastre de 2024 merece ser esmiuçado para que nos demos conta do quanto tanta coisa precisa ser desvelada.
Na quinta, dia 28, alguns “privilegiados”, inclusive eu, saímos do nosso circuito habitual, daquelas quatro linhas em que encaramos os jogos do cotidiano, ao conhecer iniciativas de parte da Zona Norte da Capital gaúcha. O terceiro e último dia do 1º Seminário Internacional de Comunicação de Risco e Cultura do Cuidado, foi em Sarandi, bairro altamente afetado pela enchente.
Teve uma programação tocante, que começou com palestras, que fizeram parte do Seminário de Movimentos Sociais, depois um almoço no Quilombo dos Machado, apresentação de uma esquete teatral produzida por alunas e encerrou com um debate com jornalistas, entre outros profissionais, o que provocou muita interação intensa com a plateia na Escola Municipal Liberato Salzano Vieira da Cunha.
Quando saímos do nosso cercadinho em que estamos acostumados a circular, percebemos o quanto nossa cultura, ditada pela mídia e pelos algoritmos das redes sociais, repleta de detalhes empoeirados e atolados em preconceitos, nos deixa míopes diante de outras realidades.
O auditório da Escola Liberato foi palco de demonstrações de iniciativas que evidenciam o quanto a interação entre a academia e as comunidades do bairro e da escola estão desenvolvendo projetos em conjunto que se retroalimentam. Pela manhã, professores da instituição apresentaram o trabalho que vêm fazendo no Espaço Educativo Afro-Brasileiro e Indígena (EEABI) Maria Olmira Machado. Essa denominação é uma homenagem à matriarca do Quilombo dos Machado, uma liderança que permanece como referência para as ações de valorização da história e da cultura afro-brasileira.
O professor Paulo Sérgio da Silva, vice-diretor da escola, explica que o EEABI é um espaço de promoção de Relações Étnico-Raciais, em conformidade com a Lei nº 10.639/2003 e demais normativas que orientam a educação antirracista no Brasil. A proposta realiza práticas pedagógicas que valorizam as histórias, culturas e contribuições dos povos africanos, afro-brasileiros e indígenas, contribuindo para a construção de uma educação comprometida com a diversidade e a justiça social.
Ele observa que a escola está seguindo o que prevê, especialmente, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola. Ao mesmo tempo, a concretização dessas diretrizes depende do engajamento dos profissionais e da comunidade. Nesse contexto, a atuação dos professores em práticas de educação antirracista merece muitos aplausos. E foi isso também que pavimentou o caminho para que essa rica programação fosse viabilizada.
Pela manhã, professores da Sociologia da UFRGS contaram a experiência do Grupo Terra, que atua para que os direitos dos quilombolas sejam cumpridos. Uma das ações durante o desastre de 2024 foi viabilizar, via Ministério Público e Defensoria Pública, que esses territórios atingidos pelas águas fossem assistidos. Também teve o relato da organização TETO, que mostrou o processo de construção do centro comunitário do Quilombo dos Machado. A ONG mobiliza mutirões de voluntários para erguer casas em poucos dias. Ou seja, a programação conectava uma atividade a outra, chamando a atenção para o quanto a vontade e o empenho das pessoas podem fazer a grande diferença.
O almoço no Quilombo contou com uma forte participação da comunidade, foi outro atrativo. Vale conferir os registros no meu Instagram (clique AQUI). O líder comunitário Rogério Machado, o Jamaica, filho da dona Olmira, recebeu os visitantes, resgatando a história do território, uma das maiores comunidades quilombolas do Brasil em número de pessoas, com 1.623 moradores distribuídos em 243 famílias. Jamaica contou sobre o protagonismo do Quilombo e afirmou que Porto Alegre é a Capital com a maior concentração de quilombos urbanos, em áreas densamente povoadas. Mostrou inclusive os logos de cada quilombo pintados no muro da sede.
À tarde, Jamaica conduziu o grupo para conferirem a situação do bairro. Conferimos casas ocas, restos de construções, o dique que fora rompido e também de como a comunidade tem superado tudo que atravessou. A experiência evidenciou que soluções eficazes podem emergir de processos de cocriação entre segmentos da sociedade que historicamente funcionam separados, fortalecendo redes de solidariedade, pertencimento e o bem comum.
À noite, as estudantes do Magistério representaram situações que passaram durante o desastre em uma esquete teatral. Também compartilharam reflexões e aprendizagens construídas ao longo das oficinas, abordando situações vivenciadas pela comunidade em contextos da crise, quando o bairro foi atingido pelas águas. A encenação destacou temas como acolhimento, cuidado coletivo, solidariedade, combate às fake news, organização comunitária, voluntariado e a busca por soluções para problemas comuns enfrentados pelos moradores em situações emergenciais.
Outro aspecto marcante do evento foi a valorização das informações comprometidas com a verdade, com a escuta e com a responsabilidade coletiva. Em um cenário atravessado pela desinformação, o seminário reafirmou a importância do diálogo qualificado e da construção compartilhada do conhecimento. Para o vice-diretor Paulo, as reflexões produzidas ao longo das atividades demonstraram que a cultura do cuidado não se limita a um conceito teórico, mas se concretiza em práticas de acolhimento, participação e cooperação. O professor afirma que, “por sua consistência, relevância e impacto social, consolidou-se como uma experiência potente, resiliente e transformadora, e sua continuidade é fundamental para o fortalecimento das relações entre educação, comunidade e universidade”.
O 1º Seminário Internacional sobre Cultura do Cuidado e Comunicação de Riscos, foi realizado pelo Grupo de Pesquisa Cuidar_Com, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCom) da PUCRS, em parceria com a Escola Municipal de Educação Básica Doutor Liberato Salzano Vieira da Cunha e a Cátedra Fulbright da PUCRS, com apoio da CAPES, FAPERGS e SECOM/RS.
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