
Alguém disse: “Quando estiver atravessando o inferno, não pare”. Digo alguém porque não há autoria confirmada. Muitas coisas não se confirmam. É bem ilusória a ideia de acontecimentos e coisas definitivas e também é bastante inspiradora. A gente vive para acreditar. Em quê, por quê, com que fim? Cada um tem suas respostas, ainda que algumas sejam coletivas. Ou quase. De vez em quando, todas parecem solitárias, como nós em nossos dias de queixas e problemas. Dias que vão e vêm e anoitecem em longos e dramáticos pesares. Por vezes, irados.
Cólera é o primeiro vocábulo da Literatura Ocidental. Talvez venha a ser o último. Gosto da palavra “talvez”, com seu poder de abraçar possibilidades e derrubar enganos. Quem nunca se enganou, que atire a primeira certeza! Um bocado das minhas caíram feito o Império Romano. Pouco a pouco, é claro, tanto no Ocidente quanto no Oriente desse meu espírito giratório e em sintonia também com ruas ladrilhadas de paraíso. Ninguém disse, então, digo: vale para ele o que vale para o inferno: mantenha-se em movimento, aprecie os passos. Acolha. Vá à Roma de seu coração.
“Todos os caminhos levam a Roma”. Em nosso idioma, de trás para frente, Roma se transforma em Amor. Eu tenho adoração por ambos. Nunca vi cidade igual. Nem quero. Mas gostaria que essa, em que moro, se parecesse um pouco com ela. Se Porto Alegre tivesse mais meia dúzia de ruas iguais à Borges de Medeiros, com seu viaduto de fotografias e escadarias de conversas, ela seria uma metrópole, pensamos, o Eloar Guazzelli, que há séculos a desenha, e eu.
Eu estou viva há séculos. Milênios. Aqui em casa o que mais existe é o tempo. Tempo de Safo. De Raduan Nassar. Rupestres. Arcaicos. Contemporâneos. Tempo de ser adulta e de ser uma escritora independentemente de qualquer rótulo de gênero, rabiscando minha órbita de labirintos. Agrada-me minha própria circunstância de poeira cósmica. Diminui a gravidade de minha condição humana. Aumenta o meu sorriso, outros sorrisos. Todos os sorrisos são a minha Via Láctea, meu Cruzeiro do Sul. My soul. I miei sogni.
A Vida é Sonho, escreveu o barroco Calderón de la Barca há uns quatrocentos anos atrás. “E eu, que tenho mais alma, tenho menos liberdade?”, ele fez Segismundo, seu protagonista, se perguntar. “Mereces lo que sueñas”, insisto em dizer em meus textos. Sou insistente. Um infinito…