
É fato: estando no ambiente, uma criança se estabelece como o umbigo do universo. Potência inversamente proporcional à sua quantidade de anos: quanto menos primaveras, mais volume de poder.
Confiante e determinada, a menininha surgiu no saguão, destacando-se dos adultos integrantes da quase multidão que por ali transitava. Liderando seu séquito, adentrava de mãos dadas à elegante senhora septuagenária, cortejo composto ainda por uma airosa jovem adulta que gerenciava excursão e as muitas e grandes bagagens desembarcadas: respectivas avó e mãe mobilizadas. A miúda (como apropriadamente dizem os locais) foi a que, chegando, gozou dos mais efusivos e entusiasmados cumprimentos, sem, para tal, fazer grandes esforços de disponibilidade: estava cansada da longa viagem, das enfadonhas horas de voo.
Chegando ao hospitaleiro local de destino, lhe esperava refeição à mesa, portando itens de sua preferência, previamente consultados e articulados entre os staffs, cuja outra parte era formada pelos tios que estavam passando uma temporada na região. Há algumas semanas (tempo que, relativo aos seus três anos de idade, corresponde a um percentual significativo da existência), havia abolido papinhas e caldos: insiste em se alimentar via comida de panela Porém, não deslumbrada com a culinária representativa que lhe foi apresentada, interessou-se por triviais coxas de galinha. Ocorrência que instigou o grupo receptor a oportunizar sempre à mesa essa alternativa. Abocanhava-as sem cerimônias e obséquios.
Ao transcurso dos turnos do dia, traja indumentárias distintas, harmonizando a demanda por agasalhos à temperatura de fim de inverno com as mais atuais tendências da moda: vestidos, saias e leggings, fossem de moletom ou lã, escolhidos dentre o leque de opções antecipadamente constituído em função do seu gosto.
A certa altura, ambientada, desprende-se das amarras formais: já não atendia à mão estendida da distinta senhora. Para apreensão da maternal administradora e demais adjuntos, partia em disparada na direção que lhe apontasse o nariz.
A aproximação às aceleradas avenidas, as saudações e sorrisos aos mais completos estranhos, passos de dança em pleno logradouros públicos (sem que alguma música estivesse tocando), punham em polvorosa os assistentes. Quando a disparada evoluía para uma veloz corrida de trajetória tão incerta quanto a de um estourado balãozinho de festa, todo o personnel se distribuía em alvoroçado espaçamento, tentando adivinhar seu perfazimento.
Aclimatada, começou a dispensar as roupas mais aquecidas: largou o casaquinho e a legging, confortou-se com a blusinha de cetim e a saia de crepe, enquanto os seus não dispensaram, sequer, o cachecol. A disposição em comer também se revestiu do espírito de rebeldia: não mais aprazia nada que lhe ofereciam, nem a promessa das referidas partes dos galináceos lhe seduzia; satisfez-se, feliz, com um pacote (duzentas gramas) de Elmachips.
Retornando à hospedagem, iniciou o verdadeiro show: tomando o controle remoto da TV como microfone, cantou, dançou e interpretou letras, músicas e dramas absolutamente desconhecidos para a plateia assistente: ciência desnecessária diante do apreço à performance.
Ao fim do que se anunciava como ainda o primeiro ato, reconfortada no sofá, aprecia, sem modéstias, os efusivos elogios enquanto espera algo como um achocolatado amorangado ser preparado pela genitora. Requesita uma ligação, de vídeo, para o pai, que não pôde vir daquela vez.
Adormeceu antes do leitinho transindustrializado chegar.
O cosmo retomou sua dinâmica orbital corriqueira. Pouco tempo depois, os adultos foram dormir, embalados pela suave sensação de que, no outro dia, seriam regidos por outra estrela.
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