
Me chamo Nelson Beron — ou simplesmente Nelsinho, como carinhosamente sou chamado pelos amigos e por aqueles que se aproximam de mim. Talvez isso aconteça pelo meu jeito de ser: próximo, acolhedor, inquieto e incapaz de distinguir pessoas pela condição social, posição ou origem. Sempre acreditei que o verdadeiro desenvolvimento começa quando enxergamos todos como parte da mesma cidade e da mesma humanidade.
Faço parte de um movimento plural, provocador e movido pela busca incansável por mudanças. Mudanças que, muitas vezes, acontecem lentamente; em outras, aceleradas pela coragem daqueles que decidem agir. Desde 2019, integro o POA Inquieta. E foi ali que encontrei algo raro: um espaço onde ideias não apenas circulam, mas ganham força, propósito e direção.
Durante muitos anos, busquei uma estrada que me levasse ao lugar onde eu realmente gostaria de estar — um ambiente onde pudesse expor minhas ideias, ouvir diferentes visões e, acima de tudo, construir coletivamente. No POA Inquieta, encontrei essa terra fértil. Um espaço de escuta, debate e ação.
Muito do trabalho que desempenho hoje, assim como inúmeros projetos e programas que idealizei ao longo da minha trajetória pública, nasceram dessas rodas de conversa, dos conselhos compartilhados e da capacidade de conectar experiências reais com as inquietações que sempre fervilharam em minha mente. É como se a inquietude encontrasse paz justamente no movimento de continuar inquieta.
Não me interpretem mal: inquietude não significa desordem. Pelo contrário. Significa inconformismo diante das desigualdades e coragem para enfrentar problemas históricos das cidades brasileiras. Hoje, trabalhamos coletivamente com foco no urbanismo social e na transformação dos territórios. E já conseguimos um avanço importante: mudar a mentalidade de alguns governantes para essa perspectiva.
Uma cidade que realmente progride, inova e se transforma é aquela que cuida, prioritariamente, dos territórios mais sensíveis e das pessoas menos favorecidas. É aquela que abre portas para que milhares de cidadãos consigam enxergar um futuro para além das grandes avenidas que cercam suas moradas.
É acolher a mãe que sofre pela falta do leite para o filho. É abraçar a criança que chora pela ausência do brinquedo, da oportunidade e da esperança. É estender a mão ao pai que, muitas vezes, desiste por não conseguir trabalho e dignidade. Transformação social não acontece com discursos vazios ou medidas imediatistas. Ela exige planejamento, continuidade, investimento coerente e, principalmente, desenvolvimento humano.
Por isso, sempre digo:
“Se investirmos na periferia, as sinaleiras dos bairros nobres serão bem menos perigosas.”
Diferentemente de muitas capitais brasileiras, Porto Alegre possui uma ampla rede de apoio social. Uma rede construída por diferentes mãos: poder público, terceiro setor, iniciativa privada e movimentos sociais. Essa corda social fortalece nossa cidade e consolida importantes políticas de atendimento socioassistencial, educação, esporte, cultura e proteção humana.
O grande desafio agora é integrar essa rede de maneira definitiva, fazendo com que a oferta dos serviços públicos dialogue verdadeiramente com a demanda de quem mais precisa. Precisamos construir políticas públicas integradas, contínuas e permanentes — independentemente dos governos e correntes ideológicas que passem pela administração.
Na assistência social, fizemos nossa parte. Atendemos mais de onze mil crianças, jovens e idosos, garantindo direitos, protegendo vulneráveis e promovendo caminhos de independência social para aqueles que acessam nossos serviços. Mas ainda podemos ir mais longe. E devemos.
Há anos defendo, de maneira firme, a construção de um verdadeiro “Pacto Social por Porto Alegre”. Um pacto que reúna mais pessoas inquietas, mais lideranças comprometidas e mais cidadãos dispostos a provocar, de forma responsável, as transformações que nossa cidade necessita.
Porque cidades não mudam apenas com obras. Cidades mudam quando as pessoas decidem se movimentar.
Nelsinho Beron é secretário adjunto de Assistência Social de Porto Alegre
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