
1 – Há quase uma semana a manhã demora a se abrir.
2 – A fumaça branca da cerração. Que podia ter uma versão com “s”.
3 – Em geral os erros de ortografia são tentativas de acerto contra certas travas do idioma.
4 – Respondem a um som que pode ser produzido por letras que na situação soam iguais. Exceção seria o exemplo clássico.
5 – E tantos outros exemplos que reproduziriam o som da fala. O que historicamente nos levou de “dolor” a “dor”, de “noctem” (acusativo latino de “noite”) a “noite”. Da mesma família, caso mais espantoso de contração sonora e posterior contração da escrita é o da palavra “ontem”. No latim havia “ad noctem” (a noite passada, anterior — no espanhol sobrevive el “anoche”, com o mesmo significado). Que maravilhoso trabalho de gerações e gerações de falantes de nosso idioma. Ontem.
6 – Mas queria falar de algumas alterações ortográficas que tentam dar conta de instantes de lucidez que a língua não capta, que seria o caso de um “s” em vez de “c” em cerração.
7 – Serração. O fechamento da visibilidade quando acontece na serra.
8 – Ou a trend nas redes que a Tainá me mostrou: pessoas dizendo que o plural de capivara deveria ser “capivárias”, para não perder uma oportunidade de trocadilho que o português proporcionava.
9 – São achados. Na fronteira do que a língua pode dizer, escrever e registrar, entre as experiências humanas e sua organização codificada.
10 – Nessa fronteira põem seus corações os poetas.
11 – E todos os poetas que não escrevem poemas, qualquer um que tenha percebido a fratura intransponível entre linguagem e mundo.
12 – Nessas pequenas e gigantescas questões ortográficas é possível perceber como uma letra acrescenta ou exclui um universo inteiro de associações.
13 – Enquanto escrevo, avança a manhã “serrada” em sua brancura gris. Dando uma sombra clara aos pinheiros e às araucárias. Um branco que escurece o verde.
14 – Branco. “Alvus”. Alvo, alvacento.
15 – Os poetas são produtivos. É que a natureza de seu trabalho é densa, mas de súbito se dispersa e some.
16 – Como a cerração.
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