
Brasília ferve. Hoje, sábado, 19 de setembro, antes das 10 da manhã, os termômetros já andavam pelos 30 graus. A unidade do ar não passava dos 35%. E a próxima semana promete aumento da temperatura e da secura, embora se aproxime a época de chuva aqui no Cerrado.
O sol é inclemente nesta época do ano. Qualquer nuvenzinha que apareça — daquelas que enfeitam o azul do céu como espuma e motivaram Lucio Costa a dizer que o céu é o mar de Brasília — dá algum alívio na secura e no calor.
Mas, enquanto nós, cidadãs e cidadãos comuns, contamos com a proteção das nuvens e com a sombra das mangueiras que se espalham por todas as vias da cidade, os políticos — não todos, mas muitos deles — não querem nem ouvir falar de nuvem. Não dessas nuvens que se formam a partir da evaporação da água.
É de outra natureza a intempérie que tem feito muita gente suar. Também não é o sol que torra os miolos e seca a garganta de muitas figuras (que pousavam de) importantes. O que assusta essa gente é a nuvem escura, ameaçadora, formada por mensagens gravadas num celular.
Esta cidade, como todo mundo sabe, é cheia de anexos. Os gabinetes dos senadores e deputados ficam em anexos dos prédios do Senado e da Câmara. Os ministérios têm anexos. O Palácio do Planalto tem anexo. A sala do vice-presidente da República fica no anexo do Planalto.
Aqui, até os presídios têm anexo. E um desses anexos já é mais famoso do que o prédio principal. É a Papudinha, anexo da Papuda, a prisão oficial do governo do Distrito Federal. Administrada pela Polícia Militar, a Papudinha — comparada com outros presídios — é quase um hotel 5 estrelas. Só vai para lá quem tem — ou pensa que tem — algum poder…
E o astro que atraiu tanta gente para a própria órbita não está lá no azul do infinito. Está num anexo aqui em Brasília. Numa cela da Papudinha. E todo dia, toda hora, deve pensar: pô! Cadê aqueles satelitezinhos que ficavam aqui ao meu redor, na minha sombra? Por que só eu estou aqui?
Daniel Vorcaro, o banqueiro picareta que conseguiu reunir na própria órbita — feito astro com força de atração — gente de todos os matizes políticos à custa de uns punhados de dólares, doses generosas de uísque Macallan 18, champanhe Veuve Cliquot e Don Pèrignon e charutos Cohiba, agora ameaça transformar a lembrança daquelas festas em ressaca de noitadas regadas a caninha e bebida quente…
A nuvem de mensagens do celular de Vorcaro está no ar… Todo dia, um raio sai de lá. Uma foto, um diálogo, um convite, uma cifra, um pedido de grana para um filme (no qual, por enquanto, Vorcaro não aparece nem nos créditos…).
Até quando Vorcaro vai ficar sob o mau tempo da prisão? Quando ele vai dissipar a nuvem que encobre as relações dele com tantos figurões e deixá-los expostos à tempestade do julgamento da opinião pública?
Essa instabilidade pode acabar no dia 4 de outubro. Até lá, a temperatura política vai subir e muita gente vai andar engolindo em seco… Há um pequeno risco de a nuvem do celular do banqueiro virar uma tempestade, liberando toda a energia negativa acumulada pelos satélites vorcaristas. Mas também há clima propício para a conjunção da vontade popular empurrar a nuvem carregada para cima da Papudinha e despejar lá tudo de ruim que Daniel Vorcaro atraiu desde que virou banqueiro durante o governo bolsonarista.
Cancha reta — aproveito que estamos na Semana Farroupilha. O páreo a ser corrido no dia 4 de outubro é mais que uma cancha reta de 100 metros entre um azarão (esse tal Dark Horse na língua dos trumpistas, criado a dólar pago por Daniel Vorcaro) e um puro-sangue nacional. O que vamos decidir no próximo dia 4 é se queremos manter o Brasil como um azarão, ou se vamos levar o país ao lugar dos vencedores.