
Ainda que isso pareça deslocado diante dos debates atuais no país, que podem levar à instalação da barbárie, para preservar minha saúde mental por alguns momentos, decidi retomar e atualizar algumas reminiscências de minha adolescência. Quem dedicou alguma atenção a esses textos sabe o quanto me impressionou assistir, no cinema, a Star Wars, em 1978. O menino pobre, que quase não saía de casa, encontrou no universo do filme um mundo ideal. Décadas depois, descubro que meu xará – Jorge e George, entenderam? – inaugura, amanhã, dia 22, em Los Angeles, o Lucas Museum of Narrative Art. Faço aqui meu primeiro furo de reportagem para esta plataforma, com a licença dos jornalistas. Pedi à IA Perplexity, a quem agradeço, que reunisse informações e fontes sobre o museu e sua história para este ensaio. Descobri que já havia muito material disponível antes mesmo da sua abertura oficial: o site do museu está no ar (veja aqui) e Lucas já realizou uma prévia para membros entre os dias 5 e 11 passados. Ele se diz um museu para todos, mas já nasceu elitista – e isso é parte do problema do qual quero falar.
Para quem, como eu, trabalhou durante anos com o que chamo de “museologia na pobreza”, produzindo exposições à base de banners na Câmara Municipal, poder visitar um museu que nasce como uma das mais ambiciosas instituições culturais privadas do presente parece ser imaginar o futuro dos museus. Mas aprendi com Virilio que tudo que se apresenta como novo também traz novos problemas. Para quem está por fora, o museu reúne aproximadamente 40 mil obras e documentos relacionados à pintura, à ilustração, aos quadrinhos, à fotografia, ao cinema, à animação, aos objetos de cena e à cultura visual. Para se ter uma ideia, nosso Museu Júlio de Castilhos possui cerca de dez mil peças reunidas em 124 anos. É verdade que o peso da carreira do cineasta conta: Lucas passou cinquenta anos construindo uma coleção particular a partir de sua filmografia. Para qualquer adolescente que, como eu, em janeiro de 1978, viu o filme quando estreou em Porto Alegre no Cinema Cacique, estar diante de algo relacionado ao filme era um sonho. Hoje, isso será possível. E não se trata apenas do acervo: o edifício, projetado por Ma Yansong, do escritório MAD, possui cerca de 27.900 metros quadrados, o equivalente a quatro campos de futebol. É um pouco maior que o Masp, mas não chega perto do Louvre, com seus 360 mil metros quadrados. Ainda assim, é um museu completo, com 35 galerias, jardins, biblioteca, cinemas e espaços de convivência. Você olha para ele e vê o universo de Lucas: ele parece uma… espaçonave!
Não sou do campo, mas…
Há colegas muito mais competentes do que eu para analisar sua arquitetura, como Cibele Figueira, ou para avaliar se o museu é competente naquilo que se propõe a ser – um espaço da arte narrativa -, como Carlos André Moreira. Eu sou apenas um velho comunista pecador, o que significa que, de vez em quando, tenho minhas recaídas capitalistas. Gostaria de ser um comunista melhor, dizer que sou fã de Solaris (1972), de Andrei Tarkovsky, mas a mente é fraca. Quero um mundo melhor, com justiça social e dignidade humana, mas me pego sequestrado por certos produtos da indústria cultural capitalista que envergonham o aspirante a revolucionário que eu gostaria de ser. Fazer o quê? É que fui fisgado muito jovem pela narrativa de Lucas. Sinto-me culpado pelas miniaturas de naves que tenho nas prateleiras de minha biblioteca, como a Millennium Falcon ou o caça X-Wing, que comprei pela internet. Tudo por culpa de uma história que tinha tudo e que fascinou o jovem que eu era e que não tinha nada.
Eu iria ao museu? Com certeza. Passaria por sua museografia… “babando”? Talvez. Imagino que, enquanto passasse por seus corredores, viria à mente a precariedade museológica que vivi. Nossos museus vivem às mínguas, sem recursos, com servidores mal remunerados e infraestrutura precária. Só fiz exposições na Câmara Municipal de Porto Alegre — e não foram poucas, foram cinquenta – porque desde cedo me acostumei à pobreza. Há algo mais barato para fazer uma exposição do que fazê-la em banners? Pior, comecei a fazer exposições no Museu Joaquim Felizardo nos anos 1990, quando nem dinheiro para banners tínhamos. Usávamos painéis com vidros removíveis e trocávamos o conteúdo, a exposição após exposição. Legendas? Impressões em papel sulfite. Fotografias? Em papel couchê. Às vezes, conseguíamos reproduções fotográficas com muito sacrifício junto ao gabinete de imprensa. Depois conheci as dificuldades do Museu Júlio de Castilhos e do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa. Verba para museus nunca foi prioridade dos governos, principalmente nos neoliberais. Na Câmara, só consegui fazer minhas exposições porque descobri que banners, considerados “outros serviços de terceiros”, podiam ser pagos com uma rubrica generosa. Aprendi a lançar o gasto nela. Mas sempre soube que faltava algo: o objeto. Paciência. Não posso olhar um museu do futuro sem olhar para o meu passado.
…talvez tenha algo a dizer
Nessa trajetória, meu objetivo foi fazer exposições que colaborassem com o trabalho dos professores nas escolas. É claro que tomei partido: organizei exposições itinerantes que criticavam o modo capitalista de ser e valorizavam nossa identidade e nossa cultura. Olho as informações disponíveis: a proposta de Lucas é interessante porque busca legitimar linguagens como quadrinhos, ilustração, cinema e ficção científica, às vezes consideradas inferiores pelos museus tradicionais. Mas, assim como eu sou uma pessoa contraditória, o empreendimento de Lucas também é. Sua contradição está em apresentar-se como universal e democrático, embora tenha nascido de uma coleção privada e de uma fortuna construída na indústria cultural. Por isso, há inúmeros pontos de vista para observar o Lucas Museum. Me arrisco com o meu.
Para alguns, ele amplia o conceito de museu. Para outros, é mais um monumento arquitetônico do que um empreendimento museológico. Há ainda os que o vejam como mais um produto da memória colocado no tabuleiro da luta urbana pela valorização imobiliária, cujo efeito é a promoção da gentrificação. É o meu ponto de vista. Basta olhar para os prédios de moradores e casas populares das proximidades que aparecem na foto que ilustra o ensaio. Eu diria que ele é um “tudo junto e misturado”, mas procurarei permanecer no meu campo: o da memória. Quero frear um pouco meu lado fã para compreender as relações que organizam o museu, sua forma e sua presença urbana. Se o capitalismo reserva um lugar para os museus em sua lógica, ela pode se reproduzir também entre nós. Se sua origem privada já seria um ponto de ressalva para este velho comunista, não posso negar que o ingresso de 25 dólares para adultos, com gratuidade para crianças e moradores do entorno cadastrados no LM37, é o preço médio de qualquer grande museu, o que torna a visita relativamente acessível para fãs como eu. Estou em crise de consciência. Eu iria… mesmo?
Uma memória em objetos
Eu costumava imaginar a coleção pessoal de George Lucas. Cheguei a comprar alguns livros, como Industrial Light & Magic: Into the Digital Realm, de Marc Cotta Vaz, publicado pela Del Rey Books em 1996. Um grande amigo de viagens acabou ficando com meu exemplar de The Making of The Empire Strikes Back, de que não recordo o autor. Mas o que realmente faz falta em minha biblioteca é o álbum de figurinhas de Star Wars, publicado pela Editora Abril, que fiz na época. Onde foi parar? Perdi-o entre uma mudança e outra. Se para mim um simples álbum de figurinhas tinha valor, imagine para o meu xará, que teve condições de reunir ilustrações, desenhos conceituais, estatuetas, maquetes, objetos de cena e toda a parafernália vinculada à produção de sua obra e ainda construir um museu para chamar de seu.
Lucas tentou fazer um desvio importante: o museu não seria um memorial de Star Wars, mas uma instituição dedicada ao que ele chama de “ampla história das imagens narrativas”. Por isso, a coleção inclui obras de artistas como Vincent van Gogh, Frida Kahlo, Diego Rivera, Jacob Lawrence, Norman Rockwell, Charles White, Gordon Parks, Judith F. Baca, Robert Crumb, Frank Frazetta e Banksy. Mas, para o público comum e fã como eu, sabemos que o grande atrativo comercial do museu são os materiais ligados aos primeiros filmes de Star Wars: veículos, modelos, desenhos de produção e objetos utilizados na realização dos filmes. Entretanto, com o passar dos anos, para mim, o interesse deixou de ser o objeto pronto, o filme, e passou a ser o processo de sua produção. Como se faz para transformar cinema em documento museológico e o que isto significa?
É que, por alguma razão, sempre tive curiosidade em saber como eram feitas as cenas desses filmes. A tal da… magia dos efeitos especiais! Vi Star Wars associado a George Lucas, mas aos poucos fui descobrindo seus colaboradores, como John Dykstra, mas também Douglas Trumbull e Richard Edlund. Essa dimensão coletiva do trabalho sempre me interessou. Não apenas Lucas, mas seus ilustradores, figurinistas, escultores, técnicos, cenógrafos, designers, animadores, engenheiros e pesquisadores: a enorme lista que aparecia no fim do filme e que chamamos de “créditos”. Eis eu de novo diante do capitalismo que critico: Hollywood não passa de mais uma grande indústria, mas também é o lugar de uma dimensão coletiva de trabalho. Basta observar as greves recentes dos atores, roteiristas e dubladores, muitas delas motivadas pela necessidade de proteger seus membros do avanço da inteligência artificial na produção cinematográfica. A greve conjunta de atores e roteiristas de 2023 foi uma das maiores paralisações da história da indústria. Eu gostaria que o Lucas Museum as tivesse retratado, mas elas não estão lá.
A fusão dos impérios
Hoje, a Lucasfilm faz parte do império Disney. Lucas vendeu sua principal empresa em 2012, mas já mantinha relações com a empresa por meio dos parques temáticos que mantinha ali. E depois, mesmo com todas as divergências com o Império sobre os destinos da franquia, houve reaproximação. Business is business. Não foi fácil para Lucas fazer seu museu. Descubro que a história de sua construção foi marcada por conflitos: Lucas tentou instalar seu museu em São Francisco e Chicago antes de optar por Los Angeles. Em Chicago, sofreu oposição de organizações defensoras dos espaços públicos, pois o projeto seria construído junto à área do lago Michigan. Em São Francisco, enfrentou impasses burocráticos por causa das restrições de zoneamento e divergências sobre o desenho do edifício. Não dá para botar um prédio desses em qualquer lugar. Há antecedentes.
Não é fascinante que mesmo um museu financiado por uma fortuna privada enfrente resistências? Ele não lhe dá simplesmente a cidade: um museu é um investimento de capital, mas também um lugar de tensão. Sempre entendo que é melhor recuperar espaços históricos, mas Lucas tinha outros objetivos em mente. Só em Los Angeles o projeto foi aceito porque Lucas aceitou integrar um complexo cultural formado por universidades, equipamentos esportivos e áreas públicas. Em troca, ofereceria jardins, espaços de convivência, biblioteca, cinema, programas educativos e acesso gratuito à cultura à comunidade local. É que o edifício foi construído no Exposition Park, próximo a comunidades negras e latinas. Leio que reportagens locais destacaram a diferença entre a escala bilionária do projeto e a renda relativamente baixa da população do entorno, além de questionamentos sobre contratação local. Pronto, estou de volta à crítica capitalista.
Entendo que o acesso gratuito não resolve tudo. Descubro que Lucas criou o passe LM37 em seu museu para permitir que moradores do CEP 90037, seu entorno, entrem gratuitamente, mas isso pode produzir uma contradição: o pobre consegue entrar no museu, mas, com o tempo, talvez não consiga mais morar perto dele. Será esse o destino do Lucas Museum, ser apresentado aos turistas para consumo ao mesmo tempo em que expulsa os pequenos negócios e formas populares de ocupação? É o que Henri-Pierre Jeudy chama de patrimonialização seletiva do território: o museu reconhece uma cultura e uma população, mas, aos poucos, devido aos efeitos de sua criação, seus moradores podem perder o acesso ao próprio lugar.
Lutas pela memória
Depois da luta social propriamente dita, vêm as lutas pela memória. Que história o Lucas Museum quer contar? No campo da museologia, isso significa observar como o Lucas Museum opera a patrimonialização, porque, segundo Henri-Pierre Jeudy, o patrimônio não é simplesmente aquilo que sobrevive ao tempo. Ele é construído por instituições que selecionam objetos, retiram-nos de seus circuitos originais, atribuem-lhes novo valor social e transformam um lugar. Um storyboard, uma estatueta ou uma maquete de cinema não são apenas instrumentos de produção. Quando entram no museu, tornam-se documentos históricos e objetos de contemplação. Mas a perspectiva crítica externa questiona como ele afeta seu entorno; a interna questiona como se produz o processo museal em seu interior. A cultura da minha geração, que viveu a experiência proporcionada pelo filme e por seu universo, se atreve a dizer que o álbum de figurinhas que perdi faz parte disso, também integra uma herança coletiva. Se Lucas está certo ao afirmar que a humanidade é uma espécie que conta histórias por imagens, que imagens selecionamos? Quem as seleciona? Que grupos sociais as produzem? Que experiências são reduzidas a temas visuais?
Estou aqui pensando em Levantes, a exposição realizada no Sesc Pinheiros em 2017, na qual Georges Didi-Huberman analisa gestos, clamores e manifestações políticas de uma vasta cultura visual. Essa sim merecia um museu como o de Lucas. É uma leitura que cruza arte e ativismo – algo que realmente importa nos tempos em que vivemos. Gosto de Didi-Huberman porque ele tem um olhar sutil, observa os elementos como as forças da natureza, nos mostrando como a imagem de ventos e tempestades se transforma em metáforas para as lutas sociais. Ele analisa os gestos, tomando o corpo humano como primeiro território da revolta: braços erguidos, punhos cerrados, expressões de indignação. Reconstrói as palavras presentes em manifestos, panfletos, cartazes e poemas. A imagem torna-se lugar de expressão do desejo revolucionário e memória das lutas.
Nesse sentido, a proposta de exposição de Lucas e a de Didi-Huberman apresentam duas diferenças importantes. A primeira é quanto ao foco das exposições. A exposição de Lucas busca narrativas de identificação pessoal baseadas no sentimento de aventura, nos mitos atualizados e nas sensações produzidas em minha geração, em minha infância, o que me seduz. A exposição de Didi-Huberman corresponde ao ideal de adulto que me tornei: a busca das narrativas de ruptura, do conflito com a dominação e da insubmissão política diante dos poderosos. A segunda é quanto ao público a que se destina e o tom que adota. A exposição do Lucas Museum é para fãs da narrativa visual e aposta no acolhimento e no deslumbramento popular. A exposição de Didi-Huberman é para militantes, é um exercício crítico, histórico e urgente sobre luta de classes e insurreição. Meu coração bate por Lucas, mas minha mente é Didi-Huberman. Mas por que a criança que ainda existe em mim vibra com o Lucas Museum?
Arquiteturas do futuro
A resposta talvez esteja em Pierre Nora: isso faz parte da memória. Ela não é produto apenas da vida adulta; também contém reminiscências da juventude. O Lucas Museum possui a memória pessoal de seu autor e se alimenta de minha memória, do registro da experiência de ver Star Wars e, por isso, identifica-se com ele. O cinema é parte da memória social, e a ficção científica é cultura popular. Existe, no entanto, um ponto de contato entre a criança que está em mim e que viu Star Wars no cinema e a ficção científica de hoje. Mark Fisher mostrou em Constructos Flatline – Materialismo Gótico e Ficção Teórica Cibernética (Ubu, 2026) como a ficção científica examina as fronteiras entre humanos, máquinas, simulação e informação no capitalismo contemporâneo, e Michel Nieva, ao discutir o tema em seu Ficção científica capitalista (UBU, 2026), aponta que o gênero foi colonizado e transformado em propaganda corporativa capitalista. Já não perguntamos que tipo de futuro queremos. Aceitamos a ideia de que o único futuro possível é a continuação do capitalismo, guiado e administrado por corporações.
O próprio Museu Lucas é sua imagem. Ele modifica a memória do Exposition Park, com suas instituições, histórias comunitárias e conflitos territoriais. Chega ao lugar não apenas como um edifício bilionário, mas como narrativa de inovação e de cultura global. Não é apenas a história universal das imagens que está em jogo. Subterraneamente, está também a história de Lucas como empreendedor: uma trajetória pessoal de sucesso baseada em seus filmes e em sua coleção, exatamente o modelo que o capitalismo visa promover. Esse é o sentido zizekiano desse museu: ele não esconde a ideologia de que é portador; revela-a. Ao mesmo tempo que mostra a importância dos quadrinhos e do cinema, deixa em segundo plano as relações de trabalho que os produziram e a concentração econômica da indústria cultural. Está expresso ali o ideal de conciliar tecnologia e natureza, mas essa conciliação é problemática. Como mostrou Anselm Jappe em A Sociedade Autofágica: capitalismo, desmesura e autodestruição (Elefante, 2021), o desenvolvimento tecnológico capitalista não visa satisfazer necessidades humanas ou preservar o ambiente; busca extrair e queimar uma quantidade cada vez maior de recursos naturais para manter altas as taxas de lucro. É um processo autofágico, de devoração da biosfera. Não há conciliação pacífica com a natureza.
Arquiteturas do passado
O Lucas Museum não é apenas uma imagem para representar o capital, mas quer ser um lugar para mostrar narrativas sobre imagens. Ele não consegue, entretanto, fugir da própria imagem de museu-ícone, feito para ser reconhecido, fotografado e incorporado à identidade da cidade. Nesse sentido, aproxima-se do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, projetado por Oscar Niemeyer. Ambos desafiam a rigidez tradicional dos museus e encarnam uma imagem de futuro. Outros museus anteciparam essa linguagem, como o Pingtan Art Museum, na província de Fujian, na China, e o Kunsthaus Graz, na cidade de Graz, na Áustria. Ambos possuem a mesma arquitetura biomórfica e tecnológica do Lucas Museum. Parecem naturais, mas são produtos de um projeto estrutural, modelagem digital e engenharia complexa. A natureza quer aparecer como linguagem estética integrada, mas é controlada pela técnica. Ela parece natural, mas é projetada, é artificial. Em vez de integrar-se à paisagem, transforma-a.
Sou antiquado. Para mim, museu mesmo é o Palácio Nacional da Ajuda, que conheci em Lisboa, o Museu Júlio de Castilhos e o Museu Nacional de Belas-Artes. O que eles têm em comum não é apenas seu acervo de patrimônio histórico, mas o fato de que seus próprios edifícios o são também. O Palácio Nacional da Ajuda foi uma antiga residência da família real portuguesa, assim como o Museu Júlio de Castilhos foi a do político que leva seu nome. Ambos possuem a arquitetura de sua época, e por isso, sua ligação à história de cada cidade ao longo do tempo é maior. São edifícios simétricos e monumentais, com colunas, frontões e detalhes. Nada têm das superfícies lisas dos museus contemporâneos.
Um museu liso demais
Por que a aparência do Lucas Museum importa? Em A Salvação do Belo (Vozes, 2019), Byung-Chul Han trata o liso como a estética de nossa época. Superfícies polidas e impecáveis definem a sociedade contemporânea. O Lucas Museum não oferece resistência ao olhar. Seu edifício encarna o ideal de consumo atual: tudo deve ser confortável, agradável e imediatamente compartilhável. É um ícone perfeito, feito para a selfie e para o like. Aliás, foi assim que soube de sua existência: por uma publicação que atravessou minha página nas redes sociais. Nos termos de Han, o prédio liso funciona como espelho do narcisismo contemporâneo, exatamente como a tela do celular. Não há confronto com o outro arquitetônico, com seus detalhes e imperfeições, e assim intensifica-se o narcisismo do sujeito da sociedade do desempenho. Meu olhar sobre sua superfície me basta.
Talvez o único lugar da saga Star Wars associado à imperfeição seja Han Solo e sua Millennium Falcon. Lembro-me de como ria das gambiarras que ele fazia para manter a nave funcionando. Era um universo técnico muito diferente dos grandes cruzadores imaginados por Lucas. Museus construídos em prédios novos são diferentes dos instalados em prédios antigos. Nos primeiros, entramos em um lugar destinado a mostrar. Nos segundos, em um lugar destinado a conservar. A gramática do Lucas Museum é assim. Sua superfície tecnológica parece dizer a frase-símbolo da venda capitalista: “aqui você está adquirindo uma experiência”. O museu clássico, como o Júlio de Castilhos, não precisa dizer isso. Ele se basta. Seu prédio afirma: “aqui está uma instituição tão antiga quanto este acervo”. Ele dialoga com o acervo porque integra a história de Porto Alegre, assim como o Museu Nacional de Belas Artes integra a formação artística carioca.
Museus e mercado
Muitos vão me criticar, mas não vejo os museus como lugares de exposições digitais, grandes instalações e eventos musicais. Vejo-os como lugares de aprendizado a partir dos objetos que estão nele, como pretende a museologia clássica. Sei da crítica deles aos objetos-fetiche, reconheço a importância das bibliotecas e dos programas educativos sem eu interior, mas a relação entre edifício, acervo e público continua para mim essencial. E público é aqui também a cidade que recebe e abriga o museu. Afasto-me da lógica dos prédios que chamam mais atenção do que o acervo e assim buscam atrair visitantes e gerar negócios, embora não possa negar que alguns desses edifícios desempenhem papel importante na vida cultural das cidades. O Pingtan Art Museum transformou uma área costeira em destino cultural e o Harbin Opera House, outro museu chinês, reposicionou sua cidade no circuito internacional da arquitetura e das artes. O problema é que, como eles, o Lucas Museum já nasce pronto, respaldado pelo sucesso de uma marca global.
Lembro do esforço para criar e atrair público para cada exposição do Museu Joaquim Felizardo. Era necessário comunicar-se com os visitantes, explicar os objetos e construir uma relação com a comunidade. Mas ali havia aprendizado museológico. Entendo que, na era do turismo como indústria, o museu se tornou um investimento que ultrapassa a coleção. Não sei por que seria uma experiência única visitar o Lucas Museum e não o Museu Júlio de Castilhos. Talvez porque o primeiro já não seja apenas um museu, mas uma nova forma de shopping center ou parque temático: exposição, cinema, restaurante, loja e pontos destinados às fotografias para as redes sociais, que importam mais que os objetos. No museu tradicional, o olhar concentra-se no objeto, do qual se aprende. No Lucas Museum, temos que o objeto esteja ali, sobretudo para a selfie. Quando deixamos de fazer isso e passamos a consumir a arquitetura dos museus como mercadoria simbólica? Sou do tempo em que íamos ao Júlio de Castilhos com uma turma, preparados pelo professor. Líamos as legendas e aprendíamos sobre o lugar com os guias; fazíamos perguntas. Hoje, o guia é uma gravação. Fim das perguntas, fim da interação. Eram tempos sem celulares, quando o conteúdo importava mais que o percurso. Eu queria aprender, não apenas dizer que tinha estado ali. Não existia a possibilidade de registrar a experiência como imagem; anotávamos o que importava no caderno.
Se as pessoas vão ao Lucas Museum apenas por sua arquitetura, estão indo no lugar certo pelos motivos errados. A visibilidade não pode substituir o conteúdo. Se um dia eu for – e gostaria de ir -, espero lembrar de sua proposta museológica, não apenas da “nave do Lucas”. Como em Lisboa, vou temer mais uma vez de estar participando de processos de exclusão por meio do turismo. A gentrificação utiliza museus para transformar áreas habitadas por moradores em lugares privilegiados para investidores, pessoas de maior renda e turistas. No Brasil possuímos prédios históricos que, se fossem reformados, poderiam receber equipamentos culturais, mas ainda teimamos em construir novos prédios… arrojados! Bobagem! É o caso do novo Museu da Imagem e do Som, previsto para ser aberto em 2027 no Rio de Janeiro. Por que construir outro quando há outros prédios notáveis que necessitam de reformas? Se abandonarmos nosso patrimônio histórico, quem os preservará?
Museus de ficção científica
Quando penso no motivo que me faria visitar o Lucas Museum, respondo: a ficção científica, é claro! Ele, entretanto, não é o único museu dedicado ao tema. Pesquiso e descubro que há a Maison d’Ailleurs, em Yverdon-les-Bains, na Suíça, que reúne livros, quadrinhos, revistas pulp, cartazes, brinquedos, imagens e obras de arte. Há também o Museum of Pop Culture, em Seattle, que mantém coleções e exposições sobre música, cinema, televisão, jogos e ficção científica. Ao propor o conceito de narrativas, o Lucas Museum amplia o campo da ficção científica ao relacioná-la com pintura, ilustração, mitologia, quadrinhos e cinema. Mas essa ampliação também oferece um risco: o da diluição da sci-fi em uma história universal das imagens.
Mas eu realmente entendo que é essa a história prioritária para um museu? Hoje estou mais próximo de uma museologia de esquerda, como propõe José do Nascimento Júnior em Museus e Esquerda: uma forma crítica de pensar a memória (Brasiliares, 2026). Ele defende que o museu deixe de ser depósito de relíquias das elites e se transforme em ferramenta de luta política, justiça social e transformação da memória. Sua crítica dirige-se à museologia tradicional, que, embora valorize o objeto, também pode servir de vitrine para as elites e cristalizar narrativas de poder. Ao defender a descolonização das instituições, recoloca a pergunta sobre quem tem o direito de selecionar o que é patrimônio.
A ideia de uma museologia social, e não apenas de consumo, interessa-me. Ela desloca o foco do objeto raro para os sujeitos sociais. Investe em museus comunitários, periféricos e de grupos indígenas e quilombolas, que devem ser proponentes e gestores de suas próprias memórias. Para isso, o Estado precisa assumir seu papel de indutor de políticas de memória. Um museu de ficção científica deveria perguntar quais futuros são representados e quais utopias são expressas, mas principalmente, o papel dos grupos sociais nessa narrativa. Mas, quando os temas do gênero já estão presentes na realidade – distopias autoritárias, robôs e inteligência artificial -, ainda precisamos de um museu de ficção científica?
Quem decide a memória?
O Lucas Museum nasceu da fortuna privada de seu autor, que transformou sua coleção pessoal em patrimônio público. Conheci inúmeras coleções lutando para sobreviver: o acervo do estilista Cattani, o do jornalista Alberto André e os de outros escritores. Alguns foram absorvidos por instituições; outros continuam ameaçados e outros se perderam no mundo. Os acervos, como as pessoas, também são vítimas da desigualdade. Acervos que sobrevivem graças à riqueza de seus proprietários devem nos lembrar de que há outros lutando pela própria existência. O fato de uma coleção estar em uma garagem e não em um edifício construído para ela não significa que não tenha valor. Nem todos os acervos vendem. Mas todos precisam ser preservados.
Não construímos museus para competir entre cidades ou valorizar imóveis ao redor. Construímo-los para a utopia necessária da difusão e da preservação da cultura. Lucas transformou sua riqueza econômica em poder cultural, definindo o que entende que deve ser lembrado. Se as decisões sobre o que deve ser lembrado passam a depender daqueles que possuem capital, como Lucas, corremos o risco de aceitar como verdade a ideologia de que são portadores. Lucas quer reunir alta cultura e cultura popular, passado e futuro, arte e tecnologia. Vende uma conciliação, embora os antagonismos permaneçam. A galeria de exposições do capital nunca é inteiramente democrática. Os trabalhadores que produziram os quadrinhos, filmes e imagens expostos também estão submetidos à precariedade. E os acervos que não vendem, também. Lucas conseguiu construir um museu sedutor. Mas, quando um museu também quer vender uma cidade, o que está fazendo? Uma instituição museal não é pública apenas porque recebe visitantes. Ela é pública quando suas decisões, seus territórios e suas narrativas são compartilhados democraticamente. Mas… onde foi parar meu álbum de figurinhas?