
Desperto, de uma só vez. A respiração ofegante, o coração acelerado. Demoro alguns segundos para me localizar em minha própria cama: Luigi dormindo pacífico de um lado, do outro, no chão, Sol deitada em formato de bolinha e Lupo ressoando um ronco que parece mais um ronrom. “Ufa, não era real.” Respiro fundo, acalmo os pensamentos, volto a dormir.
Os sonhos intrigam a sociedade desde os primórdios, tendo sido considerados divinatórios (visões, profecias), e, até hoje, parte importante da psique humana. No Egito, na Grécia, entre povos ameríndios, o sonho era assunto de Estado, guiava decisões políticas, anunciava guerras, indicava caminhos.
Faz tempo que ando às voltas com o livro O Oráculo da Noite, de Sidarta Ribeiro, um livro denso, que atravessa a história e a neurociência para tentar responder a uma pergunta que a humanidade nunca deixou de fazer: para que serve o sonho? O que retiro da leitura, até agora (ainda não terminei), é a de que esse estado funciona como uma espécie de oráculo probabilístico: o cérebro simula cenários possíveis, testa saídas, enfim, tenta adivinhar o que pode acontecer.
Por isso, sonhamos tanto com medos e situações de risco: é um ensaio evolutivo, uma forma de “treinar” reações antes que aquilo aconteça de verdade. A teoria é a de que ancestrais que “treinavam” mentalmente reações a perigos (um predador, um ataque, uma queda) durante o sono estariam mais preparados para reagir rápido se a ameaça acontecesse de verdade, e isso teria sido selecionado ao longo da evolução porque aumentava a chance de sobrevivência.
Observo Lupo, meu cão, sonhando quase todos os dias. Sei que está nesse estado de consciência, pois ele rosna, late baixinho, mexe as patinhas simulando que está correndo e até mesmo mama nas tetas invisíveis de sua mãe. Imagino quais serão os temas de suas histórias oníricas… Será que sonha comigo? Com a Sol? Será que os amigos que fez na creche canina também são personagens? E seus irmãos biológicos, que são oito, mas ele só convive com um? Será que seus sonhos também refletem situações possíveis, ou será que são mais abstratos? Será que sonha com monstros, fadas ou outras fantasias?
Recentemente, a pedido da minha terapeuta, comecei a anotar meus sonhos em um caderno logo que acordo. Está sendo um processo interessante de reflexão e autoconhecimento. Por enquanto, eles parecem realmente refletir medos e simular, de diversas formas, situações adversas que já ocorreram e que podem voltar a acontecer. São recheados de emoções e pessoas com quem convivo, apesar de, semana passada, eu ter sonhado que uma menina que estudou comigo na escola (e nunca foi minha amiga, nem inimiga: uma pessoa irrelevante) tinha… pintado o cabelo.