
Não me agrada muito ficar escrevendo sobre o famigerado mandatário da nação do Uncle Sam. Todos sabemos de quem estou falando. Como dizem os gringos: “I could care less“. Porém, me incomoda em demasia que alguém possa pensar a si mesmo como o imperador do mundo.
Narra a história oficial que, em 1492, Cristóvão Colombo “descobriu” a América, e, em 1507, o cartógrafo alemão Martin Waldseemüller batizou como América o conjunto de terras originalmente denominadas de Abya Yala (Povo Kuna), da sequência de habitantes do norte da Colômbia e Panamá; Pacha Mama (Povos Andinos), grupos da compartilhada região andina; Cemanáhuac (Astecas/Mexicas); e, Pindorama (Povos Tupi-Guarani), povos habitantes do Brasil, da América.
Entretanto, em torno daquele ano, havia em nossa América do Sul aproximadamente 25 milhões de pessoas. Destas, entre 8 e 10 milhões habitavam na região amazônica, morando em complexos urbanos que preconizaram o que hoje seria chamado de cidade-jardim, em face de que suas habitações se misturavam com a floresta.
É provável que em toda a América existissem até 60 milhões de pessoas utilizando em torno de 1200 idiomas nativos. É importante salientar que esse número espantoso de moradores era quase igual aos que viviam na Europa. Mas não vem ao caso. O fundamental é asseverar, como disse o historiador e filósofo mexicano Edmundo O’Gorman, que a América foi uma invenção do pensamento ocidental, a criação de um conceito europeu moldado pelas suas necessidades. Mas a “América” só passa a existir quando os europeus se dão conta de que as terras encontradas não pertenciam ao mapa asiático conhecido. O continente foi, deste modo, uma invenção conceitual do Ocidente que alterou a cosmovisão medieval e deu início à modernidade. Portanto, trata-se de uma construção ideológica e cultural da Europa e, consequentemente, uma ideia falaciosa.
Para Enrique Dussel, a conquista violenta não foi a “descoberta” de um mundo pacífico, mas o seu encobrimento, silenciando a alteridade, a cultura e a humanidade dos povos que já habitavam o território. O filósofo Roque Zimmermann, em seu livro “América Latina, o não-ser”, defende que a região e seus povos foram historicamente reduzidos à condição de “vítima”, tendo a sua “alteridade negada” pelas metrópoles hegemônicas. Esse pensador explica que os nativos só ganham status antropológico à medida em que aderem à cultura do branco domesticador.
As sandices do Chefe dos Estados Unidos denotam o projeto de perpetuar todo o rosário colonizador das Américas. Sua extrema arrogância o aproxima em demasia daquele sapo da clássica fábula de Esopo, “O Sapo e o Boi”. A fábula narra que o cururu observava um bovino que pastava tranquilamente. Conta-se que o bicho, admirado e invejoso do porte grandioso do bovino, tomado por uma incontida inveja, começou a inflar a sua barriga, estufando-a cada vez mais até chegar a explodir. Parece que o mandatário está a se considerar o boi; mas, do tanto que está inflando, mais se assemelha ao anfíbio.
Incomodado com o nosso exitoso sistema de pagamentos Pix, ele decidiu condená-lo como inimigo do Tio Sam. Não bastasse a façanha, resolveu entender que nosso soberano governo não está cuidando devidamente das milícias organizadas em torno do narcotráfico. Acusou-nos de concessão de tarifas desleais a negócios com a Índia e o México. Propugnou que fazemos restrições ao mercado americano de etanol. Alegou como inadequada a aplicação de leis relativas ao trabalho forçado e ao desmatamento. Reclama da nossa regulação, que afeta plataformas digitais e a remoção de conteúdo político das redes sociais. Assim, resolveu nos punir, ou ao menos, mobilizar nossos esforços para tentar conter ou minorar o prejuízo.
Parece que Donald Trump, com suas incontidas aberrações, está convencido de que tem poderes absolutos sobre o mundo. Seu comportamento centralizador está caracterizado por atitudes de ameaças comerciais agressivas e desrespeito a organismos multilaterais. Isso indica que atua sob a premissa de que os interesses dos Estados Unidos possuem primazia total sobre as demais nações. Ele abandona alianças históricas em favor de um exercício bruto de poder econômico e militar. É aquela antiga história: “A América para os americanos” – do Norte, mais precisamente, dos EUA. Vivemos sob a égide do comandante de todas as terras do Tio Sam. Em um recente artigo publicado na revista Liberta (Ed. 39), 39), Leonardo Boff observou que “junto à figura de Trump, devemos agregar Benjamin Netanyahu, o monstruoso Herodes, genocida de milhares de crianças inocentes. Parafraseando Chico Buarque, com o seu “fado tropical”, é possível cantarolar: “ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal”, e ainda vai tornar-se uma imensa Trumpslândia.
Meu amigo leitor, “longe das cercas embandeiradas que separam quintais” (Raul Seixas, 1973), somos o corajoso povo brasileiro. Precisamos atentar que nossa soberania é o que há de maior bem. Muito antes desses desvarios do Trump – que acredita governar “o país do mundo” – e do processo colonizador dos europeus, nossa terra já tinha dono. Talvez devamos rememorar a ousada frase de Sepé Tiaraju, no século XVIII, quando, ao liderar a Guerra da Guaranítica, assegurou: “Esta terra tem dono!”. Não esqueçamos, pois, que nós somos estes donos.
A escritora, poeta e pesquisadora Macuxi Trudruá Dorrico, em seu belo livro “Tempo de Retomada”, indaga em um dos seus textos: “Quando você vai perguntar meu nome?” A obra reúne poesia, prosa, documentos históricos e manifesto político. A autora confronta o apagamento histórico e o racismo estrutural, conclamando ao resgate de territórios físicos, culturais e afetivos dos povos originários. No texto, ela contesta a visão colonial de que o Brasil era uma “terra vazia”, afirmando a presença e o protagonismo indígena, criticando o apagamento de nomes originários e a imposição da língua portuguesa.
Trudruá desabafa que nasceu “como um projeto coletivo de sobrevivência”, indagando: “Você não acha um abuso eu usar a palavra so-bre-vi-vên-cia?”. Não tem respostas, mas tem memória do que fomos e do que poderíamos ter sido. Por isso, ao perguntar “você sabe o que é colonização?” desabafa que “chamam de colonização o que deveria ser chamado de genocídio”.
Sim, Trudruá Dorrico reaviva a certeza de que somos os donos de nossas terras. Nem América de Vespúcio, nem domínio do Capitão América. Nossos ancestrais plantaram aqui nossas raízes e seu sangue espalhado em cada palmo desse Brasil imenso irriga nossa alma, aduba nossa luta. Não temos senhores que metam a mão em nossa casa e determinem os rumos que devemos seguir, pois, de ninguém, somos quintal. Trump é muito mais que um homem só. É a manifestação contemporânea da antiga aliança entre o grande capital e o autoritarismo; por isso, não se trata de um surto isolado. Se formos cedendo aqui e acolá, daqui a pouco não haverá mais pelo que lutar.
No épico A Resistível Ascensão de Arturo Ui, Brecht satirizou como um gângster pode ascender ao poder na democracia, valendo-se do medo e da retórica messiânica. Ele veria o estilo de Trump não apenas como vaidade, mas como uma engrenagem teatral calculada para capturar o imaginário popular.
O poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa publicou, na década de 60, seu famoso poema “No caminho com Maiakóvski”. Seu verso mais conhecido é:
Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. / Na segunda noite, já não se escondem: / pisam as flores, / matam nosso cão, / e não dizemos nada. / Até que um dia, / o mais frágil deles / entra sozinho em nossa casa, / rouba-nos a luz e, / conhecendo nosso medo, / arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.
No artigo publicado no “Le Monde Diplomatique Brasil”, de 4/02/2026, intitulado “Trumpinho, o ‘superpoderoso’ que quer ser dono do mundo”, Ivanilson Miranda Silva redige que “Donald Trump é um presidente descontrolado, que ameaça aliados históricos e coloca em risco a própria condição imperial dos EUA”, e conclui, refletindo que “a história, como sempre, ditará os rumos. A nós resta tentar viver, resistir e compreender as mudanças em curso. Sigamos!”
Os episódios que temos vivido, sejam induzidos ou não por brasileiros que desvalorizam nossa soberania, nos convocam a uma longa e profunda reflexão sobre aquilo que nos pertence e sobre a forma como devemos ficar vigilantes. Como bem diz Trudruá, “Se essa terra sempre foi nossa, ela sempre será. Devagar com nossa história, qualquer tentativa de apressá-la será um sacrilégio. “O meu tempo não é lento, é longo.” Além disso, nunca é demais ecoar Thiago de Melo: “Vamos juntos, multidão, trabalhar pela alegria; amanhã é um novo dia”. Finalizando, deixo para o grande ditador o recado de nosso Patativa do Assaré: “Cante lá, que eu canto cá”.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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