
Cheguei a pensar em criar uma cátedra do amor na universidade. Andei investigando teses, artigos e conteúdos programáticos de disciplinas que se ocupam do tema. Dialoguei com amigos; alguns fizeram chacota por não entenderem bem qual era o meu interesse em problematizar o assunto desde a filosofia e dos direitos humanos; outros aplaudiram a ideia.
A dificuldade todinha, quero crer, centra-se no debate romantizado sobre a questão. Ainda por cima, há alguns fenômenos entre nós que traduziram o amor como sinônimo de posse, de recusa absoluta da liberdade individual, de congraçamento sexual etc. Certos entendimentos criaram obstáculos para que o tema fosse assumido como um problema de pesquisa válido para escrutínio científico no ensino superior. No máximo, seria um subtema daqueles e daquelas que se põem a estudar psicologia e psicanálise e que se deparam com o mesmo em suas clínicas. Quem sabe sociólogos e teólogos também o façam por dever de ofício.
Procedi a uma busca na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações de trabalhos produzidos desde o tema. E olha só! Em uma averiguação breve dos últimos cinco anos, observei 7.220 menções para o termo “amor”. Fiz o mesmo no SciELO – Scientific Electronic Library Online, onde identifiquei 2.530 artigos científicos publicados. Autores contemporâneos se dedicaram a confabular sobre o assunto, só para exemplificar: Ulrich Beck e Elisabeth Beck-Gernsheim (2001), Eva Illouz (1997; 2011), Zygmunt Bauman (2004) e Michel Mafessoli (2014), Axel Honneth (2003), Georg Simmel (2018), Erick Fromm (2015), Bell Hooks (2000), Paulo Freire (1996). Assim, ficou patente que as mais diferentes áreas do conhecimento têm se detido a especulações concernentes ao problema sob diversos aportes.
De modo especialíssimo, Luc Boltanski (1990) nos ofereceu uma excelente reflexão sobre o amor. Além disso, o professor e pesquisador pernambucano, Lucas Gallindo, tem produções fundamentais sobre o assunto. Devo citar: “O Amor como Paradigma” (2018), “Relacionalidade e Justiça: O amor como paradigma” (2024), “A Cidadela: O amor como paradigma” (2024). Em setembro de 2023, a International Sociological Association criou o GT12 – Social Love and Solidarity.
Honneth (2009), para quem o amor é uma esfera de reconhecimento, define que “por relações amorosas devem ser entendidas aqui todas as relações primárias, na medida em que elas consistam em ligações emotivas fortes entre poucas pessoas, segundo o padrão de relações eróticas entre dois parceiros, de amizade e de relações pais/filhos”.
Camões (1598) definiu o amor como um sentimento cheio de contradições: uma força invisível que queima, uma dor imperceptível, uma alegria insatisfeita e um tormento sem causa aparente, ou seja, não há como defini-lo. Vinicius de Moraes afirmou-o como mortal, “posto que é chama”. Não sabemos em absoluto o que é o amor! Mas conhecemos e experimentamos coisas pelas quais pensamos identificá-lo, como, por exemplo, a presença da pessoa querida, a elevação espiritual diante do sagrado que nos conforta, o singelo sorriso da criança, a bênção despretensiosa do ancião amigo, demonstrações concretas de cuidado, atenção, respeito incondicional. São eventos que passam rapidamente, mas deixam rastros duradouros; são afetos que nos tocam profundamente, memórias que atravessam toda a nossa existência. Às vezes, gestos ínfimos se tornam grandes pela sua gratuidade.
Aprendi com Nietzsche (2000) que o amor deveria ser algo não egoísta. É nessa vertente que quero me ancorar, aproximando-o de amizade. Amizade é a expressão de algo que não se possui, que contraria e provoca, e que se recusa a ser possuído e a se reger pela conveniência. Paradoxalmente, como proseou Saint-Exupèry (2025), “O amor é a única coisa que cresce à medida em que se reparte”. Para Quintana, “a amizade é o amor que nunca morre”. Há, também, a icônica frase de Jorge Luis Borges, que descreveu a amizade como um pacto de respeito que não exige demonstrações espalhafatosas, mas que está sempre lá, silenciosa e firme. Não tem a frequência como pressuposto.
O leitor deve estranhar porque iniciei minha prosa dizendo que almejei criar uma cátedra do amor e depois fui me afastando da história. Primeiro, relatarei eventos de desamor que me inspiraram nesse intento. Percebo claramente que vivemos uma ausência de amorosidade, a qual nos torna suscetíveis à vaidade exacerbada e à tentação de produzir conhecimento visando dinheiro e poder. Os fenômenos sociais externos ao ambiente universitário, como violência doméstica, feminicídio, racismo, delinquência e, sobretudo, a fome e o abandono de pessoas muito empobrecidas, seguem acompanhados por acontecimentos internos ao mundo acadêmico. No presente cenário, constatei em parte as problemáticas supracitadas.
A descrença no próximo, a falta de compromisso com a vida, a solidão tanto de docentes quanto de discentes, e a profunda ausência de respeito pelos direitos alheios, além do adoecimento, são fenômenos deveras preocupantes. A profissão inicial inerente à atividade docente deveria ser a crença nas potencialidades do/a estudante. Concebi, dessa maneira, que poderíamos concentrar-nos em estudar as raízes de tais fenômenos e os desafios para o reencantamento do mundo universitário. De modo que ele deixe de ser quase que exclusivamente uma agência de produzir profissionais — alguns tecnicamente competentes, porém fragilizados em sua formação humana — para se tornar uma casa focada na convivência e formação do sujeito como um todo.
O amigo pode argumentar que o que estou dizendo não passa de um sonho numa noite de verão. Eu assevero que não. Quantas vezes me defrontei com pessoas vítimas de descaso e desatenção, manipuladas em seu espaço de lazer, maltratadas por colegas. Corremos o risco de perder a dimensão humanizadora da educação usando como pretexto nossa profissionalização. Somos profissionais, sim. Devemos lutar para preservar o sentido e a memória de nossa atuação profissional. Mas, antes disso, somos gente. Afinal de contas, antes de serem professores, alunos, servidores públicos ou gestores universitários, somos todos pessoas. Garantir nossos direitos de cidadão e profissional não passa, em absoluto, pelo encobrimento do outro.
Se o amor se manifesta como amizade, cuidado e reconhecimento do outro, então a universidade contemporânea vive uma crise de amorosidade sempre que transforma pessoas em funções, despachantes da burocracia, títulos ou números. Uma cátedra do amor poderia investigar a amizade, o cuidado, a alteridade, a solidariedade, a convivência democrática, a saúde mental universitária e os direitos humanos como expressões da formação integral. Considerar que, longe de ser um afago, sinônimo de licenciosidade ou de falta de exigência na correta observância dos deveres acadêmicos, o amor deve ser pensado como uma condição moral para o reconhecimento da dignidade das pessoas. Trata-se de uma dimensão dialógica e dialética imprescindível à relação entre pessoas, condição primeira dos processos educacionais.
Muitas vezes causa-me espanto perceber que os compromissos com a burocracia ou os afazeres individuais são elevados bem além das pessoas. Defendemo-nos no escudo dos títulos e das atribuições, relegando a pessoa a um plano secundário. Parece que esquecemos que a universidade também é uma casa de educação. E educação é bem mais que a mera utilização de métodos e técnicas para a transmissão dos conteúdos mais atualizados, das teorias mais recentes, do aparato mais sofisticado. De nada valem equipamentos de última geração e laboratórios moderníssimos se a pessoa não tiver a primazia. A educação superior é um direito da cidadania, não um privilégio. O primeiro direito é o direito a ser gente, direito de todos.
Creio que toda política pública voltada para a melhoria da qualidade da educação universitária, incluindo o investimento em instalações físicas, as oportunidades de inserção em um mundo de excelência e as pesquisas mais avançadas e inovadoras que realizamos, não teria sentido algum se mirasse exclusivamente nossa inserção em ranks mais prestigiados.
Recordo-me de um bispo católico em visita a uma comunidade que escutou relatos do quanto o padre vigário era empreendedor, do tanto de obras que ele estava a edificar, do montante de recursos que conseguia mobilizar. Ao final, alguém entusiasticamente afirmou que o reverendo era tão atuante que mais parecia um trator. Ao que o prelado respondeu: “Preferia que ele fosse um pastor”. Ou seja, confirmar os irmãos no amor.
A amorosidade constitui uma categoria ética, política e pedagógica que transcende a esfera dos afetos privados e mira-os como uma maneira de estar no mundo e de se relacionar com os outros. Ela se ergue no reconhecimento de que a existência humana é, desde sua origem, relacional e interdependente, de modo que ninguém se realiza plenamente na indiferença, no isolamento ou na negação da alteridade. Ser amoroso não implica em abdicar do senso crítico, eliminar os conflitos ou nutrir uma disposição ingênua diante da realidade; significa, antes, reconhecer no outro um sujeito de dignidade inviolável, portador de uma história, de sofrimentos, de potencialidades e de direitos que reclamam respeito e responsabilidade.
A ideia de amorosidade possui uma dimensão eminentemente ética e política por se opor a todas as formas de desumanização, exclusão e instrumentalização da vida. Tem dimensão pedagógica, porque educar exige criar condições para que os sujeitos aprendam a conviver, a reconhecer-se mutuamente e a construir comunidades orientadas pela solidariedade, pela justiça e pelo compromisso com a dignidade humana. A amorosidade, portanto, não é um adorno sentimental da existência, mas uma força ética capaz de reencantar as relações humanas e de recolocar a pessoa no centro dos processos educativos e sociais.
O mundo, imerso no caos da “absoluta autoilusão” da vaidade do poder e da riqueza, perde sua essência e se esvazia de amorosidade, restando desfigurado e agonizante… Os momentos em que se respira vida são momentos que coincidem com as várias expressões do amor-social ou da amorosidade, como a amizade, a inclusão, a partilha, o respeito recíproco, o acolhimento, o cuidado para com os outros, a cooperação etc. Assim, não será uma concessão; antes, uma obrigação, defender que o amor, compreendido como amorosidade, amizade e reconhecimento do outro, constitui um requisito fundamental para a reconstrução ética da universidade.